AS "MÃE DE FIDJE" DA NOSSA TERRA

Depois de termos publicado o texto "CAELA, UMA BRAVA E INDÓMITA MULHER DO POVO", de Adriano Miranda Lima, recebemos do autor um pedido para a sua substituição por outro, "AS 'MÃE DE FIDJE' DA NOSSA TERRA" que agora publicámos.

O autor prefere substituir o texto, por ter sido alertado de que alguns dos factos que menciona não se teriam passado com a personagem a quem os atribui, mas sim com outras duas figuras da mesma estirpe, apesar de se tratarem de "situações pitorescas ocorridas no passado e de que não resulta nenhum malefício para ninguém".

Adriano Lima lamenta o ocorrido e pelo facto pede desculpas aos leitores. Liberal agradece ao autor o oportuno reparo e reitera também as desculpas merecidas aos seus leitores

A mulher do povo é uma figura quase omnipresente nos contos (stórias) do Zizim Figueira. Mesmo quando não é figura central da narrativa, ela vive nos seus arrabaldes, é presença insinuada ou pressentida, o mesmo é dizer, a alma mater de outras tantas figuras populares do imaginário mindelense onde o nosso Zizim colhe ingredientes para os seus mosaicos plenos de humor e humanidade.

A Caela, carregadeira de cais, é para o Zizim um dos paradigmas da mulher do povo de S. Vicente. Ele descreve-a como uma mulher de estatura imponente, de costas rijas e braços de ferro, mesmo talhada pela natureza para a profissão que a vida lhe destinou para angariar honestamente o sustento para os seus.

Mãe de muitos filhos, porventura de mais de um progenitor, ela fazia inteiro jus a esta expressão que entre nós tem um significado inigualável - "MÃE DE FIDJE". Afinal, uma condição muito vulgarizada na nossa terra e que tem o significado de mãe inteiramente assumida, mãe ignorada por um companheiro do acaso, mãe sofrida no silêncio do seu brio, mãe que não regateia sacrifício para criar a sua prole.

E mãe que é também pai, dupla e simultânea condição parental que exige coragem, desvelo e sacrifício irrenunciável no dia-a-dia das lides da vida. Era, pois, Caela e mais ninguém quem assegurava a cachupa diária para os seus filhos, e era ela quem exercia, sem delongas ou preterição, a autoridade paterna, quando necessário com mão firme, porque pobreza não significa vileza, pobreza é destino mas não desatino. Assim devia pensar a Caela, mulher do povo de S. Vicente.

A Caela é uma personagem real nas "stórias" do Zizim e não é por acaso que é referenciada. Tendo-a certamente conhecido naquele roteiro do seu duro ofício, ela é para o cronista uma das figuras que melhor correspondem ao arquétipo da nossa mulher do povo.

A mulher corajosa e combativa, que não vira a cara à luta naquela fronteira da vida onde se terçam armas para a própria sobrevivência.

Trago ainda na retina o cortejo dessas anónimas carregadeiras de cais que serpenteavam as ruas de Mindelo com os sacos de milho à cabeça a caminho dos armazéns. Ao recordá-las sob aquele sol inclemente com a sua carga à cabeça, rostos perlados de suor, lábios cerrados e olhar centrado na distância da caminhada, pergunto se o heroísmo não convive paredes-meias com a nossa rotina sem darmos conta disso. Ganhar a vida com honestidade tem um preço exorbitante para alguns companheiros desta nossa peregrinação pelo mundo.

Já lá vai o tempo em que o transporte de mercadorias da antiga Alfândega para os armazéns se fazia no cimo da cabeça enrodilhada das mulheres. A vulgarização do transporte automóvel alterou esse cenário das nossas ruas mas ao mesmo tempo aboliu essa mão-de-obra barata, escandalosamente barata, esse trabalho insano mas que era ganha-pão assegurado para muitos lares da pobreza.

Era esse o reino da Caela, onde ela se impunha como uma força da natureza, onde se ouvia a voz tonitruante e ridente do seu desafio ou do seu encorajamento, ou a palavra de solidariedade para as companheiras mais débeis da mesma labuta.

Com os contos que têm sido divulgados, temos compartilhado com o Zizim o seu olhar sobre as singularidades do nosso meio de outrora, mas sobretudo essa sua vocação especial e sempre actualizada para honrar a gente humilde e sofrida e colocá-la num alto patamar de afecto. A verdade é que o coração é a melhor bitola para avaliarmos aqueles que da vida colheram mais infortúnio que ventura. E nisto o Zizim é exemplar no seu julgamento.

É evidente que as carregadeiras de cais não foram um caso exclusivo de S. Vicente, assim como o exemplo sublime das "mães de fidje" cabo-verdianas pertence a todas a ilhas e é intemporal. Infelizmente parece que o planeamento familiar ainda não logrou produzir na nossa sociedade todos os efeitos que seriam desejáveis.

Mas a figura da Caela virá sempre à nossa memória sempre que se evocar a brava e indómita mulher do povo das ilhas.


Tomar, 7 de Outubro de 2005

Adriano Miranda Lima

V o l t a r