Sou marinheiro

Às vezes vejo círculos nas águas
dos que de longe arremessam pedras
lá das fragas das rochas nuas
onde algo recluso se encontra.

Às vezes penso
se podia sufocar o grito descente
que afasta as ondas
em círculos constantes
que eclode os céus
com o martelo dos deuses!

Às vezes construo armas de fogo
com setas dos raios do sol poente
atravesso várzeas entre pedras e algas
rumo a um reino desconhecido.

Às vezes sinto medo de afogar-me na luz e no ar
quando os marés descem para o fundo das algas
a tempestade do sol se assenta sobre o mar
e afunda as caravelas que trazem boas-novas.

Às vezes vejo medusas no fundo do mar
onde a luz dos astros em paz descansam
ninando aos peixes seu discurso
afagando lá no fundo o húmido fogo.

Às vezes sinto-me envolto de plantas macias
que encantam e desencantam as sereias
com reflexos dos raios do firmamento
e gritos dos peixes e aves da terra.

Às vezes alguém roça na minha pele
onde ancoram reflexos do céu escuro
retesado com a testa contra uma árvore
que se ergue em direcção às estrelas.

Às vezes uma calma pertinente
a martelar dentro da minha pele
a paz encontra ao embater
a casca dura do meu epiderme.

E eu que da minha vida nada sabia
sei-o agora. Aqui estou, vivente
encostado contra uma árvore.
A árvore frondosa da minha vida.

Às vezes...
Sou marinheiro...

V o l t a r