AS "STORIAS MINDLENSES" DE ZIZIM FIGUEIRA


Impor um crioulo padrão à literatura cabo-verdiana é um procedimento insensato e contrário à evolução natural de uma língua, e, convenhamos, condenado provavelmente ao insucesso. Um padrão será obviamente necessário à afirmação do crioulo como língua literária a impor-se em todo o Arquipélago.

Mas não pode é ser imposto, terá de se impor por si próprio, lenta e gradualmente, com avanços e porventura recuos e ajustamentos, à custa da iniciativa dos criadores literários.

Há quem actualmente pense e defenda que a ascensão do crioulo a língua literária e a escolha do idioma padrão se devam impor por via legislativa. Muitas dúvidas tem suscitado esta questão e não acredito numa solução pacífica nem mesmo num futuro mais ou menos distante.

O busílis do problema, porventura o mais sério, é exactamente o idioma padrão a eleger e a ser aceite pela população em geral e pelos criadores literários em particular, sabendo-se como se sabe que não é despicienda a diferença de expressão dialectal entre os dois grupos de ilhas.

E no meio desta polémica, que pode até estar condenada a uma extinção natural, eis que, com grande surpresa, recebi, pela primeira vez, há já uns largos meses, um conto da autoria de José Figueira (Zizim) e escrito em crioulo de S.Vicente, conto a que se seguiram sucessivamente outros na mesma expressão dialectal e focando sempre a realidade social da ilha de S. Vicente.

Não vejo o Zizim Figueira desde os tempos da minha adolescência, afastados que ambos nos encontramos do torrão natal já lá vão mais de 40 anos. Eu pelo menos é quanto estou dele afastado, ainda que longe da vista mas não do coração.

Escusado é dizer que a leitura desses contos, a que ele chama "storias mindlenses", transportam-me à atmosfera da minha ilha e avivam-me as memórias e as saudades, como certamente acontecerá a qualquer cabo-verdiano que esteja também longe.

As "storias" do Zizim conseguem recriar com autenticidade retratos singulares do meio mindelense, dando vida ao homem típico e enredando-o, harmoniosa ou conflituosamente, na teia do quotidiano em que ele busca o sustento para si e para os seus, espairece o espírito em "paródias" de grupo ao som das cordas dum violão e em redor duma "bafa" de moreia e grogue, ou simplesmente sobrevive altivamente no labirinto da sua existência.

Ou seja, o Zizim pinta-nos com mestria o quadro social em que o nosso conterrâneo vive, sonha, ama, diverte-se e dá largas à sua natureza mais sublime, ora ironizando e driblando a sorte madrasta, ora ousando rasgar com inconformismo o estreito horizonte em que se desenrolam os seus dias.

Confesso que fui surpreendido pela fidelidade e pela verosimilhança que o autor coloca nas suas narrativas, prova de que nunca se diluíram no seu espírito as imagens do real que teve oportunidade de observar na sua infância e na sua juventude.

Mais do que simplesmente observar, soube guardar, com uma atitude de compromisso artístico, as imagens colhidas, para no futuro as trabalhar, recriar literariamente e temperar com saber, imaginação e criatividade.

Foi assim que vieram a público as "storias mindlenses", um produto que o nosso Zizim embrulha com afecto e carinho e oferece aos seus conterrâneos.

Arquivados em pasta própria todos os contos do Zizim que eu já recebi, releio-os com frequência, porque recordar é viver, encantado com a "gostusura" deste contributo que o amigo e conterrâneo nos lega para recriarmos o imaginário da nossa ilha natal, deleitando-nos mas também informando-nos sobre um determinado quadro sociológico e histórico.

Daí que eu já tenha avançado, em conversa com amigos, que estes contos são também uma contribuição para a sociologia e para a história, neste caso alusivas a S. Vicente.

Vale dizer que se estes contos não tivessem o crioulo como meio expressional, dificilmente seria percepcionada e sentida a mensagem, com todo seu realismo social, singularidade e vibração.

Por outro lado, importante ainda é analisarmos o seu papel em relação à dignificação e valorização do crioulo como idioma nacional, assim trazendo à colação a questão aflorada logo no início, ou seja, a pretensa oficialização do nosso dialecto.

E a propósito, relembro estas palavras do nosso mestre Baltasar Lopes da Silva: "…Parece, assim, que em Cabo Verde o emprego ou criação de um crioulo padrão há-de surgir das virtualidades do próprio fenómeno literário nestas ilhas.

Mas onde o génio literário capaz de impor, pelo seu prestígio, esse padrão?" Estas palavras são coadjuvadas pelo pensamento já exteriorizado por homens de letras e profundos conhecedores da realidade cabo-verdiana como o Dr. Henrique Teixeira de Sousa.

Pois é, impor um crioulo padrão à literatura cabo-verdiana é um procedimento insensato e contrário à evolução natural de uma língua, e, convenhamos, condenado provavelmente ao insucesso.

Um padrão será obviamente necessário à afirmação do crioulo como língua literária a impor-se em todo o Arquipélago. Mas não pode é ser imposto, terá de se impor por si próprio, lenta e gradualmente, com avanços e porventura recuos e ajustamentos, à custa da iniciativa dos criadores literários.

É por esta razão acrescida que aplaudo o Zizim Figueira porque, além de nos deliciar com as suas "storias", está a contribuir, de forma natural e despretensiosa, não só para a dignificação do idioma cabo-verdiano mas também para candidatura de uma das suas versões ao estatuto de crioulo padrão.

Bem-haja por tudo Zizim. Deus te dê muita saúde e longa vida para continuarmos a fruir as tuas criações literárias.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R