Sorriso da alma

Vou tentar sonhar um pôr-do-sol, logo,
Digamos, do cume do Pico do Fogo,
Digamos também, no embalo duma serenata,
Ainda, nos valores que a alma me concerta.

Abraço daí com amor o mundo, com efeito,
E do centro do longo abraço, sobre o peito,
Chega o cheiro estonteante de uvas...
Do pedestal do Gigante, que, às vezes, uiva...

Neste sonhar gostaria que sentisse abraçado
Que do centro da serenata e do longo abraço
Se brota um ser que se sente apertado
Uma benesse estonteante derivada do enlaço.

No embalo da serenata mando um beijo
Que alcança todos os corações em chama
Um beijo que fica tatuado na ígnea flama
Do fio da diáfana água dum lindo riacho.

Do riacho ecoa uma melodia uniforme
Trazida da origem natal do encosto
Das nuvens e dos mares que me dão alento
Que mata no meu peito a minha fome.

Deste peito salta uma melodia, em salmo
Com o som do canto das aves, convulso
No barulho de águas passantes, como o pulso
Do sereno quebrar de águas, muito calmo.

Esta melodia sorridente, dum errante rio
É um beijo no poente doirado, no fim da serra
Uma memória indelével, da minha terra
Posto no riacho roncando, com delírio.

O riacho com a sua melodia corrente,
É segregação de lágrimas de transeuntes
Que não estanca a cede dos mares
Nem saudades do sorriso de mulheres.

Domingos Barbosa da Silva
Espanha, 20.11.05

V O L T A R