HENRIQUE GALVÃO E CABO VERDE


Interessará ao leitor cabo-verdiano saber, ou relembrar, que o português Henrique Galvão relatou de forma eloquente a sua passagem por Cabo Verde no seu livro intitulado "Outras Terras, outras Gentes", obra de carácter geográfico, antropológico e etnográfico que engloba todas as colónias portuguesas.

E isto só vem a propósito porque em 22 de Janeiro se completaram 45 anos desde que Henrique Galvão comandou o início da operação a que deu o nome de "Dulcineia", acontecimento que viria a chamar a atenção da comunidade internacional para a situação política em Portugal, sob o regime ditatorial de Salazar.

Era eu então um "teen-ager" e estava quase a terminar o liceu, mas recordo-me bem da surpresa com que nós, jovens estudantes, fomos tolhidos pela notícia, comentando-a nos bancos do jardim do antigo liceu Gil Eanes. Relembremos esse episódio.

Em 22 de Janeiro de 1961,o capitão Henrique Galvão, então com 65 anos, juntamente com 23 exilados políticos portugueses e espanhóis, apoderou-se do paquete Santa Maria, que efectuava um cruzeiro no Atlântico Sul e mar das Antilhas, no qual seguiam 607 turistas e 360 tripulantes.

Os assaltantes embarcaram no paquete a 21 de Janeiro em La Guaíra, na Venezuela, munidos de passaportes falsos e diverso armamento. A dada altura, tomaram com relativa facilidade o referido paquete e alteraram a sua rota, rumando para a ilha de Santa Lúcia, então possessão britânica nas Pequenas Antilhas, onde viriam a aportar.

Atordoado com o golpe moral, o Governo Português solicitou apoio internacional e desde logo diversos navios e aviões norte-americanos e ingleses procederam à busca do Santa Maria, que viria a ser localizado a 25 de Janeiro por um avião dos EUA.

Seguiram-se negociações com os sequestradores, tendo sido acordado o desembarque dos passageiros no Recife (Brasil) e a garantia de asilo político aos revoltosos, assim como a restituição do paquete à companhia proprietária.

O Presidente da República Brasileira concedeu asilo político a Henrique Galvão, que ficou com residência fixa em Belo Horizonte, capital estadual de Minas Gerais. Resta sublinhar que o assalto ao Santa Maria entrou para a história como a primeira acção do género (sequestre de meios de transporte) para fins políticos.

O assalto ao Santa Maria teve, pois, o efeito de uma autêntica bomba deflagrada sobre o Regime de Salazar, produzindo um impacto mediático tal que fez convergir a atenção da comunidade internacional para a situação política em Portugal, precisamente o objectivo visado pelos assaltantes.

O certo é que o povo anónimo só ouviu falar no nome de Henrique Galvão depois de perpetrada essa façanha. E curioso é que, sendo Galvão citado pela sua patente, o público menos informado julgava-o capitão da marinha por ter comandado o assalto a um navio, embora o chefe operacional fosse um comandante da marinha espanhola, opositor à política do general Franco.

Vamos então adiantar um breve apontamento biográfico sobre esta notável figura da oposição ao Regime de Salazar.

Henrique Carlos Malta Galvão, de seu nome completo, na verdade era capitão do exército português (arma de infantaria). Nasceu no Barreiro em 4 de Fevereiro de 1895, não tendo sido fáceis os anos da sua infância por ter perdido o pai ainda em tenra idade e por possuir um carácter rebelde, como o próprio confessava.

Frequentou o liceu em Lisboa e depois a Escola Politécnica. Mas, indeciso sobre o rumo a tomar, acabou por se decidir pela carreira militar, matriculando-se na Escola do Exército em vésperas do início da Grande Guerra. Frequentou ainda, em França, a Escola Superior de Educação Física de Joinville-le Point.

O início da sua actividade política data de 1917, quando colaborou com Sidónio Pais, de quem era amigo, tendo sido nomeado administrador do concelho de Montemor-o-Novo. Insatisfeito mais tarde com a situação política nacional, aderiu e participou entusiasticamente na revolução do 28 de Maio de 1926, que haveria de levar ao poder António de Oliveira Salazar.

Foi um apoiante incondicional da Ditadura Militar e mais tarde do Estado Novo, tendo ocupado cargos de grande confiança política tanto no continente como nas colónias. Em 1929, enveredou por uma promissora carreira colonial, tanto em altas funções administrativas como na organização de comemorações e exposições sobre temas africanos.

De salientar que foi responsável pela secção colonial da Exposição do Mundo Português em 1940, onde figurou o compositor B.Leza no núcleo representativo de Cabo Verde. Foi ainda director da Emissora Nacional de Rádio Difusão e mais tarde Inspector Superior de Administração Colonial.

Estudou a problemática africana e escreveu diversos trabalhos sobre a colonização desses territórios, ao mesmo tempo que revelava uma grande sensibilidade humana e especial vocação para os problemas do continente africano.

A sua eleição para a Assembleia Nacional em 1934, nas primeiras eleições legislativas do Estado Novo, consagrava a sua dedicação política e augurava-lhe um futuro promissor. Mas, frontal nas suas atitudes, entrou em rota de colisão com o ministro das Colónias, acusando-o de corrupção na gestão colonial, facto que o levou a abandonar o lugar na Assembleia para se dedicar em exclusivo às questões africanas.

Mas voltando a tomar assento na Assembleia em 1945, denunciou o regime de trabalhos forçados nas colónias e o escandaloso proveito pessoal que alguns altos responsáveis tiravam da situação, além de numerosos abusos contra a pessoa humana que então se cometiam.

O poder compreendeu nessa altura que tinha cometido um erro ao integrá-lo nas suas listas.

Registe-se que Henrique Galvão, depois de ter sido banido do serviço público em 1947, passou de imediato à reserva no seu posto de capitão do exército, com data de 4 de Fevereiro de 1947, sendo-lhe atribuída, em função da sua patente e tempo de serviço militar prestado, a pensão anual de 19.981$00. Este último dado só por mera curiosidade, conforme consta da Lista de Oficiais daquela época.

As divergências com Salazar subiram de tom e Galvão passou a conspirar, aliando-se a sectores militares e civis da oposição e sendo um dos promotores da candidatura, pela oposição, do almirante Quintão Meireles.

Desarticulado um movimento revolucionário que estava em preparação, Galvão e outros implicados foram julgados e condenados, cabendo-lhe a ele 3 anos de prisão. Foi demitido do exército em 1952.

Mesmo na prisão, o seu espírito combativo não desarmou e escreveu panfletos que eram distribuídos e reproduzidos no exterior. Voltou a ser julgado e foi condenado ao cúmulo jurídico de 16 anos de prisão maior, que cumpriu em Caxias e Peniche.

Mas não inteiramente, porque, em 1959, estando hospitalizado no hospital de Santa Maria, evadiu-se espectacularmente e refugiou-se na embaixada da Argentina, rumando mais tarde para a Venezuela, onde se exilou, estreitando o seu relacionamento com o outro opositor ao regime, general Humberto Delgado, de quem era amigo desde a revolução de 28 de Maio de 1926.

E é nesta sua nova situação que acontece o episódio do Santa Maria, que o fez saltar para os escaparates internacionais. No seu exílio, mais tarde continuado no Brasil, Galvão não arrefeceu o seu ânimo revolucionário, continuando a lutar pelas suas ideias e convicções em prol da restituição das liberdades políticas ao povo português.

Além de militar e político, Henrique Galvão sentia grande apelo para as explorações geográficas nas colónias, das quais Angola era a menina dos seus olhos. Realizou o primeiro reconhecimento do rio Cuando, numa extensão de mil quilómetros em terras desconhecidas.

Fez uma viagem de estudos por todas as colónias, daí colhendo os elementos que lhe permitiram escrever essa bela obra, em 2 volumes, intitulada "Outras Terras, outras Gentes".

Com efeito, era também escritor, senhor de uma escrita escorreita, bela, elegante e com notável capacidade de narrativa. Escreveu várias obras sobre temas africanos, 2 romances, peças de teatro, ensaios e crónicas.

Este homem morreu no seu exílio em 20 de Junho de 1970, sempre fiel às convicções e princípios por que passou a pugnar a partir do momento em que se deu conta da iniquidade do Regime Salazarista.

Os seus restos mortais só regressaram a Portugal em 1991, ficando depositados no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Não me consta que o Portugal Democrático lhe tenha feito justiça a título póstumo, com uma honrosa condecoração e promoção ao posto mais alto da sua carreira normal (coronel).

É a obra "Outras Terras, outras Gentes", em que ele descreve com aguda visão o panorama geográfico e humano das ilhas de Cabo Verde, que justificou o título dado a esta crónica. Mas falar disso ficará para a próxima semana.
Bibliografia consultada:


- História de Portugal, Estado Novo II, João Medina
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
- Lista de Antiguidade dos Oficiais do Exército, de 1950


Adriano Miranda Lima

V O L T A R