Tarefas caseiras
a Nanda

Se a voz contida em mim murmurasse
Aos teus ouvidos, a minha dor
Nos meus lábios, a tua boca calasse,
Sentirias o silêncio íntimo do meu amor.

Se os afazeres da vida gritassem
Do dia a dia, teus protestos calados
Pediriam aos astros que contassem
Em desabafo, teus dias cansados.

Das estrelas do céu, ouço o teu grito mudo
Vejo o pranto consumido no derredor da vida
Que as nuvens vaporosas, em cúmulo, crescido
Reflectem em redor do castelo da tua lida.

Às vezes, leio nos teus olhos, rasos de água
Os desvairos abarcados no sal das tuas lágrimas
O grito desesperado das tuas mágoas
E o eco distante do meu chamar em chamas.

Às vezes, sinto o apunhalar do teu olhar
A mutilar os beijos e as carícias de ontem
O sal temperado das tuas lágrimas, a boiar
Nos olhos cheios de memórias, de anteontem.

Às vezes, vejo a Lua a vaguear pelos telhados
Tacteando gestos inocentes da tua simpatia
Num aperto de abraços carregado de alegria
Na serpentina dos teus sonhos tresmalhados.

Às vezes, no silêncio que perturba
Chega a onda desse protesto calado
Na boca dos pratos e copos da cozinha
Na face do pó do aspirador poeirento.

E sinto a vontade de fugir, de correr...
.... e de dar uma mão amiga...
Lembrar a primavera de nós dois
Sob asas paradas dos meus gostos.

Domingos Barbosa da Silva
Natal de 2004

V o l t a r