HENRIQUE GALVÃO E CABO VERDE (CONTINUAÇÃO)


Na minha crónica anterior, com o mesmo título, ficara a promessa de que o tema Henrique Galvão seria continuado para dar à estampa alguns excertos da sua narrativa sobre a viagem que fez a Cabo Verde.

Com efeito, na sua obra "OUTRAS TERRAS, OUTRAS GENTES", Galvão fala da nossa terra como quem de facto a olhou com olhos de ver e a sentiu com o coração que ama.

É claro que Galvão não relata nada de inédito, aliás seria estultícia pretendê-lo, mas o facto é que as suas palavras parecem mesmo de quem desceu a terreiro para bem poder observar, integrar-se, conviver, auscultar, perguntar.

Vê-se bem que andou solto pelos nossos povoados, vê-se bem que calcorreou no dorso de uma montada as altas montanhas e os vales de Santo Antão, que escalou com destemor o vulcão da ilha Fogo e se maravilhou com o espectáculo contemplado do seu cimo mais elevado.

Vamos transcrever algumas breves passagens da sua narrativa. Ao fazê-lo, na impossibilidade de irmos a todas as ilhas, quedar-nos-emos pela de S. Vicente, até porque o próprio autor a considera o mostruário de todas as outras do Arquipélago, por isso tendo-lhe dedicado bastante mais espaço no seu livro. Tendo sido a primeira ilha onde desembarcou, Galvão regista as seguintes impressões:
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"Realmente o aspecto da ilha (S. Vicente), seja qual for o lado por que a encaremos, não varia de estilo: sempre a mesma paisagem dura de carcassa calcinada. Duas eminências tentam resistir às queimaduras do sol: o chamado Monte Verde, apenas esverdeado como as cascas limosas dos navios naufragados, e o Madeiral, de onde escorrem as únicas pobres águas que ressumam da ilha.

Tudo o mais é terroso e encardido, descarnado; um sistema bárbaro de grandes e pequenas pedras, entre as quais, às vezes, se estorcem troncos enfezados de acácia ou rusticidades bravias da bombardeira.

Tal dureza constitui a originalidade e o estranho encanto de S. Vicente. Demais, no contraste entre a terra sequiosa e as águas do Atlântico, entre os alcantis bravios e a grande planura marítima, compõem-se quadros de impressionante beleza.

A baía de Salamanza, outro porto natural, que seria grande se não existisse o Porto Grande, a chamada Baía das Gatas, onde os mindelenses vão tomar banho de mar, a Ponta da Calheta Grande, a baía de S. Pedro, e todo o maciço da ponta romba de Oeste; sob a luz já africana do entardecer ou nas glórias da alvorada; são trechos de paisagens inesquecíveis".
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"Infelizmente, este porto (Porto Grande), que é tão seguro, não é confortável: os homens não acompanham ainda, embora nos estreitos limites da sua força e génio, a obra de Deus. Nem cais acostável, nem uma boa ponte carvoeira.

Os navios entram e saem aos milhares em cada ano, encontrando-se nesta encruzilhada magnífica dos caminhos do Oceano, que é também a estação mais bem situada da grande rede de comunicações atlânticas.

Mas os homens recebem-nos com pouco mais do que a graça de Deus, pois de si apenas acrescentaram estes barcos ágeis, um outro "gasolina" refilão, meia dúzia de veleiros tímidos, uma ponte cais medrosa de perder o pé, e as instalações carvoeiras. Tudo o mais está projectado e defendido em papéis; e não passa de programa.

Esta pobreza entristece a cidade, das tristezas que se notam nas pobrezas envergonhadas. Entre o mar e a terra falta o laço do navio atracado. Os grandes navios e cargueiros não encostam à ilha. Balouçam de longe e mais parece que passam do que param. O cais pulula de gente.

Os garotos são multidão. Por entre o sussurro vêm até nós as primeiras palavras musicais do crioulo; um dialecto doce, feito para cantar, uma espécie de forma poética do português.

Estamos em África, mas esta gente não se parece com nenhum outro povo africano. Não vem de parte nenhuma; nem da própria ilha. É criação portuguesa.

Esta gente de Cabo Verde é uma das grandes curiosidades do Arquipélago.

Desta amálgama de raças, em que participaram gentes de quatro partes do mundo, pois até asiáticos se apontam entre os contribuintes etnogénicos do Arquipélago, resultou uma população variada de corpo e alma, de caracteres enfeudados ao "processus" de evolução, com tantas fisionomias como ilhas; mas que tem de comum a clareza da inteligência, a brandura paciente e resignada dos costumes, o espírito sofredor, e uma espécie de fatalismo, amassado pelo hábito de suportar secas e enxurradas, fomes e vendavais, sedes e abalos sísmicos".
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"E estes, desde os que vivem desprotegidos em recôncavos dos vales, a lutar com incertezas trágicas da meteorologia, até os que habitam na serra; desde os que labutam no mar até os que se governam nas cidades; cantando as suas mornas dolentes ou dançando freneticamente os seus batuques, estiraçados ao sol ou trabalhando, é que são real e verdadeiramente a criação portuguesa que é o povo de Cabo Verde.

A sua variedade constitui magnífico panorama de tipos. Para a acompanhar desdobra-se a língua, acusando origens e influências; multiplicam-se as cores denunciando a predominância dos sangues; diferem modos de viver mostrando a fusão dos costumes.

Tão cabo-verdiano é este homem negro, quase retinto, remando no escaler que me conduz a terra, como certos tipos de brancura caucasiana que abundam na ilha Brava.

E entre os negros retintos, de espécie em tudo semelhante a pretos da Guiné, e os seus patrícios de cabelo loiro e olhos azuis, passam todos os cambiantes possíveis na combinação das quatro raças.

Não creio que haja em parte nenhuma do Mundo, em tão escassa superfície de terra habitável, variedade tão rica, opulenta e eloquente, em volta de tronco comum tão agradável e simpático; nem tão glorioso documento da capacidade colonizadora do país".
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"As ilhas têm expressões demográficas diferentes ; e uma, S. Vicente, é animado mostruário de todas. De comum têm a ansiedade meteorológica, o amor à festa, o temperamento, ao mesmo tempo sensual e contemplativo, as alternativas de energia criadora e de indolência mortal; e a ânsia do Além.

Emigrar é o sonho de muitos, e, para o conseguirem, alguns correm aventuras marítimas que igualam proezas do antanho. Em batéis frágeis e desmantelados, quase sem aparelhos de navegação, pobres de água e de mantimentos, fazem-se ao mar, com rumo às Américas.

Estas viagens são, frequentemente, páginas por escrever, capítulos que faltam à História Trágico-Marítima. Não custa acreditar que sejam os melhores marinheiros do mundo. Como emigrantes mantêm-se cabo-verdianos.

Trabalham exemplarmente, sustentam a família que deixaram na terra ─ e, um dia, amealhados alguns dólares, regressam com grafonolas e camas de metal, casacos de peles e malas modernas, bois de raça e materiais de construção. Compram uma terra, fazem uma casa ; e vão morrer à ilha natal".

Seria interessante incluir aqui toda a expressão do estarrecimento que tolheu Henrique Galvão quando andou pelas nossas ilhas mais montanhosas, S. Antão e Fogo.

De S. Antão dirá que quem viaja pela ilha "palmilha os mais duros e arrevesados dos caminhos, mas gozará, em compensação, dos melhores quadros de beleza natural, embora selvagem e violenta, que podem encontrar-se no mundo".

Da ilha do Fogo dirá que "…. Só por ela Cabo Verde marca lugar de alto relevo entre os grandes centros mundiais de maravilhas".
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E a concluir diz Galvão:

"… Mas não é fácil realmente viajar nestas ilhas, que tanto valem uma viagem circular e demorada. Nos seus povoados pobres, às vezes tão miseráveis que dão, ao longe, a impressão de abandonados depois de um incêndio, não há beleza nem conforto.

Salta-se de ilha para ilha em faluchos que os navegadores seiscentistas recusariam e desce-se em cais onde se correm verdadeiras aventuras.

Alguns são famosos como o porto dos Mosteiros, no Fogo, a Ponta da Pistola, em S. Antão, a Preguiça, em S. Nicolau, etc. Turismo desportivo este de Cabo Verde ; altamente desportivo!

Mas voltemos a S. Vicente, onde nos perdemos a falar de Cabo Verde. Peso as minhas lembranças, as fadigas e os deslumbramentos, os desconfortos e os horizontes, e concluo: Gosto de Cabo Verde, como se gosta dos cactus e dos bul-dogs: pela beleza oculta na originalidade de certas coisas.

E gosto desta gente ; aquela gente humilde, que sabe morrer e sabe dançar, heróica no mar e indolente em terra, sonhadora e mártir ; como se gosta daqueles que não sendo grandes são Alguém".

Meu comentário final: Nota-se claramente que Henrique Galvão se deslumbrou com a beleza selvagem das ilhas de Cabo Verde e ao mesmo tempo se surpreendeu com a originalidade étnica e cultural do seu povo e a sua indómita capacidade de sofrimento e de resistência. Romântico como era da sua natureza, é quase seguro que se apaixonou pelo que viu.

Por outro lado, inconformado com a injustiça e a iniquidade, contra as quais viria a brandir armas fervorosamente, há nas entrelinhas do seu relato um recado subliminar sobre o abandono a que as nossas ilhas foram votadas ao longo de séculos pela metrópole do império. É preciso não esquecer que a censura era implacável quando ele escreveu este livro.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R