SELÔ, SELÔ, SENHOR DOUTOR TEIXEIRA DE SOUSA

Os longes do mar estão ainda afogados na neblina matinal e a ilha já está acordada, ansiosa por uma notícia. O veleiro há muito saiu do porto do outro lado do mundo; a espera do povo da ilha já consumiu dias inteiros em busca vã do horizonte, a noite a fechar-se todos os dias em silêncio côncavo e enervante.

Toda a gente saiu hoje bem cedo para as falésias, excepto os meninos, que ficaram a dormir seu sono inocente entre as paredes descarnadas dos quartos. Tudo agora está a postos, fora do ciclo previsível das chegadas e partidas, mas ninguém ousa um vaticínio.

No céu, os astros nada dizem na sua diária aparição, nem sequer o conforto do sorriso duma estrela. O próprio bater dos corações parece trancado na mesma ansiedade, incapaz de arrebatar um enternecimento. SELÔ é o grito mais desejado; sufocado nas entranhas da angústia, é imperioso que saia das gargantas ansiosas por espantar a solidão das cabras e agitar a folhagem das acácias.

Em momentos felizes de outras viagens soou triunfante por todos os penhascos, ladeiras e falésias e então o júbilo foi maior que o mundo. Ah, tarda ouvir de novo o eco do SELÔ a repetir-se de pico em pico.

A nossa fé está toda no capitão, homem de saber provado, homem de mão firme no leme e conhecedor de todos os caminhos logarítmicos do mar. Quem melhor do que ele sabe utilizar a carta marítima e o sextante e fintar, contra mar e vento, utilizando os segredos da burrajona, do estai e do traquete? Ah, que belas histórias há-de nos trazer em pequenos rolos, aquelas que ele escreve nas longas noites do alto mar.

Sim, há ainda uma réstia de esperança, o capitão é homem do mar calejado e o destino não pode ser sempre cruel. É necessário armar todas as palavras de fé e remar todas as palavras de alento com a força danada de quem quer salvar o mundo. Porque o capitão ama todo o mundo e sorri amorosamente para toda a gente quando desembarca no cais.

Mas as horas continuam a dissolver-se no vento e no voo dos pássaros atropelando a nossa inquietude. O céu há muito explodiu em intenso azul anilado, o mar agora encrespa o seu rosto, e o veleiro tarda a ser aquele grito avassalado nas gargantas. Não és senhor do teu destino, veleiro, bem sabemos, do mesmo modo que não somos mais que o efémero sulco espumoso que vais deixando no azul do mar.

Há rostos que já afivelam a máscara do desânimo que nem reagem quando alguém jura ouvir uma voz além dentro do mar. Mas do veleiro pode chegar chamamento antes que se grite SELÔ? Pois claro que não. Todos descrêem, menos alguém que pede um milagre ou um sortilégio dos antigos para trocar as voltas ao destino malfadado, porque o povo afinal só quer é gritar SELÔ ao primeiro pontinho esbranquiçado no horizonte.

É preciso, sim, esconjurar a morte que cresce escondida dentro das engrenagens de vida. Espantar os negros corvos agoirentos, evitar que assombrem as nossas cabeças e se estilhace o último cálice de esperança para esse veleiro que viaja dentro de nós.

Porém o Sol começa a pôr-se e as mulheres não controlam a emoção, arrancam os cabelos do seu desespero, rasgam os xailes da sua revolta. Os meninos atiram pedras aos corvos engrossando o coro do desassossego, perdidos os restos da inocência do seu sono da madrugada.

Aparece alguém, um visionário conhecido, a convocar os olhares para algo que parece bailar além no horizonte incendiado de sol poente. Um navio, um pássaro marinho, um espectro? Espreita-se com as mãos em pala para tapar o encadeamento do sol em sua lenta agonia no mar.

A esperança é a última a morrer, manda mais que a tormenta da alma, e há choro, há preces salpicadas com lágrimas mais salgadas que o mar, lágrimas aciduladas com o fel dum destino pressentido. Mas nada, tudo parece esvair-se na espuma das ondas, esgotando-se as súplicas, os lírios e o fervor junto aos altares.

Os homens já rogam pragas ao infortúnio, descrentes da palavra cristã sobre a sorte dos justos. As mulheres, translúcidas de dor, rasgam os restos dos seus xailes, e em seus rosários já não há mais contas para desfiar.

O céu da ilha não é agora mais que uma vaga esperança de luz, uma poalha longínqua que se vai fechando sobre si própria. A mágoa do povo começa a voar com os pássaros em direcção ao crepúsculo e súbito todos os olhares pousam, pasmados, numa aparição fantástica:

Por misteriosa alquimia, os pássaros são agora de prata e voam num céu de finíssima cambraia em tons ocre e púrpura; o tempo parou de vez, não existe, o vento e o mar não se ouvem, como que absorvidos por um silêncio obsidiante, um silêncio lavado de impurezas, como aquele que se tira do fundo da esfera.

Vem então a lembrança de Pascal quando disse que o assustava o silêncio eterno dos espaços infinitos. Sim ou não, aquilo que acabámos de presenciar com olhos humanos foi uma visão da eternidade que bondosamente se nos revelou como recompensa da nossa desdita.

O Sol descera definitivamente e o silêncio é agora real porque paira na antecipação da voz do mar, do uivar do vento, do piar das aves marinhas. Os rostos são agora o espelho da resignação e da crença em uma vida outra.

Que porto abriga neste momento os nossos saudosos marinheiros, ungidos pela graça do Senhor? Que gaivotas sobrevoam suas bandeiras e grinaldas? Quem os ovacionou à chegada? Perguntas que se lêem no êxtase dos olhares.

As recordações adormeceram e acordaram vezes sem conta no colo das mulheres, que, uma a uma, começam a recolher as cartas da última viagem e beijam carinhosamente as mantenhas. De repente, uma delas começa a cantar baixinho e súbito todo o povo entoa em coro:

SELÔ, SELÔ, SENHOR DOUTOR TEIXEIRA DE SOUSA, CAPITÃO DAS NOSSAS MEMÓRIAS.

Tomar, 12 de Março de 2006

Adriano Miranda Lima

V O L T A R