05 de julho de 2008

INDEPENDÊNCIA E VIDA


Há 33 anos Cabo Verde ganhou a independência, ao tempo ainda integrado num espaço multinacional que abarcava a hoje República da Guiné-Bissau. A 5 de Julho de 1975, à voz de Abílio Duarte, um novo país entrou no concerto das nações soberanas.

Desde então, um caminho (que historicamente não podemos considerar longo) começou a ser trilhado rumo ao que hoje Cabo Verde é: primeiro, a separação da Guiné-Bissau; depois, a conquista e construção da democracia política.

Pode lamentar-se que o debate inicial não tenha sido levado tão longe quanto devia: debate entre os que reivindicavam a independência plena e os que então optavam pela ideia spinolista de uma ampla autonomia no quadro de uma integração em Portugal.

Pode lamentar-se que esse debate tenha sido substituído por uma decisão a todos imposta e pela repressão sobre os que com ela não comungavam.

Mas, olhando em torno e comparando com a situação deixada pelo colonialismo, não oferece dúvidas que a independência valeu a pena: apesar de todas as dificuldades, carências e limitações, Cabo Verde desenvolveu-se em termos de economia, de saúde, de habitação, de educação e cultura, de desporto, de infra-estruturas, de condições de vida.

Tudo isto são ganhos de todo o processo que a independência suscitou. E até o discutível (e tudo é discutível neste mundo) "sonho europeu" quase se resolveu também, graças à parceria especial com a UE.

Poder-se-ia avançar mais nestes 33 anos? Aceitemos que sim, que Cabo Verde poderia estar mais "avançado", mais desenvolvido, se… Não foi a independência que o impediu. Se travões existiram a um desenvolvimento maior, eles resultaram das vicissitudes políticas e económicas em que se embrenharam entretanto os cabo-verdianos - por "culpa" ou "mérito" próprios, as opiniões a este respeito legitimamente dividem-se.

Devemos, em consequência, estar gratos aos fundadores. Mas sem fechar os olhos às realidades congénitas da fundação: o 5 de Julho impôs-nos uma "coabitação" (com Bissau) não desejada por uma boa parte dos cabo-verdianos e um regime de partido único que, posteriormente, os cabo-verdianos souberam arredar da sua vida.

Dir-se-á que Cabo Verde não é totalmente independente. Quem hoje o é? Há uma acentuada globalização, um rolo compressor que esmaga veleidades independentistas, identidades, anula valores, integra e subalterniza projectos nacionais, absorve economias e ignora fronteiras. Diante disto, a independência quase se reduz a um "estado de espírito".

Será pela afirmação da nossa identidade cultural que a independência possível se alargará e aprofundará - é tese que se vai fortalecendo. No plano da economia, a bandeira nossa subalterniza-se à quase inelutável globalização.

No plano da política, subordinamo-nos às lógicas e regras dos grandes espaços em que nos integramos. É pela identidade cultural que podemos, e devemos, manter, desenvolver, cimentar a independência conquistada há 33 anos. Felizmente que, neste particular, temos alma e corpo mais que suficientes para o assegurar.

Hoje já não se coloca a alternativa "independência ou morte". Do que se trata hoje é de "independência e vida". Independência e vida, para o povo das ilhas, são praticamente sinónimos.

Liberal

LIBERAL Online - www.liberal-caboverde.com

V o l t a r