O CINEMA ÉDEN PARK E A CRISE DE EXPLORAÇÂO DAS SALAS DE CINEMA


Que fazer para salvar o Eden Park? Creio que não será preciso redescobrir nada que não tenha sido ainda ensaiado noutras situações idênticas.

Vender o cinema a uma entidade estrangeira para fazer dele o quê? Um hotel, um empreendimento turístico, um centro comercial?

Ou mesmo uma igreja de um culto qualquer, como aconteceu ao antigo Parque Mira Mar? Isso seria uma afronta ao povo do Mindelo e uma ignomínia intolerável à autarquia e ao Governo.

O Éden Park, mais do que um cinema, é um símbolo de cultura, um ex-libris do Mindelo, conforme diz Luís Silva. Sendo assim, a Câmara de S. Vicente e o Governo de Cabo Verde devem unir esforços para adquirir o imóvel, conservá-lo e viabilizá-lo como empreendimento comercial.

Para este efeito, julgo que o complexo do Éden Park dispõe de condições estruturais que permitem, para além da serventia como cinema, teatro e outras realizações culturais, explorar actividades comerciais adventícias na área exterior envolvente.

Esta me parece dispor à volta, no seu recinto privativo, de espaço suficiente para agregar pequenas galerias para lojas, livrarias, exposição de artesanato, ateliers, postos de informação turística e cultural, etc


Recente artigo de Luís Silva veio alertar os cabo-verdianos, nomeadamente os mindelenses, para a provável venda do cinema Éden Park a uma entidade privada do estrangeiro.

Desconheço a origem real e os contornos precisos da notícia e ignoro mesmo se de todo se confirma a possibilidade posta a circular.

Em todo o caso, e infelizmente, não é notícia que surpreenda ninguém nos dias de hoje, conhecendo-se como se conhece a crise generalizada em que mergulhou, desde há décadas, a exploração das salas de cinema, com o surgimento da televisão, do vídeo, do DVD e das antenas parabólicas e outros sistemas de captação de emissões televisivas.

É um facto que o fenómeno do encerramento sucessivo de salas de cinema parece imparável e ocorre em quase todas as latitudes a um ritmo imposto pela crescente incapacidade de se encontrar alternativas fiáveis à quebra acentuada das receitas de bilheteira.

Estas constituem o único suporte real da sustentabilidade de uma sala de cinema. Bem se tenta agregar ao negócio a exploração simultânea da venda de guloseimas de entretenimento, como sejam as pipocas, a coca-cola em recipientes descartáveis e com palhinha, e outros mais produtos, a consumir dentro das salas e enquanto correm os filmes na tela. Mas, pelos vistos, nem este recurso parece suficientemente apelativo e compensador do défice da bilheteira.


Porém, o problema não reside apenas no predomínio dos meios digitais em voga, que permitem ver um bom filme no conforto do lar, relegando as salas de cinema para o limbo do esquecimento, fenómeno que vem alterando as regras que presidiam à distribuição dos filmes.

Com efeito, em muitos casos a distribuição dos filmes produzidos começa hoje em dia em primeiro lugar pelo comércio dos DVD e só depois passa pelas salas de cinema, ou, no mínimo, em simultâneo ou volvido pouco tempo depois das exibições públicas.

A solução para inverter esta tendência tem preocupado os produtores cinematográficos. Acreditou-se que poderia passar pela exploração de novas temáticas cinematográficas que tirassem partido da dimensão espacial das salas de cinema e estabelecessem novas formas de diálogo emocional e empatia entre o público cinéfilo e o filme.

É verdade que a espectacularidade de alguns filmes só se espraia bem, enchendo os nossos sentidos, nos grandes écrans das salas de cinema, mas infelizmente os temas em que se tem apostado não se têm imposto como reais mais valias artísticas e recreativas.

Recorre-se actualmente, a meu ver com grande exagero, aos filmes do género fantástico (Senhor dos Anéis, Homem Aranha, Harry Potter, etc), mas é género que tende a saturar porque os processos técnicos e as imagens utilizadas são muito repetitivas e semelhantes e com um conteúdo mensagístico pobre e com pouca ou nenhuma relação com as grandes questões da humanidade.

Filmes mais destinados ao público juvenil, para dar vazão ao imaginário, não será pela sua via que o mercado tradicional ressuscitará deste seu estertor de moribundo.

Conjugando-se a crise da produção com o incremento dos meios de reprodução alternativos às salas de cinema, eis que o problema é verdadeiramente bicudo e se manifesta de igual modo nos Estados Unidos da América como no Canadá, em Portugal como em França, nos Açores como em Cabo Verde.


Por alturas da quadra natalícia, entrei numa confortável sala de cinema do Centro Comercial Fórum Algarve para ver o recente filme "Uma Vida Inacabada", com os actores Robert Redford, Morgan Freeman e Jennifer Lopez. O filme tinha acabado de estrear e parecia-me atractivo, já pelo tema, já pela qualidade dos seus intérpretes, daí a escolha por mim feita.

Mas a verdade é que o número de espectadores na sala não ultrapassou cerca de quinze pessoas. E isto enquanto havia uma enchente de público pelos corredores, átrios e esplanadas do Centro Comercial, donde se conclui que, no caso, nem sequer surtiu o efeito de "isco" que o próprio centro comercial configura.


Vivo em Tomar continuamente desde 1974 e, como cidade média do interior, posicionemo-la a uma escala urbano-social idêntica à do Mindelo para analisarmos o comportamento evolutivo das salas de cinema nas duas cidades.

Em Tomar havia dois cinemas: o Cine-Teatro, recinto antigo e tradicional, de utilização bivalente: teatro e cinema; o Cine-Esplanada, recinto a céu aberto (como o antigo Parque Mira Mar do Mindelo), localizado junto a uma extensa área aprazível com árvores e jardins, nas margens do Rio Nabão; o Cine Templário, localizado dentro de um centro comercial construído nos princípios da década de 1980.

Todos estes cinemas funcionaram satisfatoriamente até ao advento das novas tecnologias.

Chegou uma altura, há cerca de 15 anos, em que os proprietários do Cine Teatro se colocaram na mesma encruzilhada em que hoje se depara a ilustre família Marques.

O cine Esplanada, propriedade do Município e que funcionava só no período estival, encerrou sem hesitação as suas portas, não sem deixar na população da cidade um forte sentimento de nostalgia.

O cinema era único no seu desenho arquitectónico e nas suas condições de fruição. Hoje, todo o espaço foi reconvertido em outras serventias públicas.


Contudo, em relação ao Cine Teatro, o mais antigo cinema de Tomar, desde logo se consciencializou que o caso era bem diferente, por ser um verdadeiro património cultural da cidade, em tudo idêntico em historial ao nosso Éden de S. Vicente, pelo que a Câmara Municipal adquiriu o imóvel, restaurou-o e criou condições para a sua continuidade, funcionando como sala de cinema, como teatro e como sala de espectáculos musicais, festivais e eventos de outra índole.

Assim se salvou o antigo Cine Teatro de Tomar. É claro que as antigas filas na bilheteira pertencem ao passado e são já uma saudade, mas o rácio custo-eficácia não é o que conta para a entidade oficial que explora o cinema.

O que conta é a salvaguarda de um importante património cultural da cidade, uma sala que se presta a outras formas de utilização, que não apenas o cinema e o teatro. Salvou-se o Cine Teatro de Tomar, hoje com o nome Cine Paraíso, assim como se salvaram em condições similares outras salas antigas de outras cidades do país. Ou seja, com intervenção das autoridades governamentais.

O outro cinema, o Cine Templário, encerrou as suas portas no mês de Dezembro do ano transacto e não me parece que volte a abri-las com a mesma finalidade, porque indiscutivelmente a cidade não comporta actualmente a exploração de dois cinemas em simultâneo.

O último filme que eu vi neste cinema não tinha mais de 10 espectadores e acabava de estrear em todo o país.


Todo este cenário que eu acabei de pintar não é ficção, é pura realidade, é o panorama indesmentível da situação a que chegou a exploração comercial do cinema no mundo ocidental.

Escrevi há poucos meses uma crónica neste jornal intitulada "Cinema Paraíso", tendo o cinema Éden Park como o centro da narrativa e de toda uma nostalgia pelo culto do cinema na minha infância.

Agora poderia julgar premonitória essa minha crónica, não fosse um lugar comum todo o ror de considerações que recheou essa crónica. Tal como digo na crónica, fui há dois anos a uma sessão de cinema no meu Éden, mais para matar as saudades que por interesse no filme exibido, mas foi ocasião suficiente para comprovar o enorme défice de espectadores, também uma fatalidade na nossa terra.

E era uma matinée de sábado, um dia semelhante àqueles de outros tempos em que era necessário esperar na fila para adquirir o bilhete, que às vezes nem se conseguia obter por esgotada a lotação.

Por toda essa constatação, não me surpreende absolutamente nada a notícia sobre a actual situação em que se encontra o nosso saudoso cinema e as perspectivas que necessariamente se podem colocar para uma saída possível.


Associo-me ao alerta do Luís Silva sobre a periclitante situação do Éden Park. Corroboro inteiramente as suas palavras de enaltecimento do importante papel do Éden Park na formação cultural e cívica da população de S. Vicente, igualando socialmente todos os estratos da população no mesmo patamar de acesso à fruição do cinema.

Por um escudo ou pouco mais, quando o bilhete embaratecia, se franqueava a porta do sonho. Por um escudo se maravilhava com imagens fabulosas do mundo distante, se regalava com espectáculos deslumbrantes do music-hall, dança e bailado, se conhecia a história das civilizações antigas, se tomava posição relativamente aos dramas existenciais do homem, com a denúncia das injustiças sociais e o triunfo sempre aguardado e aplaudido dos bons e dos justos.

Deste modo, não é exagero considerar o cinema Éden Park como um dos mais influentes e decisivos fautores da construção da mentalidade aberta da população mindelense, que, sem desprimor por outras ilhas, era sem dúvida a população do arquipélago mais dotada de uma visão cosmopolita e integradora da convivência com outros povos.

Verdade se diga também que, em alguns casos localizados, a população mindelense pecava ao mesmo tempo por certos tiques exibicionistas que se podem imputar a uma eventual influência deletéria do cinema sobre os espíritos menos preparados.

Mas os fenómenos da vida não são nem podem ser completamente lineares nas suas manifestações e nos seus efeitos, pelo que seria estultícia arguir eventuais responsabilidades "tout court" ao cinema nesse domínio.

E mesmo que fosse, a responsabilidade seria do cinema como fenómeno abstracto e não do nosso saudoso Éden Park.


Chegado a este ponto, que fazer para salvar o Eden Park? Creio que não será preciso redescobrir nada que não tenha sido ainda ensaiado noutras situações idênticas.


Vender o cinema a uma entidade estrangeira para fazer dele o quê? Um hotel, um empreendimento turístico, um centro comercial? Ou mesmo uma igreja de um culto qualquer, como aconteceu ao antigo Parque Mira Mar? Isso seria uma afronta ao povo do Mindelo e uma ignomínia intolerável à autarquia e ao Governo.


O Éden Park, mais do que um cinema, é um símbolo de cultura, um ex-libris do Mindelo, conforme diz Luís Silva. Sendo assim, a Câmara de S. Vicente e o Governo de Cabo Verde devem unir esforços para adquirir o imóvel, conservá-lo e viabilizá-lo como empreendimento comercial.

Para este efeito, julgo que o complexo do Éden Park dispõe de condições estruturais que permitem, para além da serventia como cinema, teatro e outras realizações culturais, explorar actividades comerciais adventícias na área exterior envolvente.

Esta me parece dispor à volta, no seu recinto privativo, de espaço suficiente para agregar pequenas galerias para lojas, livrarias, exposição de artesanato, ateliers, postos de informação turística e cultural, etc.

Seria uma forma de conseguir algumas receitas que viabilizassem a sustentabilidade de todo o complexo, para isso sendo necessário arranjar investidores locais que proporcionem parcerias válidas para a sobrevivência daquilo que eu considero o nosso mais emblemático monumento em S. Vicente.


Mesmo que no futuro possa não registar-se um retorno suficiente do investimento ou das despesas correntes de manutenção, importa ter presente que o Éden Park é o símbolo de uma era e um símbolo não tem preço.

A salvaguarda do seu futuro é um desafio aliciante que se coloca neste momento à sociedade civil, tendo na primeira linha os governantes e as forças vivas da cidade. É que o Éden Park pertence já à mitologia e mora no coração do Mindelo.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R