A cortina da lonjura
Para Vavá

Li nas ondas que o Atlântico ostenta
A dor que a lonjura nos oferece
Com as mãos quietas da separação.

Mas, eu queria saber escrever
Para que minhas mãos tacteiem
O vazio que a distância criou entre nós!

Queria tanto saber soletrar
As letras caídas das folhas
Das lembranças adamíticas.

Queria tanto
Mas queria elaborar uma enciclopédia
Que coubesse o nosso mundo
Preenchendo com gestos o vazio
Com o resto da nossa vida.

Eu queria saber escrever
Para esculpir a bonança
Despindo o nosso mar de escarcéus
Das suas espumas de alegria
Deixando um sorriso sério
Na boca das ondas da nossa memória.

Queria saber escrever a saudade
A palavra companheira da lonjura,
Borboleta de eterno amor
Tantas vezes incompreendida!

Queria sonhar um sonho
De saber tão bem esta arte
De preocupar com balaios de palavras
Justapostas em filas da lógica
Não, de regras rigorosas!
Para sempre te dizer
Oi, amigo, que bom te ver!
Com olhos humedecidos de memórias!

Queria saber soletrar sílabas
Para escrever no diapasão da lonjura
A dor no vácuo da vida
Ouvir os sons das vozes dos foragidos
Onde as próprias lágrimas se dão braços
Em silêncio
Para ouvir as nossas vozes!

Queria saber desenhar com letras
O nosso Fogo amigo
Na folha duma chaluteira.

Queria saber escrever
Com lavas do nosso vulcão
Nas folhas das nossas lembranças
Atirando para longe,
Para a cordilheira da saudade,
O que nos trava a garganta
O que vai além da lembrança
O que tange os alinhavos desta poesia.

Queria saber escrever
Para escrever
Qualquer coisa bonita
Sobre o amor telúrico
Sobre os agoras do infinito,
Algo apocalíptico,
Sobre as ondas que vêm de longe
Levando e trazendo saudades
Sorrindo
Perto das praias das nossas lembranças.

Queria saber escrever
Para esculpir nos ventos
Que penteiam as cristas das ondas
E nas cordilheiras que abraçam o luar
O tamanho da nossa esperança.

Queria saber escrever
Para afastar para longe
A cortina da lonjura
Num gesto de lutar
De quem quer viver mais um dia.

Domingos Barbosa da Silva
14.02.05

V O L T A R