Eugénio Tavares

Mornas
Cantigas crioulas

3ª. edição

Alfa-Beta-Sigma Norway

Eugénio Tavares

Morna e identidade crioula

Ao povo de Cabo Verde cabe o direito inalienável de se proclamar criador da morna - uma inegável propriedade que identifica uma nação inteira.

A morna é a voz sentida que é também a alma do povo cabo-verdiano.

O poema, que engloba o vasto repertório de mornas de Eugénio, é toda uma fonte inesgotável de beleza, de ternura, de humanidade, de amor e de busca constante de água cada vez mais pura e cristalina que brota duma nascente, mas sobretudo uma busca de identidade própria.

A voz do poema eugeniano continua, a toda a hora, a ecoar nas bocas das ribeiras, nos campos áridos das ilhas cabo-verdianas, nas cordas dos instrumentos musicais, no búzio que ressoa nos ouvidos do sonho, no coração amigo dos emigrantes em todas as latitudes, nas vozes livres dos poetas, nas conversas amenas, repetidas e sonolentas, no abraço madrigal dos namorados e nas vozes que surgem do fundo de todos os abismos e píncaros de todas as serras.

Eugénio Tavares, músico, autodidata, funcionário público, jornalista, polemista, dramaturgo, ficcionista e poeta, paradigma da crioulidade, autor de inúmeras publicações, é um nome marcante da morna e da história cultural de Cabo Verde.

O poema de Eugénio parece elevar-se a um plano que desconhece limites, ultrapassa, irreverentemente, o conceito que se tem de Deus, ao mesmo tempo que a poesia se agarra a uma realidade jacente, ainda que repleta de restrições, pois é no poema que ele se encontra consigo mesmo, é lá que o Amor se identifica como algo transcendente, real, para sulcar os labirintos complexos do ser do homem cabo-verdiano.

O Amor é igual a Deus, é escada, é salvação. God is Love e Love is God, são conceitos com a mesma significação.

O amor descrito no poema é uma realidade inerente que dispensa a necessidade de sonhar, glosado num lirismo de conteúdo universal, quantas vezes ampliado, quantas vezes glorificado.

Nas mornas Andorinha de bolta e Morna de Despedida há essa ideia de identidade condensada nos conceitos de lonjura, de distância, de terralongismo, de nostalgia, de saudade, de evasão, de apego telúrico, o que caracteriza o povo ilhéu - e lhe confere uma identidade própria.

Essa ideia marca em profundos sulcos o coração do cabo-verdiano.

O se câ bado, câ tâ birado, prolonga-se na vastidão da alma do cabo-verdiano e torna-se o lema consolador e libertador das algemas que o mar circundante, em cada instante, coloca nos sonhos ilhéus.

A morna é a doce expressão da alma do arquipélago ao manifestar alegria ou tristeza. Tem o brilho fulgurante das suas sublimes melodias que embala a alma e faz com que se revivam os melhores ou piores momentos de um passado às vezes longínquo, às vezes contíguo, como no dizer de Jorge Barbosa no seu convite à viagem:

Que venham ouvir
a alma do arquipélago
cantando mornas!
Haja o que houver,
alegria ou tristeza,
compondo, cantando,
dançando mornas
ao som do violão!

Na morna há uma musicalização da poética e uma poetização da música.

Isto é, a letra e a música se misturam e se confundem de tal forma e modo, que passa a haver, no conjunto da obra, uma reacção química, ou melhor físico-química, impossibilitando a separação de letra e música, mantendo integralmente todo o sentido artístico.

A maneira de articular e entoar a frase cantada enriquece música e letra. Isto constitui a riqueza poética e lírica neste género da canção cabo-verdiana.

Ela tem um brilho metálico nas suas melodias, é dolente na sua essência. É o género da música cabo-verdiana que melhor traz à luz da humanidade a expressão tão íntima, tão sentida da alma crioula ao manifestar afecções da alma.

A maleabilidade e a plasticidade demonstrada por Eugénio ao escrever poesia na língua nativa são uma prova de que o crioulo, apesar de não ter uma gramática, sem uma regra que põe freio à sua maleabilidade, tem suscitado interesse e admiração pelos inegáveis valores contidos nas poesias escritas nesta língua.

O poeta viveu a sua vida dedicado à ilha Brava que o viu nascer.

Os seus restos mortais se encontram no cemitério do Lém. Eugénio foi o primeiro nativista, verdadeiramente ferrenho despertador da consciência do povo que conduziria à identificação da nossa cultura e a consequente aurora da Nação Cabo-verdiana que hoje se orgulha possuir.

Momentos na sua vida houve em que à sua volta estouravam bolhas de sabão como se fossem picadas pela lança do riso de uns e de escárnio de outros, mas as mornas, as proezas, o lirismo, tinham-se apoderados do seu ser que nada o podia parar.

Entretanto, muito cedo, naquele dia de junho de 1930, a morte bateu à porta do poeta e ele baixou à cova daquele cemitério sem a presença amiga de um único político.

Continua, porém, a existir, e para sempre, na memória coletiva do povo cabo-verdiano, a figura do velho e valoroso cancioneiro que, de pena em punho, meteu esporas no ódio político e cavalgou pela vida fora, erigindo uma obra perpétua - uma série de mornas - que se projecta dum extremo ao outro de Cabo Verde, e dum extremo ao outro do Mundo, através dos séculos.

Pouco se tem escrito e sabido deste grande poeta cabo-verdiano. Apenas um estudioso, que eu saiba, tem-se debruçado fortemente à análise da obra literária no que respeita à relação entre esta e o seu autor.

Se a obra de arte é puramente ficcional, não é menos verdade que o mundo sugerido pelo autor é uma recriação pessoal e individualizada do real em que ele se insere e é uma projecção do seu próprio ideário de valores e de conceitos.

Isto o confirmam a vida e a obra fascinante de uma das figuras mais complexas das letras cabo-verdianas: Eugénio de Paula Tavares, sobre o qual se afigura nitidamente a constatação de que os limites entre o mundo por ele recriado, em verso ou em prosa, e a vida são bastante ténues.

Os dois planos não somente se interseccionam, mas, acima de tudo, se confundem.

O artista recria o universo, o que lhe confere uma nova ordem.

A ordem ou a influência presencista actuou sobre Eugénio de maneira muito especial.

A ordem presencista era a da intimidade alargada, da originalidade, da profundidade, da sinceridade e da verdade, o que conferiu à obra do poeta um valor de extrema importância.

Eugénio põe no Amor um timbre de eternidade, do transcendente, do platónico e sobretudo do filosófico. O Amor é tudo para ele.

É a encarnação da Beleza e da harmonia num corpo não visível e intocável. Mas é também a encarnação da Beleza num corpo real, numa alma viva.

É, muitas vezes, tão inacessível, inocente e grande que todos devem prestar-lhe homenagens e a ele submeterem-se totalmente. É o resplendor da perfeição espiritual e divina considerada como fonte primeira de êxtase e de adoração de todos os cretcheus.

O desejo maior de Eugénio é querer ser amado por alguém no mundo adjacente que o cerca. Prefere morrer a não ser amado. Vê no corpo e na alma do cretcheu o Amor como fim libertador e embriagante que o faz ascender a um nível superior à vida.

O Amor é uma revelação do Absoluto, do Divino, da Pureza platónica.

E quando se sente lançado ao ostracismo (foi marginalizado pelos principais círculos culturais e políticos da época) embala sua alma num manto de desespero e suplica ao mar que suspenda a zanga um momento para escutar a sua voz no sofrimento.

Do Amor nasce a amargura, da amargura nasce o Amor e desta amargura nasce a música dolente (o poema) que as Mornas de Eugénio ilustram.

Da mesma maneira: do sofrer nasce o poeta, do poeta nasce a poesia; com esta Eugénio ergue a canção cabo-verdiana do pedestal da beleza formal onde estava dormindo, onde o povo a amontoava, imerge-a do sorvedouro da vida e coloca-a ao alcance de todo o mundo.

Rompe os moldes clássicos e consegue fazer da música e da canção popular algo sublime; expressar problemas do dia a dia, evocar emoções, enternecer verdadeiramente os cretcheus, e, acima de tudo, reproduzir em música, na poesia e na prosa as angústias e os sorrisos de todo o mundo cabo-verdiano.

Muitos têm escrito belas poesias e composto belas músicas, mas as de Eugénio colocam-se num plano especial para o cabo-verdiano, formando uma parte tão valiosa e enriquecedora do arquivo da sua cultura, o mesmo que as peças shakespeareanas significam para os britânicos.

Eugénio já tinha desbravado o caminho da independência literária e política de Cabo Verde antes dos claridosos. Portanto, o sol claridoso nasceu com Eugénio e seus contemporâneos.

Pode-se dizer que ele cavou o alicerce e enriqueceu o fundo cultural, elevou o valor humano como valor primordial no lirismo cabo-verdiano.

Não o faz com poesias estranhas e pouco inteligíveis, mas com afeição nossa, sentimento verdadeiramente nosso, expresso num lirismo todo nosso, ao gosto nacional, com poema bebido e extraído em fonte popular e nacional.

O poeta a certa altura estampou em muitos dos seus versos uma sincera exteriorização poética do Amor.

Nesta obra, na qual se inclui a edição de 1969, se acrescenta o fio melódico de algumas mornas, para valorizá-la ainda mais como peça literária, o que realmente é.

Também se acrescentam duas mornas não incluídas na edição original.

Celebra-se neste ano os 75 anos volvidos desde a sua morte e, já não era sem tempo de lançar uma olhadela na obra de um dos expoentes da literatura cabo-verdiana para enaltecê-lo - já que consagrado ele já o é -, pois merece, como muitos outros, uma atenção maior do que lhe tem sido dada nesta travessia histórica.

Pensa-se que seria de toda a justiça que este poeta, que conquista o coração de todos, seja lembrado e homenageado e que as gerações vindouras venham a saber um pouco mais e perpetuar a memória deste poeta amigo do povo.

E como homenagem àquele que foi o orgulho dos bravenses e de todos os cabo-verdianos, encontra-se na praça que leva o seu nome, uma estátua do poeta com uma placa escrita com o seguinte memorial:

Lá nos confins siderais
Brilham astros singulares
Mas, na terra, UM brilhou mais,
P'ra sempre: Eugénio Tavares!

Seria uma homenagem maior se nesta obra se tivesse inventariado e anotados todos os trabalhos de Eugénio, mas a falta de fontes fidedignas impossibilita tal acção.

Esta obra contém o som eterno das mornas, o cântico do coro de todos os cabo-verdianos espalhados pelo mundo e, acima de tudo, o eco derradeiro da alma grandiloquente de Eugénio Tavares.

Noruega, 1 de Junho de 2005
Domingos Barbosa da Silva             

( Para Consultas e Pedidos de Obras do Autor ). 

 Correio Eletrónico:   dbdsilva@broadpark.no


Posfácio da 3ª. edição

Cada poesia deste trabalho é um mundo em si, embora o tema seja semelhante na forma.

A mensagem é quase a mesma: elevar o Amor a um nível supremo.

Os significados das diferentes poesias cruzam-se. Não é uma pérola de um rosário que só adquire significado ao receber a luz da pérola vizinha.

Cada poesia tem a sua forma própria, uma linguagem que reflete a beleza do falar da ilha Brava e o sentimento coletivo do povo cabo-verdiano, o que também reflecte uma condição sociológica de várias dimensões: a condição de amar e ser amado, a de sofrer e ver outros sofrendo, a obtusidade da gente grande, etc.

Sendo assim, penso ser o papel do leitor perquirir as linhas dos versos para ver e encontrar o "eu poético", uma vez que o poeta se distingue do cidadão, isto é, tendo em conta que a voz do poema equivale à voz do poeta, e não ao do cidadão de carne e osso e homem civil da sociedade que paga imposto e está sujeito às leis orgânicas do país.

E, uma vez que a voz do poeta é um eu contíguo do eu social, com consequências sociais fortes, supõe-se que o eu-cidadão não se encontra definitivamente enleado a esse eu fictício ou a esse sujeito de anunciação. O eu poético só existe no espaço dos textos aqui produzidos, isto é, contextualmente.

O cidadão-poeta (a matéria orgânica) com a ajuda do seu eu poético erige o poema que no fim parece obra de um demiurgo cuja missão fosse revelar o eu do poeta a si próprio.

Pode-se dizer aqui que a confissão do transe amoroso real ou onírico, aqui descrito, se converte em arte (poesia) porque se encontra 'caldeado' pela força da imaginação do autor.

Não se vai aqui lançar-se a uma profunda análise literária da obra do grande mestre, pois é uma tarefa que muito exige de "engenho e arte".

Vai-se, antes, com a maior simplicidade possível dedicar umas palavras de apreço ao poeta para colocar esta obra, que não é completa, ao alcance de todos. Por isso, se esforça aqui para uma linguagem mais simples possível.


Tatai - é o nome familiar e amoroso de Eugénio de Paula Tavares.

É o nome morábi do poeta, o nome que lhe dá o rótulo de homem que ama o povo e que por ele também é amado.

O nome de casa, em Cabo Verde, exprime a familiaridade, a amizade, a capacidade de adesão sentimental a problemas e situações alheias e de sintonia afectiva com o seu semelhante.

Ele tinha um convívio amigo e familiar com as pessoas e até com as coisas, o que lhe solicita uma ânsia irreprimível de dialogo.

Tatai escreve com meiguice e com musicalidade e numa necessidade psicológica de aproximação doméstica para afastar o conceito rígido da burocracia, da verticalidade e da solenidade de gente grande de então.

A duplicação de sons, no nominho da casa, parece indicar a vontade de permanecer numa familiaridade amorosa e amigável, dissolvendo-se, meigamente, na boca do Povo.

Eugénio Tavares é o homem-poeta que canta a partida como condição suficiente do regresso - se câ bado, câ tâ birado - que preenche o amor com um sentido platónico e todo muito especial, enfatizando-o com a palavra cretcheu que não significa apenas a pessoa amada, mas também a pessoa que nós amamos e que nos retribui o amor. Não é apenas amar, mas também ser amado.

A morabeza é o conceito dissolvente de conflitos sociais, de lonjura, de saudades, de nostalgia, anuladora da distância, criadora de um sentido agudo de intimidade doméstica, familiar e fraternal.

Essa intimidade se projecta sentimental e amiga até sobre as coisas inanimadas.

As suas mornas dedicadas aos veleiros que sulcam os mares das ilhas e a fedegosa, uma erva dos campos, são provas vivas do elevado sentimento eugeniano.

Com as mornas escritas em crioulo, Eugénio Tavares mostra a viabilidade do crioulo como língua capaz de traduzir o eu poético (o eu ilhéu), o transcendente, não só o demostra na sua poesia, mas também o fez no modo como influencia a poesia anónima do povo, cantada nas ruas, a poesia solta que anda nas ruas das ilhas.

Eugénio é o príncipe da literatura cabo-verdiana, é o guia que aponta o caminho que a língua crioula deverá tomar e por onde dever-se-á seguir para que as fontes da riqueza literária e do amor fraterno se não estanque ou estagne totalmente.

Na vereda própria de Eugénio Tavares continuou um rol de gente a pisar o chão da literatura em crioulo. Jorge Barbosa, Mário Macedo Barbosa, Gabriel Mariano, H. Teixeira de Sousa, Manuel Veiga e tantos outros continuam a sublimar a poesia anónima do povo e engrandecer a língua crioula.

A diferença destes últimos e Eugénio Tavares é que este, parafraseando Baltasar Lopes da Silva, tinha muitas cordas na sua lira - em crioulo.

Continuando a citar Baltasar, a colecção das suas mornas e manilhas manifesta um à vontade tal na fina "analise do colóquio sentimental, que o situa em bom plano na lista dos poetas líricos da literatura portuguesa.

É assunto a estudar o eco camoniano (das redondilhas) que é visível, segundo penso, na poesia crioula de Eugénio Tavares.

Eugénio vem novamente à lembrança num outro aspecto da viabilidade literária do crioulo: a sua capacidade para a tradução. A capacidade é manifesta. Basta para confirmar o meu acerto a tradução que Eugénio Tavares fez das endechas a Bárbara Escrava, e da Engeitadinha, de João de Deus..."

Eugénio Tavares é a gema da nossa identidade crioula, o príncipe dos poetas cabo-verdianos. É a pedra-mór da nossa independência.

Consegue demonstrar, de um modo simples, que a língua crioula possui uma idoneidade de alto significado étnico e sócio-político e de fácil compreensão ao visitante atinente.

Faz convencer a todos os incautos de que a língua crioula possui relevância que confere a Cabo Verde um dos mais elevados padrões de cultura.

Poucos têm sido os que se dedicaram (exceptuando alguns esporádicos poemas e textos e, ultimamente, com mais frequência) ao assunto da língua crioula como faz Eugénio Tavares. Pedro Cardoso, Baltasar Lopes da Silva, Armando Napoleão Rodrigues Fernandes, cada um à sua maneira, à parte a divergência fonética e o desencontro da grafia, cada um escrevendo a seu bel-prazer, na falta de uma padronização ou regras estabelecidas, todos eles contribuem para que o crioulo seja visto como instrumento de comunicação e capaz de transmitir sentimentos, dos mais sublimes que sejam.

O crioulo se encontra munido e de posse de todos os requisitos expressionais capazes de transmitir o conteúdo da alma, a vida das ilhas, o que o vasto repertório de mornas e poesias de Eugénio Tavares demonstra. Ele não encontra dificuldade alguma em traduzir literalmente todas as solicitações do seu lirismo pessoal, do seu amor ao povo da ilha, da sua intimidade doméstica e da sua aproximação política.

No seu amor que também abrange as coisas inanimadas veio cedo a poesia Mar Eterno, pedindo-lhe notícias do seu amor e canta a Canção ao Mar:

Oh mar eterno sem fundo
Sem fim
Oh mar de túrbidas vagas
Oh mar!
De ti e das bocas do mundo
a mim
Só me vem dores e pragas
Oh mar!

E queixa-se dolorosamente:

Que mal te fiz oh mar, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar

pedindo sequiosamente o favor para ouvir a sua dor e o seu sofrer:
Suspende a zanga um momento
Escuta
A voz do meu sofrimento
Na luta

Esta colectânea de poesias em crioulo atestam o quanto simples são os segredos de uma língua, mesmo as não estruturadas ou com falta de padronização.

Eugénio demonstra, com as suas mornas, a maleabilidade do crioulo que responde com prontidão aos apelos emocionais do cabo-verdiano, a plasticidade para comportar a tradução de poemas de grandes autores como Camões e João de Deus.

Essa plasticidade foi ainda, mais tarde, demonstrada por Pedro Corsínio de Azevedo, Sérgio Frusoni e outros.

Depois de tantos anos volvidos, desde que Eugénio Tavares demonstrou que o cabo-verdiano se pode exprimir literalmente através da sua língua nativa, e com singularidade, é de assinalar que a maioria dos autores cabo-verdianos usa quase exclusivamente a língua portuguesa no tratamento literário.

É de se realçar que na própria Claridade, no ponto alto da literatura radicalmente cabo-verdiana, é no português que se realizou como obra literária e ensaística.

Também os nossos grandes, como António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes da Silva, Teixeira de Sousa, Jorge Barbosa e outros da pós-independência nacional se exprimem em português porque isso lhes dá maiores possibilidades de audiência.

O Chiquinho de Baltasar Lopes, o Chuva Braba de Manuel Lopes, o Terra Longe de António Nunes, O enterro de nhâ Candinha Sena de António Aurélio Gonçalves são exemplos vivos do glosamento em português pós-Eugénio. Hoje a realidade literária é outra, embora o português ainda predomine na literatura cabo-verdiana.

Cretcheu, palavra doce na boca do povo. Eugénio Tavares encheu a palavra com mais significado social, com mais peso e profundidade que a palavra amada conota.

Vem então na morna Força de Cretcheu dar-nos a ideia, o significado profundo que o Amor tem para ele. No que se segue se pode verificar o timbre posto nos versos:

Ca tem nada na es bida
Mas grande que amor
Se Deus ca tem medida
Amor inda é maior...
Maior que mar, que céu
Mas, entre tudo cretcheu
De meu inda é maior

Como que, irreverentemente, põe o Amor num altar superior ao de Deus, ao mesmo tempo que sublima o Amor como escada para se chegar mais perto de Deus, para alcançar o céu - o caminho que vai directo para o céu. E assim continua:

Cretcheu más sabe,
É quel que é de meu.
El é que é chabe
Que abrim nha ceu...
Cretcheu mas sabe
É quel
Que qre'm...
Se ja'n perdel,
Morte ja bem...

Por trás desse Amor existe uma força capaz de proporcionar coragem e perseverança para chegar ao céu. Ele não é egoísta. O Amor é a chave que abre as portas do céu.

E como o Amor é tão grande e tão bom para todos, quer compartilhá-lo com todos e assim pede a Deus a semente desse amor para que todos possam conhecer o céu:

Ó força de cretcheu,
Que abrim nha asa em flôr
Dixam bá alcança céu
Pa'n bá odja Nôs Senhor
Pa'n bá pedil semente
De amor cuma ês di meu
Pa'n bem dá tudo djente
Pa tudo bá conché céu

Na Morna de Despedida (Ora di Bai), transmite-nos o sentir, a dor da partida para terra-longe, uma partida que é uma condição necessária de regresso. Si kâ tâ badu, kâ tâ biradu. E assim:

Se no morrê
Na despidida,
Nhor Des na volta
Ta dano Vida:

E continua, impetuosamente cantando a doçura do regresso e a tristeza da partida e no fim consola porque há uma esperança: se morrermos no despedir, Deus haverá de nos dar a vida no regressar.

Assim a morna mais doce de Eugénio que o povo canta quotidianamente:

Hora di bai,
Hora di dor,
Ja'n q'ré
Pa el ca manchê!
De cada bêz
Que 'n ta lembrâ,
Ma'n q'ré
Fica 'n morrê!

Eugénio Tavares lançou, bem cedo, à terra ressequida a semente donde germinaria uma árvore frutífera que viria a ter um nome: a árvore da independência nacional, criando condições propícias para a Claridade e a Certeza - donde a manifestação da nossa crioulidade se vinculou no seio da história cabo-verdiana.

Da poética eugeniana se ressalta o fato de que a revista Claridade não foi a primeira manifestação da independência literária e política de Cabo Verde.

Duas razões convincentes se se nos impõem: Eugénio Tavares demonstra através do uso da língua crioula que é possível uma independência literária e, através da linguagem-tropo, consegue dizer o indizível de maneira que também semeou a semente da independência política.

As mornas de Eugénio acham-se profundamente integradas no universo musical do arquipélago, além dos outros géneros principais: o batuque, o finaçon, o colâ, a tabanca, o funaná e a coladeira.

A morna é considerada o género mais cabo-verdiano porque melhor simboliza o sentimento desse povo que não quer deixar de viver na sua terra ao mesmo tempo que a necessidade obriga-o a partir para terra-longe.

A letra da sua música "Morna da Despedida" exemplifica sobremaneira esse género, cuja temática se aproxima muito da canção popular do nordeste brasileiro: a expulsão da sua terra por razões climáticas e da miséria geral.

As letras das mornas de Eugénio Tavares foram compostas, na sua maioria, em crioulo, e, é nesta língua que melhor soube exprimir os voos da alma, os ímpetos do Amor.

No entanto, apresentamos aqui uma tradução para o português, comparando a letra da Morna de Despedida com a letra de Légua Tirana, de Humberto Teixeira e musicada por Luiz Gonzaga, onde encontramos o mesmo tipo de dor na partida e o mesmo desejo de voltar:

Morna de Despedida
Hora da partida
Hora de dor
E meu desejo
Que ela não amanheça
De cada vez
Que a lembro
Prefiro
Ficar e morrer
(...)
Se a chegada é doce
A partida é amarga
Mas se não partir
Não se regressa
Se morrermos na despedida
Deus no regresso
Dar-nos-á a vida.
(...)
  Légua Tirana
Oh, que estrada mais comprida
Oh, que légua tão tirana
Ai, se eu tivesse asa
Inda hoje eu via Ana
Quando o sol tostou as foia
E bebeu o riachão
Fui inté o Juazeiro
Pra fazer minha oração
Tô votando estropiado
Mas alegre o coração
Padim Ciço ouviu minha prece
Fez chover no meu sertão
Varei mais de vinte serras
De alpercata e pé no chão
Mesmo assim, como inda farta
Pra chegar no meu rincão
Trago um terço pra das Dores
Pra Reimundo um violão
E pra ela, e pra ela
Trago eu meu coração.

 


Uma análise literária

Gabriel Lopes da Silva Mariano, por sua vez, como aluno do 6º. ano dos Liceus, numa palestra feita no Liceu Gil Eanes, publicado no boletim Cabo Verde n°. 11, no mês de agosto de 1950, fez uma análise da poética eugeniana sob o título O Amor na Poesia de Eugénio Tavares. Por ser de muito interesse se transcreve aqui a palestra.

Assim começa:
Um povo sem o culto de tradições edificantes dificilmente poderá consolidar e harmonizar as suas manifestações: é um barco com marinheiros incompetentes cuja entrada no porto está a cargo dos elementos.

E é por isso que em todas as nações civilizadas se erguem monumentos e se consagram certos dias à memória daqueles antepassados que fecharam brilhantemente o ciclo da vida.

Seria útil e interessante que aqui se procurasse fazer alguma coisa parecida em homenagem aos bons caboverdianos que passaram.

Naturalmente tudo isto havia de ser modesto: aqui é tudo em ponto mais pequeno, escreveu Jorge Barbosa. Mas não faria mal.

Ao menos o caboverdiano teria sempre presente a certeza de que aqui também ha nomes dignos de rotularem a fachada de um monumento e que atrás de si, unindo-o aos antepassados, não existe somente a lembrança fria das estiagens.

Talvez uma presença mais viva do passado inspirasse melhor o caboverdiano na luta que ele travou. E nós temos necessidade disto.

Nós devemos conhecer aqueles nossos irmãos que sem serem gigantes, foram todavia maiores do que nós.

A tradição é uma espécie de fogueira sagrada que se deve sempre manter acesa.

E foi com a intenção de deitar uma palhinha, embora molhada, nesta fogueira que eu, entre tantos assuntos estudados aqui no Liceu e que me seriam de mais fácil tratamento, escolhi um tema que directamente interessasse o caboverdiano: falar de Eugénio Tavares e mais particularmente da sua concepção poética do Amor.

E, porque a música para Eugénio foi um complemento da sua expressão, ilustrarei as minhas palavras com quatro das suas melhores mornas...

As palavras de Gabriel Mariano, traduzem o sentimento coletivo do povo cabo-verdiano sobre a poética eugeniana. Proféticas ou não, elas descrevem bem a filosofia e o sentimentalismo nos textos sobre Amor de Eugénio Tavares. Entretanto, G. Mariano continua mergulhado na paixão que tem pelos versos do vate bravense:

Eugénio Tavares foi um grande homem, não porque tivesse escrito alguns versos bem feitos, não porque tivesse composto algumas mornas bonitas.

Ele foi e é grande porque viveu, porque sentiu, porque pôs nos momentos felizes da sua inspiração a sinceridade de um sentimento elevado. Ser poeta não é fazer versos fúteis e superficiais.

Ser poeta é viver, experimentar, sofrer; é um mergulhar a fundo no mar da vida, auscultar, compreender e traduzir as dores do Homem.

E depois, como o pelicano que oferece aos filhos as próprias entranhas, dar ao mundo a sua alma que vibrou intensamente, ungida pela dor.

A sua alma que como um receptor potente tivesse captado as irradiações dos aspectos mais palpitantes da existência.

E talvez a dor do poeta suavize um pouco a dor do mundo, talvez o mundo se veja menos só ao sentir esta pura poesia, esta fala mansa e conhecida e acariciadora que saiu exclusivamente da dor, porque, senhores, sem sofrimento não há poesia.

Se Eugénio não tivesse sofrido o que ele escreveu à sua lembrança não se fincaria na nossa memória, V. Excelência, não poderiam ouvir hoje as suas mornas, eu não teria tentado alinhavar algumas palavras sobre ele e nem tão pouco aquela rapariga da Fonte de Vinagre teria dito: Quando nhô Eugene morrê 'm pensa dja Braba dja caba...

Quem sofre, quem padece, quem luta e quem experimenta as muitas intempéries da vida é um poeta, mesmo que não escreva poesias.

Ele sabe o que significa viver, a dor e o sofrer.

Ele mergulha na essência das coisas, nos problemas existenciais, e faz comunicar o seu eu poético com a poesia de modo que comunica o sofrer do povo ao mundo contingente. G. Mariano elevou Eugénio Tavares e colocou-o num pedestal de bronze feito só de orgulho.

Assim continua:

Eugénio Tavares foi o primeiro dos poetas genuinamente caboverdianos, porque foi ele o primeiro que tentou interpretar Cabo Verde. Um tanto restritamente, pessoalmente, é certo, porque ele ainda, como frisa Osório de Oliveira, não tinha experimentado aquela liberdade de inspiração dos poetas de hoje.

Existiram com ele outros poetas, todos o sabemos.

Mas estes eram poetas como os da Metrópole: na sua poesia não ha nada que os distinga da poesia metropolitana.

Eles ainda não tinham ouvido a voz do Atlântico à roda das ilhas, não tinham entendido o desenrolar das estiagens sobre os nossos campos, não tinham chorado com o emigrante, não tinham, enfim, escutado os rumores das coisas simples da nossa Terra, como o fazem os poetas de hoje e como ao menos o tentou Eugénio Tavares na sua lírica crioula.

Uma lírica simples, flutuante, leve como a de João de Deus, mas mais veemente, mais sensual e um bocadinho irreverente:

1) Se pan ganha reno di ceu
que ta salban alma di mal
má 'm q're vivê co nha cretcheu
pa el ca enganam, pa 'm ca engana' l ...

Amor para Eugénio foi, acima de tudo, uma dadiva de Deus. Deus é que criou o Amor, Deus é que o fez, Deus é que o deitou no mundo e exclusivamente para o homem.

E sendo assim, como não receber uma oferta saída das mãos de Deus? Foi um presente com que ele não contava e que não pediu: foi Deus que lho deu.

E como a criança ao pé de um brinquedo inesperado, o poeta deixa-se absorver, exalta-se, extasia-se; o Amor é dele, dele exclusivamente.

O Amor se é carga grande, não é pesado, se é culpa funda não é pecado. E o poeta ama impetuosamente, com todas as forças, sem se importar com as opiniões do mundo:

2) Que importam la que mundo fla,
se el ja el crem, se mi jan crel?

E é justamente por isso que paira sobre toda a poesia de Eugénio a ideia de um amor absoluto, total. Para ele o amor é superior a tudo quanto existe, maior até que o próprio Deus e, por esta razão, a sua alma se dá tão inteiramente ao amor.

E se o corpo não lhe pode acompanhar os voos ele não se importa: o corpo é escravo, tem de submeter-se; mas a alma, partícula divina, labareda que saiu do seio de Deus, alteia-se, amolda-se e acompanha os arroubos do amor. Porque se o corpo é obrigado a sujeitar-se, a alma é livre, tem necessidade de amar:

Pa más tanguido que corpo é
nôs alma ê livre, no tem que qrê…

Deus criando o pão deu ao homem a necessidade de comer, e criando o amor deu-lhe a necessidade inadiável de amar, porque só pelo amor saberá para que banda é o céu, e só nas asas do amor ele poderá voar até à face de Deus.

E no seguimento lógico deste rumo inspirador, Eugénio chega a uma conclusão interessantíssima pelo seu pitoresco e pela sua originalidade: a rapariga nova que morrer sem amar fica na cova, não vai para o céu:

1) Rapariga noba
que ca tem cretcheu
sê more ê na coba,
el ca ta bá ceu.

Quer dizer, para Eugénio somente o Amor purificaria a alma tornando-a digna de Deus. Não apenas neste passo, mas em muitos outros, ele manifesta o mesmo pensamento. Seja quando implora num arrebatamento de ternura

2) Força de cretcheu,
abrim nha asa em flor!
pam bá alcança ceu!…

Seja quando amorosamente pergunta devagarinho à sua amada:

3) Contam nha cretcheu
pa que banda é ceu…

ou seja ainda quando o poeta exclama, num ímpeto de inspiração:

4) Pam cré ma Deus sta na ceu
bó al xam na es nha esperança
de inda bo ser de meu....

o que ele nos revela é o Amor como escada para o céu. Mas isto não é mais que erupção expontânea e natural de ideias platónicas num poeta crioulo. Daquelas ideias que os poetas renascentes exploraram nos seus poemas amorosos.

O platonismo encheu as mornas de Eugénio com um sentido elevado, comparando-as com o conceito ideal, o perfeito, do mundo das ideias:

Segundo as ideias platónicas a alma, antes de vir para a terra, viveu num outro mundo. Um mundo onde havia, na mais alta perfeição, as ideias de todas as coisas.

Ora o homem cá na terra vê uma mulher e acha que é bela. Sem saber ele faz, inconscientemente, uma comparação, isto é, comparou a beleza da mulher com a noção que ele tem da Beleza, da essência do Belo.

Mas essa essência do Belo, que não existe cá na terra, a nossa alma viu-a no outro mundo, no mundo das ideias puras.

E somente pela contemplação da mulher amada, que outra coisa não é senão o reflexo daquela essência, o homem se irá purificando e aproximando-se da Pura Beleza.

E por isso o poeta, embora sofrendo por não ser amado, sente-se, todavia, feliz porque basta olhar para a mulher para ele se elevar até o mundo das ideias puras, isto é, até Deus.

Esta concepção do Amor foi um dos motivos dos poetas renascentes, como ja disse, que as adoptavam aos seus poemas não porque fosse assim o seu modo de ser, mas porque era um luxo, porque era moda da época.

Com Eugénio não se deu isto pois sente-se que ele foi natural. E é este facto que distingue e caracteriza o seu platonismo e que a meu ver, torna mais valiosas as suas obras.

Além disso Eugénio não podia suportar um indiferentismo, não se limitava somente a contemplar: ele queria amar e ser amado.

Portanto das duas operações efectuadas pelo poeta no platonismo amoroso apenas a segunda se verifica em Eugénio Tavares, isto é, uma purificação da alma.

Além disso, o poeta no seu amor arrebatado, sensual, impetuoso, chega às vezes a um ardente egocentrismo, pois prefere dar a sua vida a viver sem ser amado. Mas por outro lado se é para ele morrer e outro vir a amar a sua "cretcheu", ele prefere continuar vivo, embora sofrendo, atrozmente, a dor de amar sem ser amado.

E é este sensualismo que distingue e, em certos aspectos, a sua poesia da de João de Deus, lírico que nele influiu grandemente.

Posso mesmo afirmar que na sensibilidade de Eugénio infiltraram-se, poderosamente, duas influências poéticas: a de Camões e a de João de Deus.

A influência de Camões sai das suas redondilhas e Eugénio não só adapta a sua forma, isto é, o esquema dos versos, como também recebe delas o sentimento que as cobre e, no tratamento de certos temas do "giro quotidiano" o mesmo comentário ligeiro, irónico e elegante.

A poética de Eugénio Tavares está profundamente enraizada no húmus nutritivo da ilha Brava e na morabeza dos homens do arquipélago.

A obra poética eugeniana está marcada pela familiaridade própria do mundo pequeno e ambiente insular, em tudo que há de humano nessas paragens e apresenta ao mundo inteiro a identidade cabo-verdiana, amalgamada pelo capricho do tempo, de um modo muito particular.

Ele apresenta de forma nua e despreconceituosa à humanidade inteira o fundo da consciência do povo crioulo e toca, num lirismo sensual, os recessos da consciência cabo-verdiana, ao mesmo tempo que faz uma sementeira revolucionária no húmus sócio-cultural das ilhas.

Continuando na senda analítica de Gabriel Mariano:

Há no poema de Eugénio (Enganosa) aquele misto de ressentimento…próprio das redondilhas de Camões...:

Pa que nha ta spiam
se quel que ojo ta prometem
nha ca ta pode dam?!

E o resto é assim:

Co um mom nha mostram ceu
co quel oto nha abrim porta de inferno:
ma mi, si mé 'm cretcheu.

Ja'n purda nha es maldade
té ja'n pedi nhor Des pa purda `nel
na mundo de Berdade.

Mas, se nha ca ta da'n
todo que ojo de nha estâ prometem
pa que nha ta espiam?

A tonalidade intencional, a insinuação suspensa destes três versos finais evocam, irresistivelmente, outros três versos, também finais, destas redondilhas de Camões: "... se na condição está serem verdes porque me não vedes"?

- Além disso este poema "Enganosa", assemelha-se às redondilhas que dizem assim:

Catarina bem promete
eramá, como ela mente.

O que distingue estas duas poesias é que em Eugénio as impressões são expostas em síntese, enquanto Camões analisa as causas e filosofia sobre os efeitos.

Eugénio, por exemplo, diz:

Pa que nha ta spiam
se quel que ojo estâ prometem
nha ca ta pode da'n ?;

Camões por outro lado:

Catarina bem promete,
eramá, como ela mente. -

Mais abaixo Eugénio insinua

1) Co um mom nha mostram ceu
co quel oto nha abrim porta de inferno;

E Camões escreve:

Faz-me, enfim, chorar e rir...

Depois ante a indiferença da amada, ambos têm a mesma reacção, ambos desejam perdoar-lhe. Eugénio:

... jam purda nha es maldade....

Camões:

...Catarina me mentiu
muitas vezes, sem ter lei,
e todas lhe perdoei …

Mas além de Enganosa Eugénio tem um outro poema, Quel pessoa, que eu desejo comparar às redondilhas de Camões, Se Helena afastar do campo os seus olhos.

Em ambas as poesias os dois poetas usam o mesmo processo para realçar a beleza da amada, comparando-a com a Natureza.

E os resultados desta comparação tem também as mesmas caras porque tanto num como noutro poeta a beleza da amada influencia directamente a Natureza:

Camões:

Faz serras floridas,
faz claras as fontes...

Eugénio:

3) Quando el arri Nhor Des ta abri
porta de ceu, sol ta escobri,
mar ta canta, flor ta esdobra.

Mas neste poema de Eugénio confundem-se as duas influências por ele recebidas: a de Camões e a de João de Deus.

A de João de Deus nota-se no modo da descrição, no ângulo em que Eugénio se colocou para retratar a mulher.

Não são os traços fisionómicos que ele desenha, mas sim as impressões que ele sentiu ante a fisionomia da amada.

É mais um retrato subjectivo do que objectivo.

E era este o processo de João de Deus. Mas o espírito deste grande lírico metropolitano nota-se ainda e principalmente, naquela linguagem simples e expontânea, naquele tom às vezes de uma tristeza serena, sem revoltas e, de vez em quando, no emprego de determinadas imagens para traduzir estados de alma.

E creio mesmo que é quando Eugénio encarna João de Deus que ele escreve as suas melhores poesias, porque como João de Deus, Eugénio foi também um místico de Amor.

Seja exemplo desta afinidade entre os dois poetas o poema "Carta que'n screbe nha Lima", onde a nossa alma se casa com a mesma simplicidade adorável, onde os nossos ouvidos encontram a mesma linguagem "leve como uma folha, como uma nuvem ou como um regato", e onde o nosso coração se sensibiliza com a mesma delicadeza espiritual:

1) Cretcheu que'n q're,
nha luz, nha fé,
dam bo atençom:
no sta nos dos?
Obi es voz de coraçom.
Medo que'n tem bo bai de li
ê que tenem ca ta sorri.
Pa mó pa mi, se ê pa'n negado
ma'n q're es pecado
de ca arri.
Pa mó pa mi
ai, se ê pa dam
torna tomam,
má'n q're dixam
nha mom si si.
…………………………
Cretcheu que q're
co todo fé,
medo que tem de mom si si
ê que tenem
ca ta pidi.

Outro exemplo desta assimilação do estilo de João de Deus é a letra da morna "Mal de Amor". Como João de Deus no poema "A Vida", Eugénio chora serenamente a sua dor, sem revoltas, sem culpar ninguém. O mesmo estado de alma destes versos é o mesmo que se encontra no soneto que principia "A Vida": foi-se-me pouco a pouco amortecendo/a luz que nesta vida me guiava".

Igual conformismo e igual tristeza profunda na tradução de uma dor irremediável.

Mas a par deste aspecto, desta assimilação de estilo, existem, por vezes, entre os dois poetas, comunidade de ideias.

É assim que ambos sofrendo a mesma dor de não serem amados pedem, numa prece de igual intensidade, que a lua os não abandone, que os ampare, que os console. É Eugénio implorando, infantilmente:

1) Ó nha madrinha Lua,
nha pegam na nha mon,
nha lumiam na nha passo,
ai, nha botam bençom;

E João de Deus suplicando:

Ai, para luz da saudade,
ai, pára, oh Lua, tem dó,
não me deixes por piedade,
não me deixes triste e só.

E é ainda o mesmo pensamento que une os dois poetas quando ambos estabelecem a obrigação que nós temos de amar. J. de Deus insinua:

Deus a ninguém reconhece
por filho senão quem ama.

E Eugénio sentencia:

Pa mas tanguido que corpo é
Nôs alma é livre, no tem que q're.

E é curioso notar-se que até na forma, na técnica do verso, existem entre os dois poetas laços de parentesco:

Em qualquer deles encontrei hexassílabos agrupados em oitavas e com o mesmo esquema de rimas.

E não só isso: todos eles repetem intencionalmente e em certas circunstâncias, a última palavra de um verso no começo do verso seguinte. Em João de Deus:

Vem-se a noite aproximando,
desdobrando,
desdobrando o negro véu.;

Eugénio:
2) Jam q're oja quem ca tem
quem ca tem cretcheu na es bida ...

João de Deus:

(...) em minha alma vida e luz,
vida e luz que em tempo ainda,
..................................................;

Eugénio:

1) Mudjer bonita, pa el dabo gosto,
pa el dabo gosto co bo amor...

Mas para mim Eugénio é mais claramente (que) João de Deus quando ele nos conta a sua dor. O que é, é que João de Deus se conforma com a sua dor, ao passo que Eugénio, impaciente, quer, por exemplo, que a lua ao regressar para o céu da sua terra o encontre nos braços da amada.

Porque Eugénio, extremista no Amor, tem um medo terrível de amar e não ser amado. Já que o Amor é filho dilecto de Deus e representa o maior tesouro de toda a existência; já que o homem tem de amar, porque o Amor é aragem e é brasa que refresca e queima deliciosamente a nossa alma, antecipando-lhe a ventura dos céus, o poeta sente-se desgarradoramente triste, profundamente abatido, quando o seu coração sensível prevê que não será amado:

1) Ó q're sem q'redo,
jam tene medo
de po nha peto
na bo aspreza.

E viver sem a compreensão da amada é um viver sem justificação. Ter no peito uma paixão abrasante sem alguém que o acalme; ter na voz expressões terníssimas sem alguém que as escute; sentir que por si só não pode estreitar a felicidade e que alguém, podendo, o não ajuda, é o suplício mais pesado para a alma de Eugénio.

Para quê, pergunta o poeta, quero viver sem ti, sozinho sem o teu amor? E de facto, para uma compleição como Eugénio, eminentemente amorosa, a única resposta seria, como ele mesmo o diz, deixarem-no morrer sozinho, morrer de amor pela amada, acabar, enfim, aos poucos, dando a sua vida em martírio de amor.

E é tão funda em Eugénio esta necessidade que ele tem de amar e ser amado que ele, a ter o gelo da indiferença, prefere ser enganado.

O que ele deseja é que a mulher ria e cante e fale com ele dando-lhe, embora ilusoriamente, aquele geito de morar no céu; o que ele pede é que a trigueirinha santa durma sossegada no seu regaço, por que é manta seus dois braços e é paz a sua sombra, embora tudo isto seja fumo que passa "como antes de o sol raiar, nuvem dourada".

E é por isso que ele se cobre com o manto diáfano da mentira e repele a nudez forte da verdade:

1) Mentira erguem nha bida
el cedem luz de nha sorte:
berdade metem na lida
de corré traz de nha morte.

2) Mentira bem más um bes
abrim porta de nha céu.
Ó berdade, praza Deus,
que es tomabo bo cretcheu.

Faz supor que o amor era uma função inadiável do espírito de Eugénio cujo desempenho só se completava quando correspondido pela amada. E é por isso que ele se acautela e não se balança a declarar-se. E é por isso que nos seus lábios não canta um sorriso e nem a sua mão se estende. É que ele tem medo e um medo sério, de não ser atendido:

Medo que'n tem de mom si si,
ê que tenem ca ta pidi.

Mas no final o poeta acaba por pedir e no final ele acaba por receber.

E depois de tanta ansiedade, de tanta hesitação, de tanto sofrimento, o amor escapa-se impetuosamente do seu peito e envolve-se-lhe a vida em ondas de luz.

Como um passarinho a que subitamente abrissem a gaiola, o Amor abre por sobre o poeta as suas asas em flor e leva-o consigo.

E flutuando nas asas do Amor ele paira sobre as misérias da vida e chega, por fim, a alcançar o céu.

E apesar de estar tão distante e tão completamente feliz o poeta não se esquece de que como ele há outras pessoas que sofrem o mal-de-amor.

E então pede a Deus que lhe dê uma semente do amor como o dele para o distribuir a toda a gente.

E assim toda a gente poderá, como ele, alcançar o céu! Admirável sensibilidade!

Eugénio Tavares amou impetuosamente, sofreu a dor de amar sem ser amado, mas no fim ele é recebido e compreendido pela sua "cretcheu".

E então canta de verdadeiramente feliz. Não quer mais porque tem tudo.

O Amor é escada de salvação, o Amor ergue-lhe a vida, o Amor limpou-lhe o céu.

E o poeta não se importa mesmo em perder o amor de Deus contanto que ele sinta, em torno de si, os braços da amada. E numa concatenação arrebatada de ideias, o poeta compõe, com o espirito absolutamente feliz:

1) 'N ca pedi: nhor Deus que dam
quem que el nega graça de céu?
Se Deus dan el, el e di meu,
se el de meu nha xan canta.

Nota da redacção - O autor ( Gabriel Mariano) não tem qualquer responsabilidade na tradução dos versos, com a qual, sem preocupação de métrica, nem de cadência, se procura dar ao leitor que desconhece o crioulo de Cabo Verde, uma ideia do sentido dos versos, numa versão, tanto quanto possível, literal.

O poeta, no seu sofrer, é condicionado pelo ambiente insular e canta no desvairio de ser amado.

O sofrer do poeta se transforma na alegria contagiante dos filhos das ilhas e faz expiar a dor e o sofrer dos mesmos filhos, porque quem canta/seu mal espanta.

Ele ama a mulher do campo, porque no campo há essa liberdade contagiante da alma crioula, há um mais à vontade e libertação para a alma.

A sua súplica no poema Camponesa Formosa explica esse amor. Um Amor que é guia, que mostra o caminho de verdade - que liberta:

Mostra-me o trilho florido
Que ao teu afecto conduz,
Dá-me o teu braço amável - bis
Sou um ceguinho sem luz

E confia cegamente no amor de tal modo que suplica:

Leva-me assim pelas mãos
Lá pelos remansos da serra
Tira-me tu da cidade - bis
Que me entristece e aterra.

Dá a entender que a liberdade para amar tem qualquer coisa a ver com o refúgio nos remansos das serras - um sonho poético que existe em tudo, também fora dos confins simbólicos da cidade.

O mesmo poema termina com um enaltecimento do Amor e a submissão do poeta para ser amado:

Hei-de adorar-te e servir-te
Como Jacob a Raquel
Hei de morrer a teus pés - bis
Como o teu cão mais fiel.


Eugénio de Paula Tavares is commonly known as one of the best Cape Verdean poets. He was born on October 18th (baptised on November 5th), 1867 on the island of Brava, where he died on June 1, 1930. His father, Francisco de Paula Tavares was a native of Santarém (Portugal) and his mother, Eugénia Rodrigues Nozoliny, of Spain ancestry was a native of Fogo. Eugénio Tavares died in his house in Nova Sintra, in his rocking chair, victim of a heart attack. The then authorities caused serious delays on the funeral day. Everyone waited for them. Curiously, they were not present at this ceremony. Regarding this fact, some affirmed that they were not interested in taking part in Eugénio Tavares' funeral, who was and continues to be the first Cape Verdean poet of all time, because he was a member of the Republican party and influenced public opinion spreading his political beliefs both during meetings and in the press. This was the cause of his persecution. Others said that they were not present on that day because of lack of maritime links at that time.


A TURBULENT PERIOD OF LIFE
Eugénio Tavares often lived in an almost permanent state of turbulence. He managed to work as collector in Tarrafal before he was appointed to a most responsible collector post on Brava, in 1890. On returning home, he married Guiomar Leça Tavares who didn't bear him a child, according to Felix Monteiro. Ten Years later, he was wrongly accused of using money illegally and therefore escaped to North America. In his opinion, hi didn't escape. It was simply a question of retiring. Escaping is a cowardly behaviour, retiring may be a tactic. The process of misappropriation was taken to the municipality's court. The council for the defence, Dr. Mário Ferro, referred to the confusion in the accounts admitting that it was a question of political persecution, considering that the defendant was a supporter of the Republican Party. The governor, João Cesário de Lacerda, due to an old and good relationship to Dr. José Martins Vera Cruz, wrote asking him if he could recommend the defendant to have more sense than to spread his political beliefs in the press. In 1914, as the traders did not agree on the way how Eugénio took control of the population basic needs, they withdrew the bail. Consequently, he was obliged to give himself up to prison, before the Judge of Law arrested him. While he was in prison from November the 7th to 10th until the bail has been renewed, he wrote, ironically, his adoptive mother: I write from a new house that the men's kindness has prepared for me for 20 years and I have got a chance of being here today. I am in a small room where it is not enough light to see, with railed window and door. In 1921, the defendant was acquitted. The court case attracted large crowds that applauded him at the end of the trial. He was warmly congratulated by the governor, Maia Magalhães who followed with great interest the events. On July 11, 1890, Eugénio Tavares arrived at the city of New Bedford where thousands of Cape Verdeans lived. He intended to publish a newspaper called "Alvorada" (Dawn) to better ensure his livelihood. The article entitled "Autonomia" (Autonomy) published in the first issue of this newspaper made the political problems both in Cape Verde and Africa public. He ended this article with the American revolutionary's famous phrase: Africa belongs to African people. Obviously, this was not welcome by the authorities; so was his collaboration in the magazine Revista de Cabo Verde, in which he defended the idea that the capital of Cabo Verde which was Praia at that time had to move to the city of Mindelo. This is because São Vicente began to develop thanks to the strategic position of Porto Grande on the routes of Atlantic. Eugénio returned to Brava, being informed that he was released on bail until his trial. But he had to make his way to America to better ensure his family life. Felix Monteiro, according to his biographical notes about Eugénio Tavares, writes: By the age of 15 and having learned solely the ABC of primary school he early published his first literary work in the almanac of Lembranças Luso-Brasileiro presented by the poet Luís Medina Vasconcelos who exalted his talent. Eugénio managed to study on his own, thanks to the vast quantities of books existing in his house. His mother died from childbirth and therefore his mother in law, Eugénia Medina Vera Cruz and her husband, Dr. José Martins Vera Cruz brought him up since his childhood. His father died four years after he had moved to Guinea. By the age of 20, Eugénio got a job in a commercial centre in Mindelo (S. Vicente) whose owner served as the US consul agent, thus enabling his contact to Americans passing on the island of São Vicente. A girl, with whom Eugénio Tavares had fallen in love, boarded some times an American yacht and to whom he dedicated a sonnet entitled Kate (the girl's name).

Domingos Barbosa da Silva, 1 de Junho de 2005                
Alfa-Beta-Sigma - NorwayDomingos Barbosa da Silva

( Para Consultas e Pedidos de Obras do Autor ).  

 Correio Eletrónico:  dbdsilva@broadpark.no


Referência

1) (Emissões da Radio Barlavento de 9 de junho de 1956), publicado no Boletim Cabo Verde.
2) Manuel Brito Semedo - http://www.sao-filipe.com/html/n60.html
3) Convite à viagem de Jorge Barbosa
4) Homenagem da Comunidade Cabo-Verdiana da Diáspora e da Associação Amidjabraba.


V O L T A R