AS PEDRAS TAMBÉM FALAM

Antes que elas, as pedras, ficassem desnudadas e expostas na sua triste orfandade, desconjuntada a entidade que era sua vida e alma – a Casa Adriana (a) – algumas vozes e vontades descomprometidas se fizeram ouvir, no intuito de travar a lâmina assassina do catterpiler oficial.

Vozes e vontades que não terão sido suficientes para arejar o bom senso de quem manda, por se terem refugiado no silêncio aqueles de quem se esperava uma atitude, pouca que fosse, mas que foram anulados, talvez, por alguma rolha, ou, então, se deixaram entorpecer no epifenómeno de uma intrigante sonolência. Agora, segundo ouço, restam as pedras da Casa, ou apenas vestígios da sua presença, caso elas tenham sido despejadas para o vazadouro da inconsciência pública, conforme, segundo dizem, aconteceu ao magnífico Obelisco da nossa antiga Praça Estrela.

Para grande parte dos cidadãos mindelenses, infelizmente, parece não ser ainda suficientemente óbvio o valor de monumentos como o Fortim de El-Rei, a Casa Adriana ou o Éden Park, para não referir alguns outros testemunhos significativos do passado que ainda se mantêm de pé mas em cujo futuro eu não apostava um centavo quando se assiste à insanidade de liquidar ao desbarato o pouco que se herdou do antigamente. Não se pode culpabilizar o povo anónimo pela sua alienação ou desinteresse se o Poder oficial se abdica da função instrutiva e educadora que lhe incumbe. Claro que não se exige ao Poder virtudes nem vocações ascéticas, pois cada um dá o que tem e a mais não é obrigado quando falta o estofo para o entendimento do que transcende o trivial do dia-a-dia. Mas exige-se, sim, ao Poder, central ou autárquico, o respeito pelo património comum de que deve ser guardiã enquanto detentor das responsabilidades e obrigações que o povo temporariamente lhe confere.

Na nossa surda e silenciosa indignação, desejaríamos ver sentados num qualquer banco de réus os responsáveis pelo abandono e posterior demolição da Casa Adriana. Mas, ao tentar identificá-los, o que vemos são presenças abstractas e difusas no sortido entremeado da burocracia do Estado, onde a alma se perde ou se contamina em pecados inconfessáveis, permitindo-se omissões ou exclusões perniciosas e atentatórias do interesse público. Mas chegará o dia em que terão de ser criminalmente responsabilizados os autores dos desmandos da coisa pública, como exige a democracia na sua mais nobre acepção. Contudo, e entretanto, não podemos consentir que entre a indecisão, a desatenção e a renúncia, cresça a espessura da insensibilidade do cidadão comum, porque isso é o mesmo que dar rédea solta a todos os desvarios do Poder, caucionando a sua sobranceria e a sua inoperância. O povo tem de sair da sua letargia e perceber de uma vez por todas que a cidadania não se esgota com o depositar do voto nas urnas. Tem de estar atento e reagir a pulsões que irrompam do seio da comunidade, organizando-se em movimentos de cidadania e instigando os intelectuais adormecidos a dar a cara e a vir à liça em defesa dos valores e interesses colectivos.

Desalentado, eu já tinha declarado que não mais voltaria a abordar o tema da Casa Adriana. Mas quebro a promessa ao receber notícia proveniente de fonte segura sobre uma conferência de imprensa a promover pelo “Movimento para a Salvaguarda do Património Histórico de S. Vicente”. O objectivo é sensibilizar a opinião pública local com vista a reabrir-se, em sede política própria, a discussão do problema da Casa Adriana, em ordem a exigir do Governo a reconstrução do património histórico que alarvemente mandou destruir.

Dir-se-á então que as pedras da Casa Adriana estão mortas mas só na aparência do seu frio abandono. Dir-se-á que elas ainda têm voz, testemunhas remanescentes do Alto Espírito que viveu naquela Casa e foi a voz impetuosa e sublime de Cabo Verde numa época de mordaça sobre as mentes.

Bem-haja quem promoveu essa iniciativa!


(a) Designação que o “Movimento para a Salvaguarda do Património Histórico de S. Vicente” passou a dar à casa onde viveu o Dr. Adriano Duarte Silva.


Lisboa, 3 de Novembro de 2010


Adriano Miranda Lima

V O L T A R