Alvito ao longe

Berço ausente, na orla do oceano
sentado sobre a rabadilha do Fogo
escutando o segredo do sol poente
carpindo a dor na soleira do mar.

Altaneira singular, pueril, lindo berço
que beija a praia do nosso mar
espreitando das atalaias das rochas
os invasores da ibérica inveja.

Peregrino do mar e da vã sorte
nómadas nos ventos de todos os pontos
em sonhos repetidos, líquidos caminhos
das horas não-vividas da vida acerba.

Memória de precipícios incontáveis
lembranças de adamíticos catedrais
desenhadas em sonhos infantis
duma vida foragida, feita de sonhos.

Lembranças esculpidas nas rochas
descuidando os navios ao passar
molhando os olhos de marinheiros
pregando na memória sonhos de voltar.

Saudades que enxertam lamentos
na alma que a distância amassou
nas flores que o Outono entristece
na secura das chuvas da rareza.

Ninguém fala de rosas murchas, carpidas
pela falta de chuva. Gritos de horas vãs,
ninguém fala de palavras sufocadas
na cova. Palavras que o mundo odeia.

Palavras reticentes, lampejando na noite
poisada nos galhos de velhas purgueiras
palavras que andam - a passos crescidos
nas cimeiras do país do mundo de sonhos.