Ao martirizado povo da Palestina


A CHAGA DO MÉDIO ORIENTE


Mãe

De onde vem todo este mal?
A nossa colina está da cor do lacre,
As chamas crepitam entre o mirto e a esteva.
O nosso rebanho está inquieto e tresmalhado,
As ovelhas ouvem o meu assobio
E julgam que é o silvo dum míssil.
As pombas já só voam por entre sombras,
E está sempre murcha a flor presa no seu bico.
E já nem ouvimos os arrulhos da sua paixão...
O vizinho detonou-se esta manhã na cidade,
Por crença piedosa nas promessas do paraíso:
- Mas que noiva quer tanto sangue
Na sua noite de núpcias?


De onde vem todo este mal?
Há árvores dilaceradas e sua seiva já não adocica
A taça da nossa esperança.
Há corpos rasgados e seu sangue já extravasa
O cálice do nosso martírio.
As vozes perdem-se no labirinto das súplicas
E já nem queimam os ouvidos de quem escuta.
Nem o pranto aflitivo das mulheres
Abre o caminho da piedade,
Porque ninguém acredita que há um anjo da dor
Preso nas suas entranhas. Ninguém!...
As crianças brincam entre os escombros,
E já não olham para cima dos ombros


Mãe

De onde vem todo este mal?
Estamos cegos, surdos e atónitos!
Perdem sentido as profecias inscritas
Na ardósia do tempo.
Tornam-se inócuas as promessas ciciadas
Nos bastiões do poder.
A verdade é que os sicários tiraram de vez o açaime
E ladram e ferem, no paroxismo da sua violência.

E contudo alguém jurou ter visto Jesus e Maomé,
Lado a lado, a colherem azeitonas no horto das oliveiras.
Seus gestos eram fraternos e seu olhar era doce,
Mas olhavam tristes para a nossa colina
Porque a viam deslocada da geografia da alma.

Mãe
De onde vem então todo este mal,
Se do próprio céu parece vir bom sinal?


Tomar, 10 de Dezembro de 2002

Adriano Miranda Lima

V O L T A R