AHMADINEJAD, OS AYATOLLAHS E O URÂNIO


Mahmoud Ahmadinejad entra em cena e dá início à sua rábula perante uma plateia que se agita constantemente nas cadeiras. Refastelados nos lugares da frente estão os Estados Unidos da América e os mais destacados membros da ONU. O actor sabe que o momento estratégico não podia ser mais apropriado para representar o papel que os ayatollahs lhe passaram para a mão. Por isso, não quer perder as deixas e faz por não gaguejar.

Teatro à parte, vejamos o que se passa. Em boa verdade, o Irão tem dois objectivos simultâneos a atingir com o seu programa de enriquecimento do urânio, contrariando a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Em primeiro lugar, instigar a atenção de um inimigo ou ameaça comum para assim reforçar uma unidade interna que vinha sendo perturbada com a militância dos movimentos para a democratização laica.

Em segundo lugar, ganhar uma posição proeminente nas relações de poder no Médio Oriente. O Irão é das nações mais dotadas de pergaminhos históricos naquela região e demograficamente das mais fortes, sem referir o importante poder económico do seu petróleo (4º exportador da OPEP). Se a Índia, o Paquistão e Israel têm armas nucleares, perguntarão certamente os ayatollahs: por que motivo o Irão não as haverá de ter também, sendo certo que hoje em dia ninguém reconhece outro verdadeiro poder dissuasor que não o das armas nucleares?

Mas o problema para o mundo é precisamente esta alquimia muito perigosa entre a arma nuclear e o fanatismo islâmico, mesmo que sob os disfarces do poder oficial.

É neste complicado cenário que surge um novo jogo de gato e rato, de desfecho ainda imprevisível, mas que está a toldar ainda mais o ambiente daquelas paragens do Médio Oriente.

Estará o Irão a jogar com uma ameaça real ou tudo não passa de "bluff"? Dito de outra forma, as actividades nucleares do Irão têm carácter pacífico, como vinham apregoando os seus líderes, ou é uma decidida corrida para a frente rumo ao armamento nuclear?

Para Judith Kipper, directora da Secção do Médio Oriente do Council of Foreign Relations, não havia qualquer dúvida há 3 meses atrás de que a intenção do país era dotar-se de armas nucleares. De facto, qualquer leigo se apercebe de que um país rico produtor de petróleo não pode eleger a energia nuclear como alternativa prioritária sem ficar sob o holofote da suspeição.

De resto, a nossa credulidade nas intenções pacíficas do Irão cairá por terra se nos dermos ao cuidado de olhar um pouco para a história e a geografia da Ásia Menor e analisar o actual momento geopolítico da região. A questão palestiniana atingiu o estado crónico e sozinha consegue inquinar a paz na região, servindo de espoleta para outros protagonismos, de entre eles o mais inquietante o terrorismo islâmico internacional.

E com esse detonador sempre latente nas consciências dos povos da região, o Irão está no epicentro de uma diabólica zona de conflitualidade, encravado ente um Iraque e um Afeganistão instáveis e um Paquistão senhor de poder nuclear. E com o grande engulho Israel um pouco mais ao lado, ainda por cima também ele com poder nuclear.

Ora, não há dúvida de que o Irão soube lançar os seus dados na altura que lhe pareceu mais certa, ou seja, depois de os EUA se terem enterrado até aos joelhos no Afeganistão e no Iraque. Ninguém para já admite que Bush se precipite para uma nova invasão, porque abrir outra frente de guerra no Médio Oriente seria o mesmo que esticar a corda até ao limite.

Ora, os EUA não têm à partida capacidade militar para abrir outra frente de guerra no Médio Oriente, com ou sem coligação com outras potências.

Por outro lado, não é de admitir que Bush possa desta vez reeditar a solução dos ataques aéreos cirúrgicos como outrora fez contra o Iraque, pelo risco de fazer alastrar as proporções do incêndio que lavra no mundo árabe. Se por enquanto ele é ainda controlável, alimentá-lo com novas iniciativas voluntaristas pode ter resultados catastróficos para a paz mundial.

Talvez seja por esta razão que Bush declarou há poucos dias que "há diferenças significativas entre o Iraque e o Irão", querendo com isso dizer que a via diplomática tem de ser explorada até à exaustão. Pelo menos é o que a boa vontade do analista poderá joeirar naquela afirmação, para evitar confundir mais a posição do presidente americano.

Mas é tão estulto como descabido afirmar que há diferenças entre as duas situações, a do Irão e a do Iraque. Façamos então uma rápida exegese. O Iraque declarou sempre que não tinha armas de destruição maciça e que não apoiava a Al Qaeda. Não lhe deram crédito e o país foi invadido, não se tendo provado qualquer das acusações que foram o principal pretexto da invasão. Com o Irão é precisamente o contrário.

Diz de boca cheia para quem quiser ouvir que não cessa o seu programa de enriquecimento do urânio e que se está nas tintas para a AEIA e para aquilo que designa como "potências de palha" É o mesmo Irão que apoia abertamente o terrorismo islâmico e que tudo fará para inviabilizar uma pretensa democratização do Iraque, consciente de que o sucesso desse país será altamente encorajador para os movimentos iranianos pró-Ocidente.

A rábula ainda não chegou ao fim e as mãos dos espectadores começam a enclavinhar-se nos braços das poltronas. É de esperar tudo, desde exasperação a comiseração. Mas pode ser que o actor se engasgue e que tudo acabe com uma simples pateada na plateia.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R