O BAR DO SASSÁ E A NOITE DE S. SILVESTRE


Em 2003, voltei a viver a noite de S. Silvestre na minha inigualável cidade do Mindelo, após 40 anos de abstinência contínua. As minhas férias cabo-verdianas de 2 meses tinham sido programadas para terminar a 20 de Novembro, sem nunca me ter passado pela cabeça dilatá-las de modo a aproveitar a quadra natalícia e o fim do ano.

Mas, colocado logo entre a espada e a parede por familiares incrédulos com a minha aparente amnésia por evento tão marcante na nossa terra, acabei por ceder. Aliás, de boa vontade, redimindo-me, pois se havia algo que o meu espírito verdadeiramente ansiava reviver era o Natal entre a minha família cabo-verdiana e o rebuliço da noite de S. Silvestre "naquel tchom d'Soncent".

E se assim pensei, melhor o fiz. Conservava na memória os eflúvios da minha última noite de S. Silvestre, passada no Mindelo em data já tão distante, aquela animação popular de que não voltei a ver réplica semelhante noutros lugares por onde passei, tão genuinamente ela se entranhava na alma popular.

Ansiava ver e ouvir os meninos do "recordaio", como eu fui, sentir os sentidos inundados pela estridência das sirenes na baía fazendo dueto com o bater sincopado do pilão do cuscus pela noite dentro, presenciar aquela mole humana em corrupio à volta da igreja, ver as "lisas" a afogar no mar o ano velho.

Ah, para não falar naqueles grupinhos musicais a entoar as boas festas pelas ruas, inebriando-nos com esse magnífico hino que o Luís Morais aprimorou com o seu virtuosismo artístico.

Enfim, um sem número de imagens, sons e sensações que em catadupa disputam a vertigem de uma noite partilhada com igual intensidade por rico ou pobre, por adulto ou criança. Não há estrato social ou etário que fique indiferente.

Contudo, sem querer dizer que a minha expectativa saiu de todo gorada, sou obrigado a confessar que não vi repetida aquela alegria esfusiante de outros tempos, a derramar-se sobre a via pública e os terreiros dos subúrbios.

A explicação é, para mim, só uma. Novos hábitos, novos estilos de vida, chegam a toda a parte, provenientes de toda a parte, igualando padrões de comportamento, uniformizando hábitos sociais.

A televisão tem nisso uma força desmedida, para não falar no poder das mais recentes tecnologias de comunicação que num instante sintonizam pensamentos e afinam corações nos mais dispersos quadrantes geográficos. Os povos aos poucos vão assim perdendo hábitos e sentimentos peculiares que os distinguem.

Pois é, os meninos do "recordaio" não os vi tantos como no meu tempo de criança, nem mesmo tão afoitos na irreverente persistência com que batem às portas. Munido previamente de muitas moedas para o efeito, poucas foram as oportunidades de as distribuir.

As ruas da cidade e os arredores pouco diferiam dos dias comuns, e não tardei a confirmar que a televisão, tal como nos dias normais, era seguramente a culpada de tudo. Focaliza a festa no interior dos lares, transfere para a intimidade doméstica aquilo que antes só tinha a rua ou o largo como palco dilecto, onde cabiam todas as emoções, onde explodiam todas as efusões.

Posso não ter auscultado bem os rumores dos subúrbios, mas, de facto, não me apercebi do batuque dos pilões como antigamente. Para cúmulo do azar, as sirenes provenientes da baía foram abafadas pelo mega concerto que à meia-noite teve início nesse ano, instalada nas estruturas ainda esqueléticas de um prédio em construção.

Nada contra o mega concerto, não senhor, mas... privou-me da audição das minhas saudosas sirenes. Resta dizer que o povo só saiu para a rua ao chamamento da meia-noite e, no caso, para acorrer ao mega concerto.

A verdade é que, logo a seguir, os sinais de vida foram aos poucos extinguindo-se, transferindo-se para o interior das festas particulares em hotéis, clubes, discotecas ou residências privadas.

Depois da uma hora da madrugada, as ruas eram já o espelho de uma solidão insuportável para quem nelas queria plasmar emoções por longos anos acumuladas. E, então, dei comigo a cismar: tal como às sextas e sábados, o movimento aflui para a Praça Nova só à meia-noite e logo de seguida desvia-se para as discotecas.

Em suma, a alegria popular pareceu-me nos tempos actuais transformada num rio que corre em leito subterrâneo. Já não transborda as margens e os lugares comuns, inundando todos por igual, preferindo acomodar-se na privacidade de iniciativas particulares. Já não reproduz o cartaz espontâneo das mais emotivas explosões populares.

Mas, felizmente, a vida reserva-nos às vezes agradáveis surpresas. Estava eu em casa, por volta das 19 horas e recebi um recado do meu cunhado para ir ter ao Bar do Sassá, bar que dispensa naturalmente qualquer apresentação.

Perante a urgência do recado, apressei-me a ir ter àquele Bar. Estava ainda a uns duzentos metros de distância, quando me apercebi de um movimento inusitado no exterior do Bar e de sons de música que invadiam todo o ambiente circundante.

Ali chegado, abri com dificuldade caminho entre as dezenas de pessoas presentes e deparei então com o meu cunhado que me explicou de imediato tudo o que estava a acontecer.

O Bar do Sassá, na noite de S. Silvestre, tem tido por tradição oferecer uma festinha aos seus clientes habituais, extensiva também aos transeuntes. E, pelo que eu vi, seria considerável a presença dos não clientes.

No interior do bar, mesas postas com iguarias várias, a acompanhar com cerveja ou refrigerante à discrição, bastando pedir. Cá fora, música interpretada pelo Chico Serra e outros instrumentistas e uma vocalista.

A nossa cantiga de boas festas era a rainha da noite, como não podia deixar de ser, magistralmente interpretada, em várias versões de letra, pela vocalista convidada. A mole humana, cá fora, não parava de crescer.

Pessoas de todas as idades, sexos e condição social. Ainda me lembro de uma mulher do povo, já com o olhar a denunciar os copos bebidos, que de repente aplica uma forte palmada nas costas de um jovem, só porque este estava a tapar-lhe a visão do piano onde o Chico Serra debitava a sua arte.

O jovem vira-se surpreendido, analisa a situação e faz de conta que nada lhe tinha acontecido. Para quê censurar o súbito desmando de uma mulherzinha rendida ao devaneio de uma noite de S. Silvestre?

E foi assim que o Bar do Sassá marcou a minha noite de S. Silvestre, o único evento que na verdade me ficou gravado na memória desse dia festivo. No próximo dia de S. Silvestre, quando tocar no relógio da minha sala o sinal acústico das 19 horas, por certo que vou recordar com saudades o Bar do Sassá e a sua muito simpática clientela.

Daqui os saúdo a todos e lhes desejo um bom ano de 2006. E até sempre.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R