(Poema feito antes da invasão do Iraque)


AS POMBAS DE BAGDAD

Sois mansas e meigas de verdade,
Vós, pombas livres de Bagdad,
Aladas sobreviventes da Babilónia,
Que te libertastes do tempo e da história,
Para escutardes o eco do verbo divino
Na trajectória do vosso voo sibilino,
Entre a memória dos zigurates
E as margens do rio Eufrates.

Sois vós, símbolos vivos da bondade,
Que, por trás das mordaças da cidade,
Pressentis a alma sombria dos vilões
E o temor das garras dos falcões,
Vós que, ao alto voando, presenciais
As coisas puras e essenciais
Que as consciências abjectas sonegam
E os corações malignos segregam.

Mensageiras entre a terra e o céu,
Como é comovente a vossa afeição
Pelo serviço do Senhor da Criação!
Vós que te libertastes do tempo,
Voai até à congeminação da história
E explicai-lhes que é infame e inglória
A arte de semear ventos e mais ventos
Sem acautelar tormentas e tormentos!



Tomar, 5 de Março de 2003

Adriano Miranda Lima

V O L T A R