A CULTURA GERAL DOS NOSSOS JOVENS E AS NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÂO E COMUNICAÇÃO

Muito se comenta hoje em dia o estado de incultura e de iliteracia dos nossos jovens estudantes, não se coibindo mesmo de apontar aqueles que frequentam estabelecimentos de ensino superior. E a medida-padrão para extrapolar essa realidade é normalmente a dificuldade ao nível da expressão verbal e escrita e do cálculo matemático elementar.

Com frequência, através da Internet, são difundidas, a título de paródia, respostas absurdas ou completamente descabidas extraídas de testes escolares. Outras vezes são reportagens televisivas que nos mostram carências básicas sobre a língua e a história pátrias ou o desconhecimento de factos importantes da actualidade nacional ou internacional. Mas esta realidade não é exclusiva de Portugal. É um lugar comum na maior parte das sociedades europeias.

E então a nossa incredulidade atinge o rubro quando nos damos conta da profusão de meios e suportes informativos e educativos de que os jovens hoje usufruem, sem qualquer paralelo com as condições do passado. Com efeito, um luxo, em contraponto com a carência de tempos mais recuados.

Lembro-me de que, estudante no antigo Liceu Gil Eanes de S. Vicente, pouco era o apoio bibliográfico com que podia contar para ampliar ou esclarecer melhor alguns conteúdos programáticos, como era já exigível nos anos mais avançados do ensino liceal. Tinha a biblioteca municipal, mas ela era pouco provida de meios e com um horário de utilização apenas nocturno.

Na verdade, o incremento dos meios audiovisuais e informáticos, com a Internet em crescendo de expansão, veio alterar significativamente o panorama da aquisição do conhecimento, mas o que poderia configurar apenas uma vantagem indiscutível por vezes é considerado um handicap no processo de aprendizagem escolar ou de formação cultural, quando não um possível factor de retrocesso.

Com efeito, é já um lugar comum transformar a televisão em ré, apontando-se-lhe, entre outras culpas, uma utilização mais virada para objectivos do lucro comercial do que para o verdadeiro serviço público, o que é uma verdade flagrante no caso das televisões privadas, circunstância esta ainda não aplicável a Cabo Verde.

De facto, é lastimoso que o serviço prestado pelas televisões no chamado horário nobre (entre às 20 horas e às 24 horas) seja normalmente preenchido com concursos, telenovelas, reality-shows e talk-shows, que a crítica considera programas lúdicos de gosto duvidoso que nada acrescentam à formação cultural das populações.

Pelo contrário, o seu efeito é tido como alienante e estupidificante nos espíritos, embora as respectivas direcções esfreguem as mãos de satisfação pelo registo de importantes sharings televisivos, base de sustentação dos lucros gerados pela publicidade.

O papel da Internet ainda não foi exaustivamente estudado, mas a sua utilização indevida é já encarada como indutora de práticas e comportamentos desviantes ou contrários ao verdadeiro progresso cultural e social. O facto é que a profusa troca de mails é na maior parte dos casos vazia de interesse cultural, pouco ou nada acrescentando à formação dos seus utentes.

Regra geral, estes entretêm-se mais a reenviar ficheiros sem real valor, normalmente veículos de situações insólitas, anedotas grotescas, publicidades encapotadas, manipulações grosseiras de opinião, denúncias anónimas, etc. À excepção dos chamados blogues, rara é a apetência para a troca e o debate de ideias, geradores de estimulo intelectual e de alargamento do horizonte mental.

Portanto, tanto a televisão como a Internet podem resultar em instrumentos de pouca valia, senão mesmo negativos ou corrosivos no efeito que produzem, se o utente não tem uma atitude criteriosa e se se limita à fruição passiva do que recebe e circula. É mais cómodo sentar-se num sofá e ver um programa televisivo do que ler um livro sobre o mesmo tema.

É mais apetecível reenviar simplesmente ficheiros do que emitir um juízo sobre o seu conteúdo. Navegar no ciberespaço permite aceder a uma variedade de fontes bibliográficas, mas, embora pleno de facilidades, pode não oferecer a cumplicidade e a envolvência de uma biblioteca. É irrefutável que as mentes pouco amadurecidas, neste caso os adolescentes, são particularmente permeáveis à fruição do que despende menos labor intelectual.

Mas o resultado tanto pode ser benéfico como inócuo ou prejudicial para a formação, consoante a atitude do receptor perante as informações, os conceitos e os estereótipos que os conteúdos veiculam. Portanto, o cibernauta tende a comportar-se com a mesma passividade que o utente passivo da televisão; só que na Internet, ao propiciar incautamente a circulação de tudo o que recebe, sem saber de onde vem e porque vem, permite a realização de objectivos que podem ser contrários ao seu próprio interesse e ao da comunidade. E o mais grave é que uma mente habituada a uma atitude passiva não se desenvolve e não estimula o espírito à busca incessante do conhecimento.

Caberá então interrogar se uma televisão de pouca dimensão educativa e se uma informática mal utilizada podem de facto representar uma mais valia em relação a outras alternativas de outrora como a leitura e a discussão aberta e directa. Seguramente que não. Mais, a televisão e a informática podem tornar-se um factor perverso se, não utilizadas convenientemente, ainda por cima roubam, por comodismo ou facilitismo, o espaço que antigamente era consagrado à leitura e outras formas proveitosas de estudo e actividade cultural.

Todavia, do mesmo modo que devemos ser consumidores críticos da televisão ou da Internet, rejeitando os seus subprodutos, também devemos ser criteriosos na escolha e na utilização da leitura. No entanto, menos provável é a inocuidade ou a acção lesiva de um livro do que a indigência dos programas que alguns meios audiovisuais nos propõem.

Com consciência do problema é que o Governo Português tenciona pôr em prática o chamado Plano Nacional da Leitura (PNL), com o qual pretende "concretizar um conjunto de medidas destinadas a promover o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita, bem como o alargamento e aprofundamento dos hábitos de leitura, designadamente entre a população escolar".

Ou seja, sem menosprezar a importância das novas tecnologias de informação e comunicação, redescobre-se que a boa leitura não pode ser postergada. Tem de ser recuperado o seu papel insubstituível no fortalecimento da autonomia interior e no encorajamento do autodidactismo.


Tomar, 17 de Maio de 2006
Adriano Miranda Lima

V O L T A R