UM OLHAR SOBRE O MUNDIAL

Terminados já os oitavos-de-final deste Mundial, mais uma vez não se pode dizer que o painel das selecções sobreviventes para as fases derradeiras ofereça alguma surpresa.

Poder-se-á é assinalar que, pela primeira vez desde 1966, Portugal é apurado para os quartos-de-final, o que também não surpreende dada a evolução que a sua selecção vem registando nos últimos anos no plano competitivo.

Costuma-se dizer que o Mundial propriamente dito, ou seja, a partir da "limpeza" operada na primeira fase, é um "Europeu" mais o Brasil, a Argentina e um outsider qualquer, que nos últimos anos tem sido representado com justificada razão por um país da África Ocidental. Neste Mundial foi o Gana e no anterior fora o Senegal o seu mais lídimo representante.

Tenho de confessar que, sendo eu um fervoroso adepto do futebol, desde há muitos anos que não me sentia tão pouco entusiasmado por um Mundial como me aconteceu com este. As razões podem ser diversas.

A primeira poderá ser a inevitável saturação decorrente das doses maciças de futebol que têm sido uma presença na nossa rotina televisiva, com a competição doméstica a intercalar-se com as das ligas inglesas, espanholas e italianas.

Outra razão, porventura a mais influente, é o quão pouco atractivo que, a meu ver, tem sido o espectáculo futebolístico. Hoje prevalece, com poucas e honrosas excepções, aquele futebol insípido e calculista, cujo móbil principal é a vitória e os 3 pontos, seja de que maneira for, nem que seja com uma mão de Maradona (Mundial de 1986 contra a Inglaterra) ou de Vata (eliminação do Marselha pelo Benfica, num campeonato europeu de clubes).

Nisto o futebol italiano parece ter feito valer a sua matriz, inspirada no catenaccio, impondo a sua filosofia ao mundo do futebol, perante a evidência, infelizmente cada vez mais interiorizada, de que o importante é conquistar o troféu e amealhar o pecúlio financeiro proveniente das receitas e dos prémios conferidos pelo negócio do desporto-rei.

nfelizmente, com este estado de coisas, o comum dos adeptos parece já ter-se conformado com tal filosofia calculista em vez de reclamar o verdadeiro futebol espectáculo. Sinto ainda um travo na boca quando me lembro daquela emotiva meia final Brasil-Itália de 1982, em que esta triunfou mercê do seu futebol traiçoeiro enquanto o Brasil, mais uma vez igual a si próprio, não quis outra coisa senão regalar-nos com o seu futebol perfume.

É bem possível que tenha sido a partir daí que os espectadores europeus e do mundo em geral começaram a aceitar, embora a contra gosto, essa nova maneira de encarar o futebol, ou seja, sacrificar o espectáculo em benefício do resultado.

Como está patente que não gosto nem um bocadinho do futebol italiano, foi uma vez mais com enfado que assisti aos seus jogos, embora outras selecções pouco tenham primado pela diferença.

O único motivo de regalo que tive neste Mundial foi o Brasil-Japão, em que o primeiro nos deliciou com um pouco do seu perfume futebolístico, como que a lembrar-nos que, afinal, é bem outra a razão que nos faz gostar do desporto-rei e ir a um estádio ou perder 90 minutos frente a um televisor.

Mas, como o Brasil não se permitiu a igual performance no jogo seguinte, frente ao Gana, porque no outro era só para cumprir calendário, é caso para pensarmos que nem ele escapa à regra. Pudera, depois da triste lição aprendida frente à pérfida Itália em 1982!

Pode-se pensar que os restos residuais do perfume natural do futebol estão nas selecções africanas, ainda virgens, como aliás o Gana nos demonstrou.

Mas será por muito tempo? Frente ao Brasil nos oitavos-de-final, o Gana deu um banho de futebol ao seu adversário e só a sua falta de calculismo e sorte na concretização terão impedido outro desfecho ao jogo, visto que o resultado obtido pelo Brasil é muito enganador.

Alguns intelectuais da coisa futebolística apelidam esse futebol de ingénuo, mas considero injusto tal apodo porque, ao fim e ao cabo, o que verdadeiramente nos delicia no futebol é o laço artístico com que alguns jogadores o atam, é o rasgo mágico que outros lhe emprestam.

Angola esteve pela primeira vez num Mundial e certamente levou na sua bagagem boas e impressivas recordações e o propósito de investir em infra-estruturas desportivas a fim de elevar o seu futebol aos níveis já alcançados por outros países africanos. Admira-me é Moçambique, o país que outrora gerou os grandes craques do futebol português, estar ainda adormecido e afastado destas lides.

Quanto a Portugal, infelizmente não sobram motivos de grande regozijo depois da sua vitória contra a Holanda ter sido marcada por incidências tão rocambolescas que desvirtuaram o confronto entre ambos. E para mais, com os castigos impostos pelo árbitro, ficaram fragilidades tão localizadas no plantel português que não há motivos para grande optimismo para o jogo dos quartos-de-final frente a uma Inglaterra que, ao invés, se vai apresentar no máximo da sua força.

Não deixa de ser notório que a globalização tem já no futebol a sua mais conseguida expressão. Olhamos para a maior parte das equipas das ligas europeias e para as selecções congéneres, em especial as francesas e inglesas, e vemo-las mescladas com jogadores de todos os quadrantes geográficos, donde se pode dizer que o futebol praticado num determinado país já não espelha as suas características genuínas e originais.

É claro que esta realidade pode dividir as opiniões, sendo certo que haverá quem defenda o lado atractivo do confronto entre concepções futebolísticas bem antagónicas. Visando o aspecto positivo da evolução multi-étnica do futebol, é certo que não podemos deixar de aplaudir tal sintoma de liberdade de circulação e de aproximação dos povos, espelho que é do multiculturalismo que esperemos venha um dia a ser o rosto futuro da humanidade.

Pena é o futebol ser por enquanto o seu único e entusiástico cadinho de ensaio, pena é outros sectores da vida humana, de urgência bem mais gritante, não estarem a reclamar a mesma atenção dos patrocinadores e investidores que hoje transformaram o futebol numa das economias mais prósperas.


Adriano Miranda Lima

V O L T A R