TROPAS EXPEDICIONÁRIAS A CABO VERDE DURANTE O PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - MEMÓRIA QUE PERDURA

 

Perguntará o leitor qual o propósito de trazer a lume um assunto já tão longínquo, ainda mais tratando-se de acontecimento que poderá interessar à história militar portuguesa mas que nenhuma relação tem com a história de Cabo Verde independente.

Mas verá o leitor que há fortes razões de ordem emocional que a isso conduzem, isto para não falar nas reais consequências locais que a presença de elevados efectivos militares representou na época para as nossas ilhas.

Como é sabido, Portugal não teve qualquer envolvimento na Segunda Guerra Mundial, tendo optado por uma posição de neutralidade que se manteve ao longo de todo o conflito. No entanto, sabedor da importância estratégica das suas ilhas atlânticas, nomeadamente os arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde, alvos apetecidos por qualquer dos contendores, Portugal entendeu que seria curial guarnecer aqueles territórios com forças militares suficientes para dissuadir qualquer veleidade por parte dos beligerantes.

O conflito assumira uma dimensão considerável no Atlântico e aqueles arquipélagos eram, com efeito, detentores de elevado potencial estratégico, sobretudo do ponto de vista aero-naval. Uma fraca presença militar de forças nacionais poderia indiciar um sintoma de desleixo, susceptível de encorajar uma ocupação estrangeira à revelia do direito internacional, em manifesto atropelo da soberania portuguesa.

O Regimento de Infantaria nº 15, de Tomar, foi das unidades do exército que enviaram forças expedicionárias a Cabo Verde. Conheço muito bem o historial deste Regimento por nele ter servido durante longos anos. E é assim que me capacito a divulgar a curiosa memória afectiva que os expedicionários deste Regimento de Infantaria desde sempre vêm cultivando e perpetuando.

A par de outros Regimentos do Exército, competiu ao Regimento de Infantaria nº 15 organizar e mobilizar para Cabo Verde um Batalhão de Infantaria (cerca de 800 homens). As quatro companhias do Batalhão ficaram instaladas em S. Vicente e S. Antão, tendo partido de Portugal agrupadas em três contingentes. O primeiro embarcou em Portugal em 19 de Outubro de 1941, o segundo em 17 de Novembro do mesmo ano, e o terceiro em 8 de Janeiro de 1942.

Mas este acontecimento teria sido mais um episódio normal da história militar portuguesa não tivesse marcado indelevelmente o espírito dos antigos militares, sobretudo a classe de praças (soldados e cabos) e os oficiais e sargentos milicianos (serviço obrigatório).

Os capitães já eram na altura homens maduros (quarentões) e habituados às andanças e contingências da vida militar, pelo que é natural que o impacto emocional das grandes "aventuras" tocasse mais a faixa etária dos vinte anos. O facto é que desde a sua desactivação, os ex-militares que serviram no citado Batalhão vêm promovendo reuniões anuais em alomoços-convívio para recordar a sua passagem por Cabo Verde, nomeadamente pelas ilhas de S. Vicente e de S. Antão, por onde se distribuíram as suas companhias.

Estive presente num desses convívios pela primeira vez em 1986, pela circunstância de o mesmo ter sido realizado nas instalações do Regimento de Infantaria nº 15, por convite do seu Comandante. Competiu-me, na altura com o posto de major, ser o oficial a apoiar a organização desse evento, que se inseria nesse ano nas comemorações do aniversário do Regimento, condição que me permitiu assistir do princípio ao fim a confraternização dos ex-militares.

O leitor nem imagine a satisfação daqueles homens quando lhes disse que eu era cabo-verdiano de origem. E isto porquê? Porque quando se juntam a intenção é celebrar a memória de uma experiência militar vivida na intensidade anímica dos seus 20 anos, mas também recordar e celebrar a terra cabo-verdiana com eflúvios de uma saudade que eu não imaginava possível.

Um deles, Francisco Lopes, na altura cabo, era um exímio acordeonista (ainda hoje anima as romagens de saudade com o mesmo instrumento), e, como tal, fazia parte de grupos de animação recreativa em S. Vicente, juntamente com outros músicos da terra, frequentando as festas e os bailes das colectividades. Tanto assim foi que aprendeu e ainda se recorda bem de mornas então em voga que ele recupera e interpreta nestes convívios, acompanhado por outros intervenientes.

Mas achei digno de registo o facto de muitos deles fazerem questão de introduzir nas suas conversas expressões em crioulo, demonstrando que não foi em vão o seu convívio com as gentes cabo-verdianas. São inúmeras as histórias que se contam nestes convívios, citando-se amizades contraídas com cabo-verdianos, namoricos com raparigas da terra, nomes de ruas, praças, botequins, enfim um reportório variado de emoções e aventuras que a sua memória regista como as mais indeléveis recordações das suas vidas.

Não surpreende por isso que eu tivesse sido alvo de constantes interpelações sobre isto ou sobre aquilo, se conhecia fulano, se sicrano é ainda vivo, com quem se casou beltrano, etc. E, é claro, fui de imediato convertido em membro honorário do grupo. E o entusiasmo foi tanto que, entre outros repentismos, surgiu a sugestão de um prato tipicamente cabo-verdiano (cachupa, pois claro) para um futuro convívio.

As horas correm e as conversas são intermináveis. E surge a ocasião de recordar os capitães comandantes das companhias. E é assim que vem a propósito o nome do capitão Miguel da Conceição Mota Carmo, comandante da 1ª Companhia, o qual viria a ser administrador do Concelho de S. Vicente terminada a sua missão militar. Segundo o que sempre ouvi em S. Vicente, ele terá sido um administrador pouco civilista, muito à imagem do seu espírito militar, embora tenha realizado algumas obras de interesse.

Mas há um nome cuja memória estes homens veneram. Trata-se do capitão Fernando de Magalhães Abreu Marques e Oliveira, comandante da 3ª Companhia do Batalhão, recordado como oficial de alta competência e dotado de grande espírito humanitário.

E então recordam que naqueles tempos difíceis, em que grassava a fome em Cabo Verde, vitimando muita gente entre a população (como bem sabemos), o capitão Oliveira, condoído com aquela dramática situação, ordenou a montagem de um conveniente serviço de distribuição de sobras de rancho (alimentação das praças) às pessoas que se acercavam da portão do quartel.

À certa altura, reparando que o número de necessitados crescia a olhos vistos, disse ao Sargento do Rancho que tinham de maximizar as sobras de alimentação.Perante as dúvidas do subordinado, explicou-lhe que era preciso "inventar" todas as situações administrativas e recursos possíveis.

O Sargento mostrou-se então com dúvidas mas a pertinácia do seu capitão não permitia qualquer hesitação ou tibieza. Sublinho que este facto foi-me contado, emocionado, pelo próprio Sargento interveniente, que era na altura um jovem furriel miliciano, infelizmente hoje já falecido.

O capitão Oliveira era de facto de uma natureza humana invulgar, um homem de grande nobreza de carácter e estatura moral, às ordens de quem nunca servi, mas que sempre ouvi citado pelas suas altas qualidades humanas e profissionais. Faleceu de morte súbita em 1975, já general reformado, tendo no seu cortejo fúnebre um número infindável de antigos subordinados.

Todos os anos estes veteranos do ex-Batalhão Expedicionário aproveitam o convívio para cumprirem uma romagem ao jazigo do cemitério de Tomar onde estão os restos mortais do seu "capitão". Ele era filho desta cidade de Tomar. Escusado é dizer que me venho incorporando no séquito de homenagem, em intenção a um oficial de estirpe, mas, sobretudo, em nome de todos os meus conterrâneos a quem o oficial mitigou a fome com a sua atitude de grande compaixão e solidariedade humana.

Registe-se que o gesto humanitário do capitão Oliveira em prol dos necessitados em S. Vicente não tardou a ser seguido por outros comandantes das companhias destacadas na ilha de S. Vicente. Creio que por longos anos ficou gravada na memória dos pobres e desprotegidos do Mindelo a figura humana do valoroso capitão. Um homem que aparentava um ar sóbrio e mesmo severo, mas que tinha um coração de ouro, do tamanho do mundo.

Havia uma rua em Mindelo que se chamava rua Infantaria 15, provavelmente uma homenagem da cidade por tudo quanto foi aqui referido. Ainda me recordo dessa rua, mesmo no centro da "morada", que hoje terá certamente outra designação toponímica. Provavelmente, o nome de algum estrangeiro que nenhuma relação teve com Cabo Verde e a cidade do Mindelo.

Num breve apontamento, resta referir que o Batalhão de Infantaria 15 regressou a Portugal em Julho de 1943. Seria interessante citar outros factos do seu historial, em meu poder, mas não o faço para não saturar este texto. No entanto, não deixo de referir que o comandante do Batalhão, major Nicolau de Luizi, faleceu por doença em S.Vicente, em pleno exercício do seu comando.

Realizou-se então um cerimonial militar fúnebre em S. Vicente, mas a sua urna foi transferida para Portugal, estando sepultado num jazigo no cemitério desta cidade de Tomar, de onde era também natural.

O certo é que, não obstante rondarem actualmente uma bela e muito provecta idade, os ex-militares do Batalhão de Infantaria 15 ainda persistem no seu convívio anual. Neste ano irão mesmo ao Regimento, visto estarem convidados para a comemoração do seu bi-centenário. Mas como é inexorável a lei da vida, são cada vez menos os participantes. Contudo, o espírito com que recordam a nossa terra permanece inquebrantável.

Pergunto agora ao leitor se a história se pode apagar com uma esponja. Claro que não se pode apagar do coração dos mindelenses a imagem do capitão Oliveira. A história do nosso povo é feita de uma complexa mistura de realidades e factos, alguns forjados na sua contextura interna, outros provenientes de fenómenos exógenos que nos intersectam.

Foi sempre assim. Quis o acaso que eu testemunhasse a existência deste espaço simbólico que um grupo de veteranos recria todos os anos e transporta sentidamente na sua memória colectiva. Esse espaço tem Cabo Verde como o centro impulsionador das suas emoções, resiste ao tempo e sobrevive para lá de quaisquer fronteiras físicas, étnicas ou pretextos de nacionalidade.

E assim Cabo Verde se torna ponto de reencontro e aglutinação de uma recordação e de uma saudade. Esta memória afectiva, acarinhada ainda hoje por um grupo de velhotes, não pode ser também reclamada pela identidade cabo-verdiana?

Tomar, 25 de Fevereiro de 2006

Adriano Miranda Lima

V O L T A R