SEQUESTR0 DO PAI NATAL


.... dou comigo a pensar em como seria bom termos natais diferentes, como aquele que eu acabara de ouvir. Sem este consumismo desenfreado, sem esta agressiva publicidade a incitar as pessoas ao gasto do último centavo, a pronto ou a crédito.

Sem este ritual burocrático de cartões de boas festas de todos os feitios que abarrotam os correios e não incendeiam os corações.

Sem este apelo oportunista de algumas instituições oficiais à disponibilidade da nossa filantropia e solidariedade, que soa a falso e serve mais para encobrir a inoperância da gestão pública.

Só há uma maneira de conseguir um Natal diferente, penso com os meus botões. É sequestrar o Pai Natal. É mantê-lo suspenso num limbo qualquer, fora do alcance do marketing comercial, ele que é o seu símbolo mais mediático.

Sim, porque toda a gente tem direito a um natal de excelência, que não este regabofe generalizado em que se tornou Noite fria em Tomar, sob céu límpido e estrelado.

Saio para ir abastecer o carro a uma bomba de gasolina. Suspensas sobre as ruas, figuras de várias combinações bordam a noite com seus perfis luminosos. No ar, flutuam as modulações de um cântico religioso difundido por altifalantes invisíveis, temperando o ambiente com sua tonalidade delicodoce.

É o Natal à porta, bem visível em toda a sua fantasia coruscante. O movimento nas ruas é agora quase diminuto, depois do corrupio frenético que foi a tarde toda. Foi um vaivém ininterrupto sobre os passeios, lojas pejadas de clientes, pessoas apressadas transportando embrulhos.

Até houve um desfile de pais natais com publicidade da McDonald's e de alguns shoppings. Como é possível sustentar que o poder de compra está por horas de amargura?

Percorro mais um quarteirão, paro frente ao sinal vermelho do semáforo, e alguém se aproxima a vender-me o almanaque "Borda d'Água". Mas o sinal verde abre e arranco, no rosto do vendedor ambulante ficando a estampada a frustração.

É possível que me tenha visto como um cliente certo, que as regras de trânsito lhe roubaram no último instante. Pareceu-me um dos muitos ciganos romenos que por aí andam, gente errante, socorrendo-se de todos os expedientes para ganhar a vida.

Sinto remorso, ainda penso em fazer inversão, mas a manobra é impensável nesta movimentada avenida. O meu impulso natalício foi tolhido pelas conveniências do código de estrada.

Chego à bomba de gasolina, e o empregado, homem a caminhar para os seus 70 anos, atende-me logo. - "Boa noite, senhor coronel, um friozinho de rachar, não é"? Concordei que sim, pois só se me quisesse armar em valentaço diria o contrário.

Mas o empregado, meu conhecido nesta bomba há um ror de anos, parece com vontade de meter conversa, como quem quer espantar uma momentânea solidão. − "Ah, isso é que foi um movimento de gente nas lojas!

Eles compram do que precisam e do que não precisam, como se o 13º mês lhes queimasse os bolsos. E ainda dizem que estamos em crise! Imagine se não houvesse crise! Bem, pelo menos os comerciantes não se ficam a queixar, não é verdade?"

Replico que, no Natal dos tempos actuais, é irresistível a apetência para as compras, muito diferente de antigamente. E ele continua a sua conversa.

- "Pois é, noutros tempos havia muita miséria, mas as pessoas eram mais chegadas umas às outras. Ah, lembro-me com nostalgia dos natais da minha infância lá na aldeia da Beira Baixa."

Não quero interromper a torrente dos seus pensamentos e deixo-o prosseguir: "Olhe, naquele tempo era tudo muito diferente, muito simples, hoje até dói ver tanta "estragação" em prendas, brinquedos e sei lá que mais!

Lembro-me bem desses tempos, eu miúdo ainda, naquela década difícil de 1940." Uma breve pausa, e espero que ele continue.

"Na minha aldeia, a véspera de Natal era um dia como outro qualquer, sem comezainas e luxos. Durante a tarde, o meu pai reunia uns bons cepos de pinheiro e arrumava-os ao pé da lareira. Explicava que, nessa noite, o fogo não se podia extinguir, porque, dizia ele, o menino Jesus iria aquecer-se junto à lareira.

À hora do jantar, o braseiro já estava bem vivo, o que era um consolo naquelas noites invernosas. A seguir, íamos à missa do galo e regressávamos a casa na companhia dos meus avós e outros familiares.

O meu pai reunia sempre a família mais próxima. A minha mãe punha então na mesa uns salpicões da última matança de porco, assim como pratos com pão de centeio, filhós e outras coisas simples.

O meu avô abria uma garrafa de aguardente de medronho do seu próprio fabrico. Então, a reunião de família animava-se com uma conversação alegre em que toda a gente participava, contando-se histórias de outros tempos.

O meu avô recordava sempre a memória de outros natais, a presença dos seus pais, a grande satisfação que os invadia na véspera natalícia. Chegava o momento que eu mais aguardava.

Era quando o meu pai me explicava que ia nascer o menino Jesus naquela noite e que ele viria numa estrela para me trazer de propósito uma prendinha. Então, aconselhava-me a deixar o meu único par de sapatos ao pé da lareira, porque dentro deles eu iria encontrar uma surpresa do menino Deus."

E o que acontecia depois? indago, interessado em ouvir o resto de uma conversa de todo inesperada.

"Ah, vai ver. As horas iam avançando, e o fogo da lareira não parava de ser alimentado para manter rubro o seu fulgor. O seu forte crepitar denunciava a presença de uma noite especial. Lá para o fim, os temas de conversa iam rareando, o sono a aproximar-se, e o olhar de todos ficava pregado no brasido da lareira.

Dir-se-ia que ficavam todos pensativos, talvez a recordar familiares ausentes ou já falecidos. Mas naqueles olhares silenciosos lia-se a gratidão pela comunhão espiritual daquela noite.

Era como se o menino Jesus fizesse o milagre de reforçar o afecto que nos unia a todos. Eu ia para a cama, não sem deixar de olhar para o céu, na esperança de descobrir a tal estrelinha que me ia trazer o menino Jesus.

O meu sono era sobressaltado com a alegre expectativa da manhã seguinte. Mal acordava, corria para a lareira e dentro do sapato estava uma moeda de 1 escudo. Para mim, isso tinha um significado desmedido.

Ainda hoje o recordo com emoção. Aquela moeda, pouco dinheiro, sim senhor, significava mais do que o seu valor real. Era como a prova real e derradeira de que tinha havido uma noite diferente lá em casa. E que o menino Jesus tinha visitado o nosso pobre lar.

Enfim... Naqueles tempos era assim." Já dar-me o troco, conclui: "Olhe, desculpe lá tê-lo maçado com esta conversa. E boas festas para si e sua família." Respondo-lhe que, bem pelo contrário, foi um prazer escutá-lo. Despeço-me retribuindo os votos de boas festas e ponho-me a caminho.

Quando já vou pela avenida fora, dou comigo a pensar em como seria bom termos natais diferentes, como aquele que eu acabara de ouvir. Sem este consumismo desenfreado, sem esta agressiva publicidade a incitar as pessoas ao gasto do último centavo, a pronto ou a crédito.

Sem este ritual burocrático de cartões de boas festas de todos os feitios que abarrotam os correios e não incendeiam os corações. Sem este apelo oportunista de algumas instituições oficiais à disponibilidade da nossa filantropia e solidariedade, que soa a falso e serve mais para encobrir a inoperância da gestão pública.

Só há uma maneira de conseguir um Natal diferente, penso com os meus botões. É sequestrar o Pai Natal. É mantê-lo suspenso num limbo qualquer, fora do alcance do marketing comercial, ele que é o seu símbolo mais mediático.

Sim, porque toda a gente tem direito a um natal de excelência, que não este regabofe generalizado em que se tornou. Para isso, bastará criar uma aldeia dentro de nós, porque cada pessoa tem uma aldeia dentro de si desde que o queira, mesmo que viva numa grande metrópole.

Sim, é urgente sequestrar por tempo indefinido esse homenzinho gorducho e bonacheirão, de farta barba branca e vestes garridas. E depois é passar a palavra nas ruas, nos cafés, nos transportes, para levar a boa nova a toda a gente.

Sim, porque só agindo desta maneira poderemos regressar à virgindade cristã da noite natalícia, numa aldeia real ou numa aldeia imaginária. Longe do mundo artificial, perto das coisas puras e essenciais. Aquelas que perduram na memória.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R