DO CINEMA EM CABO VERDE: CONTRIBUIÇÃO PARA A SUA HISTÓRIA (I)

Ilustre cabo-verdiano que guiou o povo de Cabo Verde nos caminhos da dignidade e justiça. E, também, à Maria Luiza Marques da Silva, verdadeira passionária do cinema em Cabo Verde. In memorium de NHO CESAR MARQUES DA SILVA.

No quadro da lusofonia, ou melhor da CPLP, vêm-se realizando alguns encontros do cinema nas três ilhas mais desenvolvidas do Arquipélago ao nível das infra-estruras económicas e culturais, ou seja nas ilhas do Sal, Santiago e São Vicente.

Trata-se de fazer uma amostra daquilo que se faz ou já se fez ao nível do cinema no Brasil, em Portugal, na Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Sao Tomé e Príncipe. No ano de 2002, o encontro foi coroado com um filme brasileiro sobre os massacres de Timor, alguns documentários sobre Cabo Verde, um filme de Guiné-Bissau e ainda alguns filmes portugueses.

O grande cineasta português, Manoel Oliveira, mundialmente reconhecido, tem sido homenageado nesses encontros. Acontece porém que todos os esforços investidos na realização nesses encontros do cinema, com o objectivo de criar uma cultura da sétima arte em Cabo Verde, não têm conseguido os resultados escontados, por razões que nada têm a ver com o desinteresse da grande maioria dos nossos cinéfilos mas sim pela maneira como são excluídos das decisões sobre a programação como se ainda vivêssemos sob a ditadura colonial.

Esta atitude dos cinéfilos nada tem a ver com os comentários dos organizadores que acusam o público cabo-verdiano de ver no cinema um simples divertimento e não uma escola de formação, de educação, com uma capacidade de engajamento importante na defesa dos direitos humanos e dos interesses dos países subdesenvolvidos.

Falta-nos, na verdade, os instrumentos necessários ao estudo da sétima arte, permitindo uma profunda reflexão sobre a importância do cinema nas sociedades modernas, de forma a propor a construção dum cinema cabo-verdiano virado para o desenvolvimento dum cinema engajado com a realidade nacional, pressuposto necessário contra um cinema servil comprometido com o Estado, como foi nos tempos do fascismo e do colonialismo.

Com a Independência e o seu partido único, as várias tentativas de impor um cinema diferente encontraram a oposição dos cinéfilos cabo-verdianos, habituados a fazer as suas escolhas em matéria cinematográfica.

O jornal Voz di Povo, graças à boa vontade Arménio Vieira, teve uma página de cinema durante algum tempo enquanto nos anos oitenta, graças à iniciativa de Nelson Atanásio, presidente da Câmara de São Vicente, foi elaborado um projecto da construção dum cinema municipal, onde se poderia criar uma verdadeira escola do cinema, mas que ainda se encontra por concluir como se a democracia cabo-verdiana temesse também o cinema.

O cinema aparece em Cabo Verde, em especial em São Vicente, com advento da Republica Portuguesa (5/1O/1910), portadora de grandes esperanças, que permitiu aos intelectuais e trabalhadores cabo-verdianos criar as estruturas próprias e autónomas. Alfredo Margarido, no prefácio ao Folklore Cabo-verdiano de Pedro Monteiro Cardoso (Edição da Solidariedade Caboverdiana - Paris 1983), escreve: "E, consequentemente, ao nivel do cinema surge o cinematógrafo eléctrico de Freitas & C°, com um aparelho Pathé-frères, modelo de 1913.

Anuncia-se também que a mesma empresa adquiriu, por troca, quatro espectáculos novos, e espera, no próximo paquete da Guiné, mais nove espectáculos de novidades com que vai deliciar o público desta cidade e das demais ilhas.

Não sabemos qual foi o acolhimento dispensado a esta nova forma de espectáculo, mas um anúncio de 1916 deixa entender que o público caboverdiano não mostra um interesse apaixonado pelo cinematógrafo, porque havendo embora estreias de fitas novas e sensacionais, os preços são os do costume, apesar da subida enorme dos preços das películas."

No ano de 1922, César Marques da Silva inaugura o cinema Eden-Park, que levou muitos anos por concluir devido a dificuldades financeiras e constitui um dos patrimónios mais importantes da cidade do Mindelo e de Cabo Verde.

De todas as ilhas acorriam pessoas para assistir aos vários espectáculos organizados no Eden Park, cuja actividade cultural não se limitava ao cinema: o teatro, o boxe, conferências, tudo o que era cultura recebia o Eden Park sempre com a preocupação de servir Cabo Verde.

Mais do que qualquer outra escola, teve sempre preocupação de servir as classes sociais mais modestas, levando-lhes à instrução e a cultura popular.

O Eden Park, graças à passagem de grandes filmes, trouxe aos cabo-verdianos os exemplos da dignidade e da solidariedade humana e ainda a consciência da liberdade.

Mais ainda: também desenvolveu o nosso sentido de revolta contra as traições, o racismo, as injustiças humanas, a esperança dum mundo melhor onde a justiça estaria acima de todos, e que seríamos capazes de criar uma elite que fosse o exemplo de dignidade e patriotismo para o nosso povo.

Os filmes românticos, dando exemplos de fidelidade e coragem em defesa da família e da nação, contribuíram enormemente para que a juventude se levantasse em armas para a Independência de Cabo Verde.

Foi ali no Eden Park que, pela primeira vez, descobrimos que o índio tinha razão na história da América, com o célebre filme Cochise ou os grandes cow-boys, heróis do faroeste, que defendiam as injustiças humanas; foi ali que vimos a denúncia do racismo no Sul da América e repensámos a África escrava e explorada pelas potências coloniais e o apartheid protestante, como se estes não tivessem sido perseguidos e queimados pelos católicos da Inquisição.

Foi ali que os rocegadores das praias, os camponeses, aprenderam como defender o seu salário justo, onde muitos irmãos forçados a emigrar sonharam um mundo melhor com direitos iguais entre os homens e aprenderam o inglês, que mais tarde lhes permitiria integrar-se nos países de emigração.

Foi ali, no EDEN PARK, que encontrámos a verdadeira escola da liberdade do povo das Ilhas: de há muito o seu fundador devia ter sido distinguido com um prémio de HERÓI DA PÁTRIA CABO-VERDIANA, ter o seu nome numa das primeiras artérias de Cabo Verde, não somente em São Vicente, uma estátua, pois já não no coração do povo e dos emigrantes ela existe.

Havia pessoas que decoravam os diálogos e, que no regresso à casa, nas noites de luar, recitavam com a voz dum James Mason, dum Sidney Poitier, dum Marlon, de Jeff Chandler, os seus lindos textos; os músicos retomavam as músicas para as festas populares e, quando chegou a hora de libertação, não foi preciso ir acordar ninguém do sono colonial.

No plano musical, os proprietários do cinema Eden Park sempre permitiram a entrada gratuita dos músicos no seu cinema, a fim de seguirem a evolução musical nos paises estrangeiros e que muitas vezes adoptavam as músicas dos filmes para o próprio repertório musical utilizado nos bailes e no carnaval.

O senhor José Marques Lopes da Silva fez também dos seus filhos excelentes músicos e certamente os primeiros a avançar na modernização da música cabo-verdiana com o conjunto RITMOS DE CABOVERDE, onde também se formaram músicos de alta craveira, tais como o célebre guitarrista HUMBERTO BETTENCOURT "Humbertona", o cantor LONGINO, recentemente falecido sem honras e ignorado em Portugal, e também o pianista CHICO SERRA do conjunto VOZ DE CABO VERDE. O Djosinha do conjunto VOZ DE CABO VERDE foi uma criação do cinema Eden-Park, assim como o Morgadinho, que tinha acesso gratuito, ainda jovem, ao cinema Eden-Park.

O Golpe de Estado de 1926, que levara Salazar ao poder, constituiu um golpe violento nas tentativas de autonomia política, económica e cultural em Cabo Verde no quadro do sistema colonial.

Não somente foi estabelecida uma Censura vigorosa, que seria reforçada com a instalação da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), como também seria fechado em 1930 o próprio Liceu Infante D. Henrique, o único do Arquipélago e que começou a funcionar ali ao lado do Eden Park graças à acção do Senador Vera Cruz, que aliás cedeu a sua casa para que fosse instalado um liceu em Cabo Verde. Somente em 1933, graças aos esforços de Adriano Duarte Silva e Baltasar Lopes, seria aberto um novo liceu com o nome de Liceu Gil Eanes.

As organizações de trabalhadores, como sindicatos de operários e agricultores, assim como a própria maçonaria, seriam extintas também em 1933, sendo seu último Presidente o Sr. Torquato Fonseca, que deixou ilustres filhos que contam para a historia de Cabo Verde.

O nascimento, tímido, da revista Claridade, em 1936, foi um alumbramento, na própria expressão do poeta Jorge Barbosa, um dos fundadores da revista, mas esta nunca desenvolveu uma análise sobre a cultura cinematográfica, por razões que têm a ver com a censura.

Entretanto, alguns claridosos, como Jorge Barbosa ou Sérgio Frusoni, ou pessoas como Djunga Fotógrafo, ou ainda António Aurélio Gonçalves, certamente um dos intelectuais cabo-verdianos que melhor se realizou como escritor, comentaram alguns filmes em directo no cinema Eden-Park.

A Censura instalada em Portugal como em Cabo Verde, cortava as passagens consideradas polémicas, o que provocava muitas vezes gritos e assobios no cinema, fixava as idades para ver certos filmes ou mesmo proibia a passagem de qualquer filme que evidentemente tivesse uma grande aceitação do público devido aos problemas expostos.

Dava-se preferência aos pequenos dramas sentimentais, aos filmes de capa e espada ou de dança, enquanto os filmes dum Charlot, denunciando a exploração humana, eram devidamente censurados.

Escapavam à Censura os Desenhos Animados, que eram certamente destinados exclusivamente às crianças. Ora, os desenhos animados eram portadores de lições de dignidade e justiça tanto para as crianças como também para os adultos.

Várias vezes assistimos a alguns adultos sairem do cinema logo após a passagem dos desenhos animados, demonstrando desintesse pelo filme que seria seguidamente apresentado, o que na altura nos deixava intrigados.

O facto me levou a interrogar essas pessoas, admiradoras de Popey ou dos filmes de Walter Disney, que me revelaram a riqueza dos filmes de desenhos animados. A verdade é que La Fontaine não escreveu as suas fábulas para as crianças mas sim para os adultos, corruptos pela avidez das riquezas mas profundamente pobres em matéria de dignidade e de espiritualidade.

Graças aos desenhos animados apresentados tanto no Cinema Park Miramar como no Eden-Park ou nos cinemas da ilha de Santiago ou do Sal as nossas crianças puderam tirar as lições necessárias que os fizeram homens honestos e dignos filhos de Cabo Verde.

A Censura e a Pide jamais compreenderam a dimensão política e cultural dos desenhos animados que tanto marcaram as crianças e a juventude dos anos da luta contra o fascismo e o colonialismo.

Evidentemente que nem todos os heróis dos desenhos animados eram anti-colonialistas, anti-racistas, mas lá íamos fazendo as nossas escolhas.

A grande verdade é que, muitas vezes, os heróis das bandas desenhadas como Tarzan e outros faziam apologia da inteligência e da força do homem branco e apresentavam os negros e os índios como bárbaros, criminosos, alimentados no ódio à raça branca.

Pouco a pouco, esses desenhos animados eram criticados pelas próprias crianças que livremente podiam escolher os seus próprios desenhos animados.


Luiz Silva