Um poema estirado na areia

Em memória de Renato Cardoso

A notícia espalhou-se no país inteiro
Que o poema a disparo foi morto
Tudo indicava que era verdadeiro:
O poema rolava na areia, exausto.

As mil horas dessa tarde sangrenta
Que o poema engolia e vomitava
Com desespero nos olhos imaginava
O alongamento das horas do legista.

Era alto e gordo, um pouco esquisito
De cor vermelha tinha uma gravata
De olhos nervosos postos no lido poema
Assim, apurou o consumado facto.

Quem foi o desgraçado do acto
Quem? Sibilava a voz do delegado.
O médico aproximou-se do morto
Pegou-lhe nas mãos frias, absorto.

Sob olhos hirtos da multidão atenta
O delegado com a gravata ajeitada
Contornou duas voltas ao morto
Para adivinhar o autor do acto.

O assassino era o arquitecto treinado
Arquitecto? Interrogou o delegado
Sim, arquitecto confirmou o bêbado
Com a mão suja a cabeça alisando.

Estás preso, seu maldito bêbado
Quem está preso é Nhor delegado
Polícia - ponha o bêbado no calabouço
Que aqui nada tem a fazer o louco.

Sob os olhares críticos da multidão
Sob a pressão da moral obrigação
Comandou que subissem à cidade
Para que constatassem a verdade.

Não morrera o poema de enfarto
Morte natural? Não! Assassinado!
Como? Quem cometeria o hediondo acto
Na boca escancarada da noite?

Mas quem o matou - indagou o delegado
Com um ar próprio dum investigador
De leve, segurou nas mãos do morto
Sob os olhos curiosos da multidão.

Junto ao poema, todas as lágrimas da terra
Teciam o drama que tudo encerrara
O teatro na areia daquela amiga praia
Na boca escancarada da noite derradeira.

Todo o sentimento guardou a multidão
Num lugar bem dentro do coração
Um segredo na mente foi selado
Pelos olhares penetrantes do delegado.

Na praia do desespero, olhando o céu
A Lua distante da multidão escondeu
O murmúrio do perturbador silêncio
A saliva das ondas a areia acariciava.

Não foi espada o instrumento matador
Foi um revólver a arma que usara
Não foi a espingarda a arma do caçador
Que no peito uma abertura abrira.

Preciso não era o polícia chamar
Preciso não era o legista apelar
A justiça tornou-se uma palavra doida
Prolixa, vazia de conteúdo, varrida.

E o poema ficou estirado no chão
Deixado às mãos da compaixão
O assassino sumiu na escuridão
Da forma que emergiu da cerração.

Na sombra da humana maldição
Os peitos bateram fim de Setembro
A mente varreu ligeira, mais não lembro
Mas sim, uma vida, um ser, com paixão.

Fechei os olhos e parti, apaixonado
Por uma vida, um ser enamorado
Fixei os olhos no céu estrelado
Muito além do entender, pensando

Em polícia, em médico, em delegado
Distantes no pensar, a opinar a descoberta:
Não era pequeno amador o assassino
Sentenciaram: era decerto um poeta.

Muito além do pensar da multidão
Muito além do silêncio das estrelas
Além da praia num canto do mundo
Sumia um matador, a mando da paixão?

Uma interrogação a saltitar na areia
Uma interjeição tombava da multidão
Quando à frente passava o legista
Com um tique nervoso no coração.

Ranato, queria ouvir as suas palavras
A sua vontade de granito, partilhada
Para somar vontades a desejos...
E consolar os olhares e mais nada.

Hoje do seu saber queria uma nesga
Uma parte divisível de sua lida
Um instante lá do do céu constelado
Um sorriso da sua face brotado.

As lágrimas no silêncio uma resposta
Esperavam, para convencer ao legista
Da sua conclusão apressada e fatalista
Que foi morto o poema pelo poeta.

 

Noruega, 15.08.10
Domingos Barbosa da Silva

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