"Ilhéu de Contenda"

O ROMANCE E O FILME


"Last but not the least" neste meu arrazoado é a denúncia inequívoca que o romance faz ao racismo outrora existente e praticado na ilha Fogo, com as suas manifestações primárias e os seus reflexos sociais.

Não conheço mais nenhuma obra de ficção cabo-verdiana que denuncia sem mistificações e sem eufemismos esse hediondo fenómeno que se permitiu viver paredes-meias com o povo da morabeza.

Só por isso, honra redobrada ao romancista e à sua obra! E justiça ao cineasta por não ter escamoteado esta verdade bem estampada na obra literária!

Em minha opinião, o romance "Ilhéu de Contenda" figura entre o que de melhor e mais belo já foi produzido por autores cabo-verdianos. E é uma obra que honra a literatura portuguesa.

Raro deve ser o cabo-verdiano que, atento à literatura doméstica, não deva ter lido o romance "Ilhéu de Contenda", de Henrique Teixeira de Sousa.

Lido o romance há um ror de tempo, e tendo-o relido mais tarde duas vezes, tive agora a oportunidade de o ver recentemente transposto para a tela, através de uma cassete video. Sou obrigado a confessar que me passara completamente despercebida a existência deste filme do realizador português Leão Lopes, facto que deve ser imputado menos ao meu desinteresse que à escassa divulgação feita por ocasião do seu lançamento no mercado cinematográfico português.

Ao introduzir a cassete no leitor-gravador, sentia que a minha expectativa de ver na tela as cenas e os personagens do romance superaria qualquer juízo valorativo que eu pudesse a posteriori formular sobre o filme, certo de que me interessaria de que jeito fosse todo o filme que recriasse um dos romances de autor cabo-verdiano que mais gosto tive em ler.

É evidente que um filme é sempre uma versão cinematográfica da obra literária em que se baseia, com adaptações e/ou amputações ou próteses, que tanto podem resultar num atentado de lesa obra literária, como num enaltecimento gratuito a uma obra medíocre. De facto, o bom realizador pode, com um enredo extraído de obra rasca, valorizar conteúdos ligeiros através de bons efeitos estéticos (visuais e sonoros).

Depois de visionar a cassete, permito-me julgar que o cineasta procurou fazer um trabalho honesto, no esforço de agarrar os contextos essenciais da obra e integrar-se na realidade sociológica local. Contudo, não é excessivo dizer que há alguns desvios e deformações em relação à intenção do autor literário e ao conteúdo mensagístico da sua obra.

Para começar, logo no arranque da narrativa fílmica. No romance, tudo começa com as exéquias fúnebres da nha Caela dentro da Igreja, enquanto lá fora estalejavam foguetes e se soltavam as cavalhadas.

Ou seja, num cenário, preside a religiosidade, noutro, a esfusiante alegria popular a explodir nesse dia do Padroeiro da Freguesia, clara alegoria à transição dos tempos, com a queda da classe branca dominante e a emergência e afirmação das camadas antes discriminadas e até desprezadas.

O realizador, com as alterações introduzidas, optando por uma solução cinematográfica diferente, retirou o brilho cristalino à simbologia que o autor da obra emprestou àquele momento. E para mais, o arranque do filme é servido por um cenário (Eusébio em "vestes coloniais" e contemplativo na varanda do sobrado) e um fundo musical que mais sugerem um ambiente de África (roça) na sua expressão mais profunda do que a fisionomia identitária da terra cabo-verdiana.

Quanto aos personagens, alguns me parecem mais ou menos bem representados, enquanto outros tentam, com maior ou menor sucesso, travestir as verdadeiras personalidades criadas pelo autor do romance. Apesar de ser um actor de mérito, João Lourenço pareceu-me não se meter lá muito bem no papel de Eusébio, um pouco desajustado da personalidade do seu personagem e algo artificial no seu enquadramento com a realidade humana que o envolvia.

Por outro lado, ao utilizarem um português vernáculo, os actores portugueses afastam-se daquilo que seria verdadeiramente o estilo e a linguagem do chamado "branco da terra". Mesmo o "branco da terra" cioso dos seus pergaminhos familiares ou das suas puras origens lusas, não deixava de falar o crioulo do Fogo, sobretudo no contacto com as camadas socialmente mais baixas.

Creio que alguns podiam falar, sim, o português, mas seria sempre um português com laivos da nossa cabo-verdianidade, em especial na acentuação e no uso de alguns léxicos locais, coisa que não foi nada perceptível no filme.

Admitamos que não era de modo algum fácil pôr aqueles actores a falar o crioulo ou um português com tais temperos. Contudo, neste ponto o Camacho Costa (infelizmente já falecido) é quem me parece identificar-se mais fielmente com o personagem Felisberto, pela naturalidade do desempenho, pela aparência exterior e até pela linguagem aparentemente mais descontraída.

A única excepção, a confirmar a regra, é a actriz Teresa Madruga (Belinha), que fez questão de aprender as palavras em crioulo para o seu diálogo com o Eusébio, palavras que lhe foram ensinadas pelo autor da obra, segundo o próprio me contou. Além disso, a actriz assimilou posturas e tiques que a identificaram plenamente com o seu papel de amante crioula, o que é digno de nota.

E desta maneira ressalta a incongruência de ela se exprimir sempre em crioulo, enquanto o seu interlocutor, Eusébio, também foguense, o faz sempre em português. Já o mesmo sucede entre Eusébio e Soila, esta representada por uma cabo-verdiana.

Claro que não se podia esperar que num filme português não se utilizasse a língua nacional. O meu entendimento não é o oposto, mas sim que se procurasse introduzir alguns condimentos do falar crioulo aqui e além, de modo a representar mais fielmente uma realidade que, sendo também ela de raiz cultural portuguesa, tem no entanto as suas próprias originalidades linguísticas.

O intérprete do Doutor Vicente pareceu-me bem no seu papel. Pena é ter sido um angolano a representá-lo, e não um cabo-verdiano, circunstância que provavelmente põe a nu a nossa incipiência ainda nestas artes.

Em pólo oposto, o personagem Augusto faroleiro está muito mal representado na pele daquele actor português. O Augusto do romance nada tem de comum com aquele actor baixinho e anafado, mais talhado para a comédia revisteira. Alguém glosou este desajustamento comentando que foi o mesmo que ver D. Quixote interpretado pelo Sancho Pança, o que é pura verdade.

É um dado adquirido que o filme dificilmente conseguiria reproduzir alguns desenvolvimentos laterais que embelezam a obra literária, mas reconheça-se que não descurou o diálogo, que é profundo, entre o Doutor Vicente e o seu colega mais velho, Doutor Rafael. Claro que o faz com certa ligeireza, mas suficientemente para elucidar sobre o espírito e o idealismo dos dois personagens.

Penso que houve preocupação de transpor para o filme as cenas mais estruturantes do romance. Mas claro que nem todas, sobretudo uma, cuja omissão penaliza seriamente a obra cinematográfica, pela poderosa carga simbólica que reveste.

Refiro-me à lestada que assolou a ilha por ocasião da agonia da nha Mariquinha. No filme só aparece uma cena breve e fugidia dos seus efeitos, mais perceptíveis (ou dedutíveis) no diálogo entre Eusébio e Soila que materializados cinematograficamente. Teria impregnado o filme de uma grande carga dramática a manifestação da violência da lestada no momento da agonia da nha Mariquinha.

Por exemplo, na obra lê-se: "…Noite que nunca mais chegava a dia. Noite agitada pelo vendaval que tudo estaria espatifando lá fora. E o corpo de nha Mariquinha estendido na cama, serenamente estendido, como barca acabada de ancorar em porto abrigado…." "…Um valente esticão de vento desengonçou a armação do telhado, ouvindo-se acto-contínuo um estilhaçar de coisa frágil, que devia ser das telhas…" "…Quando clareou o dia, a lestada já havia amainado.

Eusébio saíu a averiguar os estragos do temporal. A verdura que na véspera cobria as achadas, os cutelos, as ribeiras, transformou-se da noite para o amanhecer num emaranhado de hastes e folhas ardidas.

O milharal que tanto prometia, as faquetas arremangadas prometendo fartura, encontrava-se agora alastrado no chão, de mistura com as cordas de aboboreira e caules de feijoeiro. As árvores pareciam aves depenadas, os galhos contorcendo-se de desespero. O vento leste queimara tudo. Nada, positivamente nada, restava com o viço da véspera…"

O filme limita-se, pois, a apresentar o diálogo, que eu atrás referi, entre Eusébio e Soila, frente a um terreno árido com algumas árvores que nada transmitem ao espectador sobre os efeitos da dramática violência da natureza.

E, quanto a mim, é pena porque esta narrativa da manifestação da lestada e dos seus efeitos, associada à morte de nha Mariquinha, toca profundamente a sensibilidade do cabo-verdiano, por ilustrar a nossa luta secular contra uma natureza que não nos dá folgadas tréguas.

O romancista valoriza o significado dessas cenas e trabalha-as literariamente com arte e mestria, mas o cineasta, recorrente já anteriormente em outras desatenções, não as privilegia com a sua sensibilidade estética. O bom realizador sabe utilizar os recursos da sétima arte para transpor a metáfora literária para a metáfora fílmica.

O cineasta altera a cena da despedida do Doutor Vicente. Este não é levado aos ombros ao som da música "Hora di Bai", mas é ele que, cantor, à frente de um grupo de músicos, entoa a "Hora di Bai" pelas ruas de S. Filipe.

Aqui não censuro Leão Lopes pela adaptação/alteração porque a cena por ele recriada está bem conseguida e é comovente, quanto mais não seja pela belíssima voz do intérprete da morna. No entanto, poderia ter sido mais natural, com menos teatralidade na representação.

"Last but not the least" neste meu arrazoado é a denúncia inequívoca que o romance faz ao racismo outrora existente e praticado na ilha Fogo, com as suas manifestações primárias e os seus reflexos sociais.

Não conheço mais nenhuma obra de ficção cabo-verdiana que denuncia sem mistificações e sem eufemismos esse hediondo fenómeno que se permitiu viver paredes-meias com o povo da morabeza. Só por isso, honra redobrada ao romancista e à sua obra! E justiça ao cineasta por não ter escamoteado esta verdade bem estampada na obra literária!

Em minha opinião, o romance "Ilhéu de Contenda" figura entre o que de melhor e mais belo já foi produzido por autores cabo-verdianos. E é uma obra que honra a literatura portuguesa.

Apesar de tudo, não se pode, em consciência, alegar que o filme de Leão Lopes distorce ou maltrata a obra literária, pois apenas comete o pecado de desvios e omissões, alguns deles a merecerem reparo. Todavia, quem, como eu, conhece bem o romance, é tomado de uma grande emoção ao revisitá-lo através deste filme.


Tomar, 2 de Novembro de 2005


Adriano Miranda Lima

V o l t a r