SALVEM A CASA DO DOUTOR ADRIANO!

O que verdadeiramente nos mobiliza é a crença de que se cometerá um crime de lesa-cultura se for demolido o prédio em questão e se não lhe for dado um uso que, em minha opinião, está irremediavelmente comprometido com a história da cidade e dessa notabilíssima figura nacional que foi o Dr. Adriano Duarte Silva. Um Museu é o destino mais consentâneo com a natureza arquitectónica e a localização topográfica do edifício, e significa, sobretudo, um preito de homenagem às figuras que nele viveram, com especial destaque para o nosso Dr. Adriano. Creio que é isto que se faria em qualquer sociedade que preze os valores da sua história e cultura, onde o fortalecimento da consciência cívica se estribe em valores comuns e imutáveis.

Se é verdadeiro o que eu li, considero que não é atitude digna de uma autarquia a nota que a Câmara Municipal de S. Vicente difundiu sobre a polémica à volta da "Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, execrando os cidadãos que se movimentaram com o único intuito de evitar a demolição do secular edifício. Na nota, intitulada "Os Falsos Guardiões da Cidade do Mindelo", a Câmara Municipal de São Vicente diz não aceitar a continuação de "uma estéril e inútil polémica sobre o destino a ser dado à casa promovida por um punhado de pessoas armadas em defensores do património mindelense apenas quando lhes interessa". Para a autarquia, essas pessoas foram movidas por " interesses partidários e obscuros e que têm tentado travar tudo o que de moderno se pretende para São Vicente".

Reagindo na parte que me assiste como um dos peticionários, acho que não é curial nem é razoável que uma Câmara eleita democraticamente, e portanto com razões para se sentir legitimada no seu mando, se manifeste assim tão atrabiliariamente e tão vesga contra cidadãos que, em seu pleno direito de cidadania, entenderam movimentar-se para evitar a eliminação do que consideram um património cultural da sua cidade. Palavras tão descabidas como duras e injuriosas não deviam, de facto, pertencer ao léxico de uma Câmara da qual se espera, pelo contrário, um tratamento sempre digno, tolerante e respeitoso para com todos os munícipes, mesmo os que ousam pensar de forma diferente e exprimir publicamente o seu sentimento e o seu ponto de vista.

Claro que este assunto é susceptível de dividir as opiniões, como qualquer outro, mas não é admissível que a autoridade autárquica pense e decida sobre o património cultural da cidade segundo o seu único e exclusivo arbítrio, fazendo tábua rasa da opinião pública. Ninguém é detentor da verdade absoluta. Nem a Câmara, nem os cidadãos que se mobilizaram tendo como único móbil a preservação do edifício. A busca de boas e justas soluções não pode basear-se numa visão unilateral da realidade, assim como não pode ignorar que a procura da verdade reside numa linha oscilante de conjecturas e falibilidade.

É isto que, aliás, nos dizem os sábios da epistemologia, desde os antigos Xenófanes e Sócrates aos posteriores Kant e Karl Potter. Para mais, esta constatação é de manifesta evidência quando o que está em causa é uma matéria que, pela sua especial delicadeza, não pode entrar no lote dos valores normais contabilizáveis, visto que se prende com uma questão basilar de memória e identidade. E, por isso, não é curial que fique apenas a mercê de quem passa transitoriamente pelo poder, e não é tolerável que se exclua a auscultação dos munícipes e, mais ainda, se menospreze de forma ostensiva um legítimo acto de cidadania, tratando-o como uma vulgar intromissão na gestão corrente da autarquia.

Veja-se que a construção do edifício em causa remonta ao último quartel do século XIX, numa época em que estava ainda a forjar-se a construção e a afirmação da entidade espiritual do Mindelo. O edifício, ainda que revestindo uma monumentalidade apenas dimensionada à nossa urbe, possui singularidade arquitectónica que imprime, só por si, marca própria ao local em que se implanta, além de estabelecer, na sua génese, uma relação toponímica com o bairro próximo e, também, além da circunstância, porventura ainda mais relevante, de ser "A CASA DO DOUTOR ADRIANO", designação esta que prevalece e tem real força anímica, quer queiramos ou não. Não é em vão que a memória de qualquer cidade incorpora irrecusavelmente a sua arquitectura mais antiga e mais significativa, por revestir as marcas distintivas do seu nascimento e da sua emancipação.

E aqui chegados é que o campo se divide, ou seja, o dos conceitos e dos sentimentos. Uns sentem a cidade na sua inteireza material mas sobretudo espiritual, e outros porventura serão mais sensíveis ao que é contingente e efémero porque enche momentaneamente o olho e alimenta a ilusão de progresso e desenvolvimento. No entanto, a memória da nossa cidade, sem ter de ser um repositório de vivências homogéneas, é sentida e vivida por aqueles que nela residem e por todos quantos o destino obrigou a viver fora, e bem numerosos são.

Cada um sente as coisas da vida à medida dos laços que cria e das intuições espirituais que estimula, mas sucede até que quem vive fora interioriza de forma especialmente intensa o sentimento de pertença, porque é precisamente quem, talvez, mais impulso anímico recolhe de referências materiais que, na sua ingenuidade, julga imutáveis e invioláveis, não suportando o luto da sua perda ou a ameaça da sua delapidação.

Emoldurados pelo Monte Cara, a Baía do Porto Grande e o Monte Verde, temos o Fortim, a antiga Capitania, o edifício do Palácio, a antiga Alfândega, a rua de Lisboa, a Casa do Dr. Adriano, entre outras referências materiais que preenchem o substrato das nossas lembranças e em que ancoram as saudades que se acumulam na ausência de quem sente a presença do torrão natal no núcleo das suas vidas e como algo quase sobrenatural. É este o busílis da questão e não qualquer outra motivação espúria, como se atreveu a insinuar a Câmara Municipal. E é o grau de intensidade com que se cultiva memória que origina a separação de águas entre o que é contingente e o que é eterno, noutras palavras, entre o que é satisfação ilusória e o que é plenitude do sentimento de mística.

Assim, convenhamos que quem sente verdadeiramente as ofensas tem de rejeitar a insinuação maldosa de ter sido movido por " interesses partidários e obscuros e que tem tentado travar tudo o que de moderno se pretende para São Vicente". Não é seguramente o meu caso nem de outros tantos que conheço e assinaram a petição. Vivo fora de Cabo Verde desde 1963, estou perfeitamente equidistante em termos políticos e nada me liga a qualquer interesse material em Cabo Verde a não ser as relações familiares e de amizade, além da memória que afectuosamente cultivo como outro qualquer filho da terra.

O que verdadeiramente nos mobiliza é a crença de que se cometerá um crime de lesa-cultura se for demolido o prédio em questão e se não lhe for dado um uso que, em minha opinião, está irremediavelmente comprometido com a história da cidade e dessa notabilíssima figura nacional que foi o Dr. Adriano Duarte Silva. Um Museu é o destino mais consentâneo com a natureza arquitectónica e a localização topográfica do edifício, e significa, sobretudo, um preito de homenagem às figuras que nele viveram, com especial destaque para o nosso Dr. Adriano. Creio que é isto que se faria em qualquer sociedade que preze os valores da sua história e cultura, onde o fortalecimento da consciência cívica se estribe em valores comuns e imutáveis.

A Câmara diz que "não dispõe de nenhum espaço digno para a construção da Delegacia de Saúde e que não se responsabiliza pela eventual inviabilidade do projecto". Então respondo que uma Delegacia de Saúde não precisa comprazer-se primacialmente com requisitos de dignidade mas sobretudo com condições de funcionalidade e de capacidade de resposta. Mas, se estiver de facto em causa a viabilidade do projecto, que pode ser redireccionado para outro espaço, então é tempo de o Governo ter uma palavra decisiva sobre esta polémica, empenhando necessariamente os responsáveis pela política da cultura. Pois se a autarquia não valoriza o seu próprio património, que o poder central intervenha e dirima o conflito salvaguardando um valor sanvicentino que não deixa de ser do todo cabo-verdiano.

Repare-se que, na era em que vivemos, a valorização da memória das cidades é uma preocupação momentosa na generalidade das sociedades do mundo, tendência que demonstra uma ruptura com conceitos, valores e atitudes que antes vigoravam. Na verdade, houve um tempo em que se promovia o culto do que era novo e representava aposta visível e entusiasmante no futuro, derrogando-se os vestígios materiais do passado que pudessem ser interpretados como retrocesso, saudosismo ou travão ao progresso.

Hoje, ao contrário, avulta a consciência de que a vertigem da chamada modernidade tem custos imprevisíveis e inquietantes, dos quais a delapidação de valores identitários e a ameaça ecológica serão os mais perniciosos. Não é por acaso que em todas as cidades do mundo se verifica hoje uma aposta no restauro, na preservação e na revalorização das heranças do passado. A ideia é recolocar o cidadão no coração da cidade, enfatizando os valores de pertença mútua e o entrosamento com a comunidade, o que só é possível salvaguardando a memória colectiva.

Com esta minha intervenção, não estou a agir por " interesses partidários e obscuros e que tenho tentado travar tudo o que de moderno se pretende para São Vicente". Aliás, penso que esta Câmara Municipal está a fazer um bom trabalho, com empenhamento e dinâmica, como o atestam várias obras de recuperação urbana realizadas, mas no caso particular deste património cultural não está a proceder com o melhor critério. Por isso, termino como este apelo lancinante: SALVEM A CASA DO DOUTOR ADRIANO!


Quarteira, 7 de Março de 2010
Adriano Miranda Lima

V O L T A R

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Comentário:

Desculpas e informo-lhe que sou caboverdiano e poderia fornecer-lhes algumas informaçoes. E uma delas explica-me que ja' tinha estado em Sao Vicente na pensao Sodade e que ficou encantada com a sua estadia. E la' entramos numa boa conversa, incluindo a presença franceza passada e actual em Cabo Verde. Todas voltaram encantadas de Sao Vicente mas lamentaram que nao houvesse uma politica de turismo como nos paises do mediteraneo onde o turista tem segurança, passeia tranquilamente e tem todas as informaçoes uteis nos hoteis da parte dos Municipios. Tanto a Dona Nhunha do restaurante Sodade como a D. Lutcha do Restaurante Chez Loutcha, pessoas da minha estima, procuram fazer o maximo para atrair o turismo em Cabo Verde, demonstrando a nossa morabeza mas também organisando actividades culturais.

Estas duas senhoras que emigraram tao jovens de Cabo Verde e que voltaram para servir Cabo Verde deviam merecer uma maior atençao do MUnicipio, do Ministerio da Cultura e do Turismo. Sera' que alguma foram ouvidas quanto ao futuro do turismo em Cabo Verde quanto mais que vivem desta actividade desde os tempos em que foram emigrantes na Africa Ocidental. Porque nao integra-las num projecto de estudo sobre a politica do turismo em Cabo Verde ?

Falamos do acolhimento, das visitas ao interior da ilha, da possibilidade de havezr vôos directos para Cabo Verde, mas lamentou-se a insegurança tanto na Rua de Coco como na subida da Pensao Sodade. E Entao veio a discussao o problema do prédio abandonado que chegara a pertencer a um cidadao francês, Monsieur Celarine. E aventamos a hipotése que esta casa por ser construida por um francês poderia ser transformado num Centro Cultural franco-caboverdiano (Ver o meu artigo na Revista Latitudes n° 35, editado em Paris).

Ha' outros lugares onde se pode construit o A Delegacia de Saude, que necessita de grandes espaços e longe do barulho da cidade. Quero mesmo mais centros de saude em Mindelo e com varias especialidades pois muitos emigrantes nao conseguem regressar devido à falta de estruturas medicas que possam de imediato tratar certas doenças.

Estou acima dos partidos no visao sartriana da politica em que ninguém precisa estar nos partidos para ser patriota. A minha intervençao neste caso respeita simplesmente ao amor a terra e ao respeito que sempre dediquei à figura do DR. ADRIANO DUARTE SILVA CABOVERDIANAMENTE LUIZ SILVA

Luiz Silva               silva.luiz@wanadoo.fr

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V O L T A R

Comentário:

Belo texto que realmente faz ecoar em nós o apelo lançado, para salvar a casa do Dr. Adriano Duarte Silva e nos faz recuar no tempo e quase sentir a época em que "estava ainda a forjar-se a construção e a afirmação da entidade espiritual do Mindelo". Isto toca o coração de qualquer um pois é como se assistíssemos à génese de um ser - Mindelo - prestes a emergir, e com ela toda a nossa identidade.

Afinal uma cidade é um organismo que vive e se exprime através de nós, da nossa cultura e das nossas vivências. É digno de realce a forma carinhosa como o autor alude às referências materiais da ilha como que cingidos num grande abraço pelo meio envolvente: "Emoldurados pelo Monte Cara, a Baía do Porto Grande e o Monte Verde, temos o Fortim, a antiga Capitania, o edifício do Palácio, a antiga Alfândega, a rua de Lisboa, a Casa do Dr. Adriano…"

Força a todos os que apoiam esta iniciativa para preservar as referências materiais e imateriais de S. Vicente . Viva Mindelo.

Fátima Ramos Lopes              flopes@ua.pt

V O L T A R

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Comentário:

Nao cometem erros do passado ao qual demoliçao de casas com principio storicos se trasformarem em predios e centros comerciais o algo parecido, os nossos passados sao os pilares tanto da historia como da cultura e nòs ainda em Cabo Verde estamos com a fome disso.

Por ser ainda joven nao conheci este Dr. Adriano mais pelos os terceiros sempre subi que foi um bom filho da terra e ha uma musica(desculpem-me se, erros pode ter em citar-la) zelou, zelou Sr. Dr. Adriano fidju kiridu di nos Cabo Verde, cantada para a nossa querida Betina, Cesaria Evora e mais artistas.

Tenho a certeza que a nossa amada presidente da camara nao vai fazer isto acontecer simpelsmente porque ela sabe respeitar a vontade dos cidadaos e sendo uma democrata nao irà trai-la. Gostei muito do artigo, uma boa leitura cheio de afectos e reconhecimentos comoventes.

Os meus Parabens Sr. Adriano Miranda.

Ines G.               ing@hotmail.com

V O L T A R