UM OLHAR SOBRE O MÉDIO ORIENTE E ESTE NOSSO MUNDO

"GUERRAS SUJAS"

Lembro-me de, há uns anos atrás, em conversa com um camarada de profissão, hoje general fora do activo, termos conduzido as nossas congeminações para o reconhecimento de que nenhuma guerra se pode considerar justa, contrariamente à tese de alguns politólogos da nossa era.

Isto veio na altura a propósito da guerra do Kosovo e do rasto de destruição que os bombardeamentos da NATO iam lavrando no chão da Sérvia e do próprio Kosovo para obrigar Slobodan Milosevic a acatar o acordo de Rambouilett.

Os antecedentes do conflito assim como os seus desenvolvimentos posteriores não pareciam delinear uma perfeita separação entre "bons e maus" que justificasse uma intervenção da NATO a favor dos primeiros.

O certo é que começou aí, com mais visibilidade, o ensaio no terreno do conceito militar do bombardeamento cirúrgico para obrigar um opositor, obviamente em manifesta inferioridade de meios aéreos e outros de alta tecnologia, a vergar-se às pretensões do atacante. No caso citado, foi elevado o número de vidas ceifadas na própria população kosovar em consequência dos bombardeamentos da NATO.

Tal como a fronteira das razões invocadas em ambos os campos não esteve muito claramente definida nas motivações do conflito, as próprias vítimas da intervenção "justiceira", sérvios e kosovares, baralharam as contas finais para apuramento do saldo vitorioso. É que, de uma maneira ou de outra, há sempre uma vitória de Pirro nos conflitos bélicos.

Neste momento, apetece-me ser mais acutilante e reconhecer que, para além de injustificáveis, as guerras são sujas, tremendamente sujas, e com esta qualificação estou a recorrer a um eufemismo.

As guerras são sujas porque nunca será defensável encará-las como a "continuação da política por outros meios", como pretendeu Clausewitz, a menos que a própria política, neste caso a externa, se entenda como algo tão deplorável como a guerra pelos processos e meios utilizados para atingir os seus fins. Mas mesmo assim há uma diferença.

Enquanto no xadrez político há sempre uma possibilidade de acordo e entendimento com os recursos da diplomacia, a guerra obedece a leis próprias e joga no campo da incerteza. A guerra é como um monstro que soltamos e vai ganhando garras e tentáculos tais que nos sujeitamos a perder o seu controlo.

Dir-se-á então que a guerra gera uma escalada e passa a comandar a política justificando a inversão da fórmula de Clausewitz para: "a política é a continuação da guerra por outros meios".

Além disso, a verdadeira sujidade da guerra advém do reconhecimento de que ela, pelos seus efeitos calamitosos, constitui a mais absoluta negação do património moral de que humanidade se mostra credor.

É com esta visão que venho presenciando a tremenda escalada a que o estado de Israel se permitiu com o ataque e a invasão ao Líbano. Uma escalada em que entrou, a meu ver, de forma pouco lúcida por ter mordido precipitadamente a isca montada pelo Hezbollah quando este raptou os seus soldados.

Tudo faz sentido se reparamos no desenvolvimento dos últimos acontecimentos políticos. O Irão, patrocinador logístico e ideológico do Hezbollah, estava no centro da agenda internacional por causa do programa nuclear em que persiste como meio de ganhar um poder militar dissuasor e capacitar-se a uma posição hegemónica no Médio Oriente.

Por outro lado, o Hamas, contrariamente a algumas expectativas, parecia inclinado a aceitar um acordo com Israel, reconhecendo-o como estado soberano, enquanto o Irão proclamara à boca cheia a pretensão de expulsar os judeus da Palestina.

E é assim que, incrédulos, estamos a assistir nestes abrasadores dias de Verão, a cada hora que passa, a desconstrução, pedra por pedra, do edifício das nossas esperanças e crenças na resolução pacífica de um conflito que enluta o coração da humanidade.

Não existe um conflito extensivo a todo o mundo, mas há povos que parecem ter sido eleitos os únicos cordeiros sacrificiais para evitar a eclosão de uma guerra mundial como a de 1941-1945.

Com efeito, enquanto os povos do chamado mundo ocidental (e ocidentalizado) estão a gozar as delícias do bem-estar e do progresso, há criaturas humanas que estão em situação equiparável à dos habitantes da cidade alemã de Dresden quando esta foi bárbara e desnecessariamente massacrada pelos bombardeiros aliados na última guerra mundial.

Salvaguardas as devidas proporções, claro. Mas se alguém ainda tem dúvidas sobre a sujidade da guerra, que veja uma reportagem televisiva ou cinematográfica sobre o massacre de Dresden em 1945, quando a vitória dos aliados já estava praticamente assegurada no conflito.

Arrepia-nos a devastação que o Líbano está a sofrer. É o mesmo Líbano que, reproduzindo as palavras de um cidadão desse país frente às câmaras de televisão, "levou 15 anos a ser reconstruído para ser de novo destruído em 15 dia".

O estado de Israel não tem qualquer escrúpulo moral em protagonizar a destruição de infra-estruturas, habitações e vidas humanas de populações civis para atingir os seus objectivos militares situados num estado de direito cuja única responsabilidade é acolher uma organização político-militar hostil ao estado judaico e que aposta na sua destruição.

Ainda que o exército israelita difunda alertas públicos no sentido da evacuação das zonas que vão ser atacadas, o certo é que a onda de destruição leva na sua crista um estendal de perdas humanas entre a população civil.

O Hezbollah, por sua vez, instala-se em áreas residenciais exactamente com o intuito de utilizar as populações como escudo, no pressuposto de que Israel ficará de mãos atadas ao coibir-se de atacar alvos civis que encobrem posições militares inimigas.

Recentemente, veio a saber-se que os observadores da ONU foram mortos exactamente porque a instalação que ocupavam foi intencionalmente utilizada como escudo pelo Hezbollah. Mas, como se tem visto, Israel não se compadece com tais escrúpulos porque sente que está em causa a sua sobrevivência.

Portanto, uns e outros são protagonistas de uma mesma tragédia de morte, desolação e infortúnio. O Hezbollah invoca argumentos históricos para a destruição do estado de Israel, não abdicando do extremismo das suas posições, onde o radicalismo islâmico é a única mandatária da sua conduta política.

Sabe que conta com o apoio do Irão e da Síria e, quem sabe, de um Iraque em convulsão e na iminência de uma guerra civil. Israel tem consciência de que não lhe resta outra alternativa senão ir ao extremo das suas possibilidades militares para poder sobreviver encurralado entre nações árabes hostis. Sabe que conta com o apoio incondicional do Estados Unidos e, dir-se-á, com a compreensão de uma União Europeia que não tem ainda uma politica externa comum.

Temos assim o Médio Oriente numa autêntica embrulhada, em risco de entrar numa situação de total descontrolo que pode alastrar-se a outras partes do mundo.

Tomar, 5 de Agosto de 2006

Adriano Miranda Lima

V O L T A R