DOUTOR ANTERO DE BARROS UM MESTRE INESQUECÍVEL

Recordar o professor Antero de Barros é, sobretudo, evocar a suas qualidades pedagógicas, os seus métodos de ensino, a vontade de aprender que instilava no aluno e o nível de exigência e rigor que punha em todo o processo de aprendizagem.

Já lá vão 44 anos que deixei de ser aluno do doutor Antero de Barros no antigo Liceu Gil Eanes, mas o tempo nunca deliu a recordação que dele sempre guardei com saudade e apreço.

De todos os meus mestres no ensino secundário, Antero de Barros foi aquele que mais impressivamente marcou o meu espírito juvenil, pelas suas qualidades pedagógicas, pela sua figura austera e imponente e pelo espírito de disciplina e de aplicação que inculcava em todos os seus alunos.

 

Se alguns se permitiam a alguma cabulice, balda ou brincadeira ocasionais em outras aulas, com Antero de Barros nem por hipótese tais derivas passariam pela cabeça. Ele não precisava de ser prolixo no discurso para se impor naturalmente perante qualquer classe de alunos. Bastava o exemplo do seu porte, digno e sóbrio, para induzir os seus alunos à devida compostura, seriedade e concentração nas aulas.

Não era homem que exteriorizasse afabilidade ou cumplicidade fáceis nos seus gestos e atitudes, mas ostentava aos nossos olhos a auréola de uma figura paternal e confiável, impondo-nos de modo natural a intelecção da relação de compromisso entre a escola e o nosso futuro.

Tinha um especial dom para farejar em alguns alunos momentâneos desvios de conduta exteriores à escola, próprios da idade juvenil, que punham em causa o seu normal rendimento escolar. Nestes casos, o aluno caía logo sob a sua alçada, "tomando-o de ponta" durante tempo indeterminado, mediante constantes chamadas ao mapa ou ao quadro para responder sobre a matéria do dia.

O aluno não tardava a "pedir toalha" e a regressar à sua normalidade anterior. Na minha última visita a Cabo Verde vi um antigo companheiro de turma com quem se passou um desses episódios e o curioso é que logo me veio à mente a recordação do nosso mestre, tal a indelével influência que ele exerceu na nossa formação.

Os modernos pedagogos certamente apodariam de autoritarismo aquele procedimento interventivo e tempestivo de Antero de Barros, mas da moderna pedagogia estamos todos fartos e conhecemos bem o seu ror de insucessos, com culpas directas e em larga medida no rendimento escolar e no colapso de muitos alunos.

Ainda recentemente soube da posição tomada em bloco pelos professores espanhóis, denunciando os quatro mitos que estão subjacentes ao falhanço do sistema escolar, que em quase toda a Europa tem sido desde há décadas objecto sucessivas e precipitadas reformas.

Um dos mitos é precisamente a ideia de que o professor deve ser antes de mais um "amigalhaço" e companheiro mais velho do aluno, desvirtuando-se assim o sentido de autoridade e de compulsividade que durante longo tempo marcou a acção docente.

E as consequências disso são hoje bem visíveis e de uma gravidade tal que a profissão de professor passou a ser encarada como de risco, pelos frequentes casos de agressão física e moral de que ele é vítima nos estabelecimentos de ensino secundário.

Perante tão inequívoca falência do actual sistema educativo, lembro-me logo do meu saudoso mestre Antero de Barros e identifico-o como um modelo que deve ser restaurado se quisermos salvar o ensino. Ou seja, urge recuperar os princípios e os valores que pautavam a relação entre o professor e o aluno.

Urge derrogar a visão fantasiosa que se tem partilhado sobre realidade social que subjaz à concepção política na área da educação, a qual tem concorrido para que o aluno seja visto como um ser intocável, irresponsável, repleto de direitos mas isento de deveres e obrigações.

Mas recordar o professor Antero de Barros é, sobretudo, evocar a suas qualidades pedagógicas, os seus métodos de ensino, a vontade de aprender que instilava no aluno e o nível de exigência e rigor que punha em todo o processo de aprendizagem.

Eu apenas trago aqui à colação o ensino da geografia, por ter sido a única disciplina em que Antero de Barros foi meu mestre. À primeira vista pode a geografia parecer uma disciplina de apreensão conseguida desde que memorizado o conteúdo programático, mas com Antero de Barros isso não era o bastante e estava longe de o satisfazer.

A propósito, aproveito, num breve parênteses, para voltar a outro dos mitos que os professores espanhóis consideram responsável pelo fracasso do actual sistema de ensino. É o mito da aquisição de competências em detrimento do conhecimento, ou, por outras palavras, o mito da educação sem os recursos da memorização para evitar cansar o aluno.

Os métodos de ensino que o professor Antero de Barros utilizava são o exemplo mais fiel de como desmistificar alguns conceitos actuais plenos de equívocos que colocam o processo de aprendizagem num impasse penoso tanto para o aluno como para o professor.

Porque tudo se torna simples e alcançável quando o professor é o pilar principal do sistema, dignificado na sua função, competente, dedicado e encarando o seu ofício como um sacerdócio.

Antero de Barros não descurava naturalmente a memorização dos conhecimentos basilares e dos princípios enformadores da aprendizagem dos conteúdos programáticos.

Mas, acima de tudo, preocupava-se com o habilitar o aluno a olhar para o particular sem deixar de ver a sua correlação com o geral, e, inversamente, fazia com que o todo fosse abordado sem deixar de compreender a sua incidência sobre cada uma das partes.

No caso particular da geografia, rara era a aula em que os mecanismos de raciocínio não eram estimulados e elevados a um alto expoente, obrigando o aluno a compreender e a relacionar factores tão diferentes como o clima, a economia, a demografia e a organização social e política.

Mesmo ao nível das exigências normais do ensino secundário, todo o aluno que passou pelas mãos de Antero de Barros deve ter atingido um patamar de amadurecimento intelectual em que sentiu a importância da contextualização do que aprendia e a transversalidade dos conteúdos dentro da mesma disciplina.

No entanto, pouco conhecia eu da vida pessoal e familiar deste meu saudoso mestre, para além de ser um exímio desportista e filho do lendário mergulhador João de Barros. Recordo-me da filha mais velha de Antero de Barros, rapariga da minha idade e minha contemporânea no liceu.

A última vez que vi o meu mestre foi à distância e caminhava ele na rua do Coliseu, em Lisboa, em direcção à Sociedade de Geografia. Mas isso foi, salvo erro, em fins da década de 1960. Não tive então possibilidade de lhe falar. Por informações que amiúde vou colhendo, julgo saber que o doutor Antero de Barros vive na cidade da Praia.

É natural que meu mestre já não se recorde deste seu aluno, tanta é a água que já correu debaixo da ponte das nossas vidas. Mas deixo-lhe aqui efusivamente o testemunho público do meu reconhecimento e da minha gratidão por tudo o que representou para mim e todos os alunos da minha geração. Bem-haja, doutor!
Adriano Miranda Lim

Adriano Miranda Lima

V O L T A R


É um homem Grande, literalmente, este professor do liceu Gil Eanes, instituição a que "a independência de Cabo Verde deve uma grande parte".

Antero Barros, o único negro de três rapazes entre 58 raparigas do seu curso de Filologia Românica, presenciou o primeiro discurso de Amílcar Cabral na 17º Assembleia das Nações Unidas, em 1962, ensinou várias gerações de onde saíram ilustres figuras, e, aos 85 anos, sem perder o seu taco de golfe, tem pronta para publicação uma investigação sobre a influência da língua inglesa no crioulo.

Evidencia uma postura atlética - ou não tivesse sido desportista de ténis, cricket e golfe - e diz-me que cultiva o anonimato e que as pernas lhe emperram o andar, quando lhe afloro a homenagem que muitos dos seus antigos alunos lhe estão a preparar - dia 29, a partir das 12h30, no Restaurante Caravela, em Algés.

Ainda assim, o professor, já mimado por idênticos reconhecimentos em Paris, Estados Unidos e Holanda, diz que não irá fazer desfeita àqueles para quem sempre viveu.

 

"Foram tantos e tão bons...Eu leccionava Inglês e Geografia no liceu do Mindelo, que começou por chamar-se Infante D. Henrique, fundado em 1917, e que renasceu Gil Eanes depois de uma revolta da população contra o seu encerramento".

Conta que era através da Geografia que "podia também construir a cabo-verdianidade, inspirando os alunos para a causa independentista".

De brilho nos olhos, Antero de Barros indica-me uma extensa fila de nomes do que chama a "geração de ouro" que estudou naquele liceu: Aristides Pereira , Amílcar Cabral, Pedro Pires, Abílio Duarte, Manuel Faustino, Carlos Reis, Osvaldo Osório, Mesquitela Lima, Onésimo Silveira, Amaro da Luz, Antonio St Aubyn, entre muitos outros que, diz "formaram a Associação dos Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes", em Lisboa, hoje, mais abrangente - Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde.

"Muitos desses estudantes estiveram na luta na Guiné-Bissau, na clandestinidade e ainda hoje estão em cargos e funções de destaque", facto que, confessa, o torna feliz, sem contudo referir que tanto no período de transição como na actualidade "há oportunistas na governação".
Foi vice-reitor (mais tarde reitor) daquele liceu, em 1957/8, ao lado do seu "melhor amigo e ídolo", o reitor Baltazar Lopes.

Sobre este "vulto grande", um nome omnipresente em toda a sua vida, considera que foi "maltratado e recebeu ofensas nos primeiros tempos da independência. Por isso, viveu frustrado e amargurado", disse com convicção: "É um dos três pilares da História de Cabo Verde ao lado de Amílcar Cabral e Eugénio Tavares", este poeta da Brava, que nem todos sabem que foi também "um grande político".

Sentado num sofá de um apartamento de familiares, em Póvoa de Santa Iria, a caminho de Vila Franca, onde se encontra desde há oito meses para tratamento médico, Antero Barros mostra-me o seu livro de curso de 1952/56, onde poemas de Gabriel Mariano e Dulce Almada, enaltecem a sua persistência.

Caricaturado na página ao lado com o pé sobre os seus livros de Filologia Românica e de Ciências Pedagógicas, tem o cabelo bem penteado para trás, apoia-se num taco de golfe e tem na mão direita uma raquete de ténis - já aí evidenciava a mesma altivez que ainda conserva.

Antero de Barros é então um jovem de 29 anos, já com quatro dos oito filhos de hoje, que vivia de explicações para pagar a renda do quarto em S. Bento e a alimentação, que descobrira mais barata, numa tasquinha no Largo Conde Barão. Era o único negro entre três rapazes e 58 raparigas que integraram aquele curso.

Revelando o que chamamos de "memória de elefante" e sem perder pitada do que o canal "Eurosport" ia apresentando, enquanto conversamos - um hábito diário, juntamente com o canal da BBC para se actualizar no conteúdo informativo e também no inglês, a língua que sempre leccionou - Antero Barros nota-me que o desporto foi sempre a sua paixão, "uma coisa de casa." O seu pai, "Nhô Fula", foi um lendário caçador de tubarões e jamantas, nos mares de Cabo Verde.

Da sua atracção pelo golfe e o cricket, desportos ainda hoje tidos como elitistas, mas que em S. Vicente, onde nasceu, eram populares, diz, pela influência inglesa.

A propósito alerta para o "crime que vão fazer", em pleno século XXI, de destruirem o Clube de Golfe em S. Vicente de que foi fundador, por causa da actual febre imobiliária. Da sua indignação, já escreveu para vários jornais, para esclarecer a "aberração que isso constituirá".

É presidente honorário do Comité Olímpico de Cabo Verde que liderou de 1989 a 2006. Presidente da Federação cabo-verdiana de futebol e membro do Comité Olímpico Internacional. Foi campeão de golfe em Cabo Verde e Angola, território onde estava quando se deu a independência e onde permaneceu durante algum tempo.

Aqui fez parte da comissão de nacionalização da educação e presenciou a experiência dolorosa da ocupação dos colégios particulares onde também leccionou, nomeadamente o da "Cova da Beira" e "S. José de Cluny".

De Portugal que considera a sua segunda pátria, onde cursou na Universidade de Letras de Lisboa, recorda os seus "grandes professores" na década de sessenta: Lindley Sintra, Maria de Lourdes Belchior, Prado Coelho, Celso Cunha, Delfim Santos.

Aqui fez parte da equipa de golfe de Portugal, foi sócio e jogador do Lisbon Sport Club e jogou com o Conde de Barcelona, D. Juan Carlos, e outras figuras da época. Antes da independência de Cabo Verde era Director dos Serviços de Educação e depois foi professor na Praia ao longo de 20 anos.

Considera que Cabo Verde "está num estádio mais próximo da Europa do que de África" e lamenta que o ensino do português tenha vindo a piorar - "encontro muitos erros ortográficos em alunos de anos avançados", disse, entristecendo-se também por opções "caricatas" em detrimento de altos valores e exemplificou entre muitos outros que diz conhecer: "Veja o contrasenso e ignorância de alguns que considero simples oportunistas.

Há um liceu na achada de S. Filipe a quem chamam "Nha Manito", nominho de Constantino Semedo, um contínuo (guarda). O que terá feito ele de tão extraordinário?

O que sabem os seus alunos do nome do seu liceu ? O que sabemos nós sobre o que fez este homem Constantino? Com tantos nomes que temos importantes na literatura, na política, na música....chega a ser indecente".

Sobre a oficialização do crioulo enquanto língua cabo-verdiana, Antero Barros, diz que é possível que tal facto tenha vantagens, sobretudo de ordem política e porque toda a gente fala o crioulo, mas observa que "uma língua não se faz da noite para o dia". Depois, prossegue, "vi um livro de Manuel Veiga sobre o Crioulo em 40 lições, e reparei que há um recurso ao português para fazer as explicações", facto que o leva a acreditar que existem muitas dificuldades nas matérias que são complementares.

Antero Barros é esquivo quanto ao foro político, embora seja da UCID, referindo que tal área nunca foi o seu forte. Sobre o encontro com Amílcar Cabral, em Nova Iorque, em 1962, quando estava então ao serviço da comissão de educação em representação do governo português, diz que depois desse encontro no bairro italiano, acompanhado de Aguinaldo Veiga, passou a ser vigiado.

Cabral ter-lhe-á dito, perante a impossibilidade de Antero lutar na clandestinidade, que "os que ficam são as trancas da porta", são necessários também à Nação.

Socorrendo-se da doutrina de um professor universitário, Antero Barros considera-se "um professor que é" e "não um professor que está" acentuado que ele "é" porque o ensino foi sempre a sua paixão e a sua vida.

A sua vida, adverte, sorrindo, "dava muitos livros". E pelos livros continua à procura de dois especiais que lhe terão sido roubados entre quase um milhão de outros, há mais de 30 anos, em S. Vicente e sobre os quais chegou a prometer alvíssaras em anúncios de jornais: "As Técnicas e o Valor da Reconstrução da Filologia Comparativa", do professor Frederico Laranjo, e "Fundamentação Existencial da Pedagogia", do professor Delfim Santos.

Fazem-lhe falta.

Otília Leitão


V O L T A R