RECORDANDO O PROFESSOR ALFREDO BRITO ("TI FEFA")

Mal de mim se não utilizasse agora este nominho - "Ti Fefa" - como era mais conhecido e sempre o tratávamos no nosso círculo juvenil. Sem este tratamento, não alcançaria a exegese de um reencontro no tempo com aquele que é uma marca indelével na memória de várias gerações de alunos da admissão ao liceu.

Refiro-me ao professor de ensino particular Alfredo da Silva Brito, o saudoso mestre cuja acção foi deveras inexcedível na minha preparação para o liceu. Conheci-o, pois, quando, aos 11 anos, entrei para a frequência da admissão ao liceu, na altura um degrau escolar não absolutamente obrigatório mas que os meus pais julgaram aconselhável.

A nossa escola tinha como professores o Alfredo Brito e o Júlio Teixeira, com as aulas a funcionarem no período de manhã na chamada "Sala do Jacô", a sala onde se realizavam os tão afamados bailes por alturas do Carnaval e não só.

O professor Alfredo Brito era quem normalmente iniciava as aulas, encarregando-se do português, da matemática e da história, se a memória me não falha. Aparecia mais tarde o seu colega, que dava seguimento às restantes disciplinas.

A acção docente pautava-se por constante rigor e disciplina, fosse ela exercida por um ou outro mestre, com pequena margem de contemplação a ser consentida aos mais desleixados ou pouco estudiosos.

Para tanto, poderia agora invocar o efeito dissuasor e omnipresente das varinhas de marmeleiro ou de tamareira penduradas em local bem visível. Dirão os teóricos modernos das ciências pedagógicas que os processos antigos eram obsoletos ou retrógrados por recorrerem à motivação extrínseca ligada à expectativa do castigo físico.

Todavia, no seu livro evocativo "Capitania", Joaquim Saial, evocando o "Ti Fefa" e a sua varinha, logo acrescenta que o quadro preto e as cadeiras é que normalmente mais recebiam as suas esporádicas investidas, quando a cabulice ou a preguiça se tornavam menos dignas de complacência, o que confirmo como inteiramente verdadeiro.

Confesso que só uma única vez apanhei com uma varada nas pernas, e mesmo assim muito ao de leve e aplicada pelo Júlio, embora com isso não queira alardear virtudes pessoais de imunidade a um ou outro castigozinho que a irreverência da idade bem podia ter justificado. Mas o facto é que, tanto quanto me recordo, dissuadia mais do que os instrumentos punitivos a postura séria, exigente e aplicada dos nossos mestres.

O professor Alfredo Brito foi quem emocionalmente mais me marcou, talvez devido à aura paternal que irradiava da sua postura e do seu jeito especial de lidar com os pupilos. Isto sem menosprezar a importância do papel do seu colega, por sinal um mestre conceituado mas certamente mais identificado com o estereótipo normal do professor.

Muito mais novo que o seu colega, estaria talvez ainda no voo ascensional da sua carreira, enquanto o "Ti Fefa" já em plena velocidade de cruzeiro nas andanças do ensino.

Mas a faina escolar não se esgotava na "Sala do Jacô". No período da tarde, ela continuava com o professor Alfredo Brito, e só com ele, num cenário bem diferente, ou seja, no átrio do rés-do-chão do edifício onde funcionava o Sindicato dos Marítimos, um espaço lateral e encaixado ao fundo das escadas.

Ficávamos então entregues exclusivamente ao nosso "Ti Fefa" para voltar a carregar as baionetas mentais sobre certas matérias e trabalhos específicos, nomeadamente apuramento da caligrafia, português e matemática.

O que eu guardo de mais saudoso da minha classe de admissão reporta-se precisamente a esse espaço do Sindicato dos Marítimos, onde o mestre desvendava algumas facetas curiosas da sua aptidão pedagógica e procurava rodear as aulas de uma atmosfera escolar.

Hoje é unânime que a sua pedagogia não estava propriamente na ponta da mítica varinha mas sim na cumplicidade que facilmente estabelecia connosco, na vontade de aprender que nos transmitia, no sentido prático que imprimia ao ensino e na paciência e destreza com que nos desembrulhava as noções mais difíceis.

Tanto o professor Alfredo Brito como o Júlio Teixeira eram protagonistas de um sistema educativo que tinha no professor a base essencial do seu funcionamento. Um sistema que muito exigia do professor mas ao mesmo tempo lhe conferia uma autoridade e um prestígio que a própria sociedade consagrava, razão por que nunca eram questionados os métodos então usuais, no pressuposto de que acima de tudo prevalecia o aproveitamento escolar.

Mudaram-se os tempos e pretendeu-se, sobretudo nas sociedades saídas da opressão política, como as nossas, exaltar os valores da liberdade individual e promover a transformação do que parecia obsoleto e contrário aos novos paradigmas libertários. Assim, à escola anterior sucedeu uma escola permissiva, onde se calculou que a aprendizagem lúdica e uma atitude tolerante do professor seriam quanto bastaria para compensar a supressão do esforço do aluno.

Os resultados são o que sabemos e não raras vezes têm dado azo ao enaltecimento dos processos de ensino de outrora. A título de exemplo, um erro que considero crasso foi ter-se pretendido eliminar ou reduzir consideravelmente o esforço de memorização por parte do aluno. Um erro porque se esqueceu que a estrutura neurobiológica do ser humano tem janelas de oportunidade que se vão revelando e fechando com o andar dos anos.

No caso da capacidade de memorização, não se pode evidentemente falar em "encerramento", mas sabe-se que as suas potencialidades têm o esplendor máximo nos primeiros anos da escolaridade. É uma pena não aproveitá-las convenientemente como antes acontecia, sem detrimento, claro, dos mecanismos de raciocínio, que devem ser estimulados em paralelo.

Vem então a propósito aludir a um artigo de jornal em que o Vasco Pulido Valente, conceituado intelectual português e colunista sempre polémico, confessava que foi na quarta classe (com ou sem admissão) que aprendeu o que hoje sabe de português. Não me fazendo rogado, reagi logo com um concordante grito interior: - Ah, também eu e devo-o principalmente ao "Ti Fefa".

Não há exagero no que digo, pois na admissão assimilávamos de cor e salteado toda a gramática essencial, aprendíamos a redigir praticamente sem erros de ortografia e ganhávamos um notável desembaraço na análise morfológica e sintáctica dos textos do livro de leitura de então, para não falar dos inúmeros ditados e cópias.

Não me recordo do que possa ter sido muito decisivo no português dos meus anos do liceu até ao antigo quinto ano, ano liceal em que cessava a disciplina de português para aqueles que, como eu, não iam seguir qualquer área de Letras.

Com isso não tenciono minimizar o trabalho dos meus professores de português no liceu, mas tão-só realçar que foi o professor Alfredo Brito, pelo seu trabalho persistente e exaustivo, quem me ensinou o essencial do português que eu hoje sei, cortando e modelando com mestria as pedras do alicerce da língua.

Mas falar do empenho do nosso mestre com o português e outras disciplinas é também falar do zelo e da pertinácia com que nos desemburrava na resolução de todo e qualquer problema de aplicação dos conhecimentos de matemática, área em que sobravam sempre lacunas não de todo supridas na quarta classe.

Diria mais, o "Ti Fefa" procurava explorar nessa área, hoje um bicho-de-sete-cabeças para os alunos, todas as potencialidades conducentes a uma boa ginástica mental, criando problemas cujo enunciado percorria tudo o que constava do programa escolar.

Julgo que ninguém ficava com dúvidas sobre problemas de regras de 3 simples ou mesmo de 3 composta, de superfícies agrárias, de valores decimais e fraccionais, etc, etc. Para estes últimos, recorria, com evidente graça, ao exemplo do famoso queijo da Boavista (sua ilha natal) como valor unitário, explorando dessa forma exemplos práticos do nosso quotidiano como forma de banir o abstracto e espicaçar-nos o interesse.

Em suma, entendo que o nosso mestre batia nas teclas certas ao articular convenientemente as potencialidades da memorização com a capacidade de raciocínio que instilava nos nossos jovens cérebros.

Por isso mesmo, reafirmo que tudo aquilo que então aprendi, e da forma como aprendi, constitui hoje pedras importantes na sustentação dos meus conhecimentos, tanto que hoje sei ainda de cor as regras gramaticais e as suas excepções, da mesma maneira que os marcos temporais entre os vários reinados e dinastias da história de Portugal vou buscá-los aos conhecimentos adquiridos nessa fase da minha educação. Creio que os meus antigos colegas dirão o mesmo.

Pela vida fora, manteve-se sempre intacto o vínculo afectivo que de forma espontânea se criou entre mim e o meu antigo mestre. Nos anos que se seguiram à minha saída de Cabo Verde, e por longo tempo, sempre que ele se cruzava com a minha mãe na rua nunca deixava de procurar notícias minhas: "Então, como vai aquele rapaz?

Quando lhe escrever mande-lhe um abraço meu". Quando somos muito jovens não reconhecemos o valor simbólico da humanidade de alguns gestos, mesmo os mais pequenos.

Com isto só quero dizer que me arrependo amargamente de nunca ter escrito uma carta pessoal ao meu mestre, dizendo-lhe do tamanho do meu carinho e de todo o meu apreço por ele.

Afinal, uma carta que só hoje resolvi escrever, e, tarde demais, só me resta agora endereçá-la ao tempo e à memória. Pois quem sabe verdadeiramente a que confins do tempo pode chegar uma carta que vem do fundo da alma?


Adriano Miranda Lima

V O L T A R