DO CINEMA EM CABO VERDE: CONTRIBUIÇÃO PARA A SUA HISTORIA (II)

Nos princípios dos anos cinquenta, a vida cultural em Cabo Verde, tanto em São Vicente como na Praia e Sal, conhece um novo arranque por iniciativa de clubes desportivos e culturais. Gabriel Mariano destaca-se pela sua actividade cultural tanto no liceu Gil Eanes, como na Associaçao Académica ou no Grémio Associativo Castilho, organizando saraus de poesia, conferênciasm e escreve peças de teatro que merecem ser reeditadas, especialmente "Os Clandestinos no Céu", apresentados no Grémio Castilho.

O mesmo acontece na Praia, que vai ter também o seu cinema, assim como na Ilha do Sal. A Ilha do Sal, graças ao seu Aeroporto Internacional, vai ter a possibilidade de apresentar os mais modernos filmes enquanto o cinema da Praia vai permitir a criação dum grupo de cinéfilos que até serão presos pela Polícia Internacional do Estado.

Ainda nos anos cinquenta, face ao desenvolvimento do cinema vai aparecer mais uma sala de cinema em São Vicente conhecido por Mark Mira Mar ou cinema do Tuta Melo que, em concorrência com o Park Mira Mar, nos permitia ver os filmes mais modernos.

Hoje o cinema Park Mira Mar, face à crise económica e à intervenção dos videos e da televisão, foi fechada e alugada à Igreja Universal, visto não beneficiar de nenhuma subvenção do Governo. Com grandes dificuldades, o cinema Eden Park continua firme graças à devoção da familia Marques e em especial da sua directora Maria Luiza Marques da Silva.

O cinema Park Mira Mar teve também um papel importante na cultura cabo-verdiana e não é justo que o nome de Tuta Melo não tenha sido dado a uma artéria da cidade do Mindelo como já também solicitámos para a família Marques da Silva.

Os primeiros passos para a criação dum cinema cabo-verdiano também foram dados nos anos cinquenta, com filmes produzidos em Cabo Verde: "O Guarda Vingador" e "Segredo de um Coração Culpado", da autoria de Henrique Pereira, português com uma grande experiência humana conquistada no Brasil, com a participação de António Silva (Antone Puntchinha), Dante Mariano e Djosinha, actual cantor do conjunto VOZ DE CABO VERDE, que interpreta a morna "LUIZA" da autoria de B.LEZA a pedido do produtor e a "Força de Cobiça" de Chiquinho Djunga. Face às dificuldades financeiras, ao controlo da Censura e também à falta de mercado, esses filmes acabaram por desaparecer e não se sabe se existem algumas cópias em Portugal.

A verdade é que o cinema constituía a única escola da "liberdade possivel" em Cabo Verde, graças à boa vontade de homens como César Marques e Tuta Melo que, aliás, passou também a explorar o cinema na capital - Praia.

Em 1961 foi criado um cineclube na Praia, animado por Filinto Correia e Silva e que por esta razão foi preso com um grupo de nacionalistas cabo-verdianos pelo facto de ser um activista cinematográfico. Como se vê, querer fugir às malhas da Censura podia levar mesmo um cinéfilo à célebre prisão de Tarrafal.

Os filmes glorificando a missão gloriosa da Igreja e da colonização eram simplesmente apresentados nas escolas primárias e muitas vezes obrigavam os dois cinemas a apresentar tais filmes ao público.

Tanto o Eden-Park como o cinema Miramar evitavam passar tais filmes e, quando forçados, havia sempre um boicote dos cinéfilos, graças à consciencialização recebida nos dois cinemas do Mindelo.

Se o cinema Eden-Park resiste ainda, tudo isso deve-se à acção corajosa de Maria Luiza Marques da Silva, esposa do falecido Djosa Marques, enquanto o cinema Miramar hoje pertence a uma seita religiosa.

Esta senhora merece um lugar cimeiro na resistência cultural mindelence e de Cabo Verde e merecia de há muito uma homenagem do nosso Município e uma condecoração da Nação cabo-verdiana.

O cinema vai também exercer o seu papel na luta de libertação: Amílcar Cabral, que foi um dos animadores dum clube de cinema na Praia, ou ainda Abílio Duarte, uma das grandes figuras da cultura cabo-verdiana nos anos cinquenta em São Vicente, recorreram ao cinema para denunciar as atrocidades coloniais.

Alguns cineastas italianos como franceses filmaram a luta de libertação na Guiné-Bissau e esses filmes eram utilizados também pelos anti-colonialistas portugueses na emigração portuguesa em França no sentido de não participar na guerra contra os povos africanos. O movimento associativo cabo-verdiano e guineense também se serviu desses filmes para a sua propaganda politica.

Com o 25 de Abril, esses filmes entram em Portugal e colónias e hoje constituem um testemunho dum passado de armas que conduziram o Povo de Portugal e das suas colónias à Liberdade e a Independência.

O trabalho de consciencialização política foi feita através dos dois cinemas. Mas também não se pode ignorar o papel transmissor dos emigrantes que contavam tudo o que tinham visto no estrangeiro e em especial os filmes que eram esperados como uma enorme satisfação.

Cabo Verde tem sido tema de alguns filmes estrangeiros e alguns romances cabo-verdianos tais como os "Flagelados do Vento Leste", de Manuel Lopes, o "Testamento do Senhor Napumeceno", de Germano Almeida, e "Ilhéu de Contenda". de Henrique Teixeira de Sousa, têm sido levados à tela por estrangeiros e sendo deste ultimo Leão Lopes, cabo-verdiano, seu produtor.

Mas falta a Cabo Verde o seu cinema e as Câmaras Municipais e o Governo, num pais isolado e com dois terços da sua população no exterior, já deviam ter repensado a importância do cinema na formação da nossa juventude e na divulgação da nossa cultura.

Reflectir sobre o papel do cinema na consciencialização nacional ou na luta de libertação pode constituir um tema importante, pois nos permite fazer justiça e homenagear José Marques da Silva e família e também o Tuta Melo, e em especial o povo dos arreadores da cidade que sempre os apoiou. Cabo Verde deve libertar meios para que possamos ter um cinema à dimensão do seu povo.

Somos informados de que o cinema Eden Park vai ser vendido a uma empresa estrangeira. Seria grave que o Munícipio de S. Vicente e o Estado de Cabo Verde permitissem que fosse perpetrado tal crime contra a nossa cultura e a nossa dignidade de cidadãos formados no cinema Eden Park.

Estamos dispostos a apoiar uma petição da Câmara Municipal de São Vicente ou do Ministerio da Cultura para comprar o cinema Eden Park, que aliás não faz parte somente do património de São Vicente mas sim de todas as ilhas de Cabo Verde.

Mindelo sem o seu Eden Park nunca mais será Mindelo e o Estado de Cabo Verde não pode permitir que este património nacional seja vendido a estrangeiros pois que, graças à acção da Dona Maria Luiza Marques da Silva, os seus trabalhadores e o bom povo das ilhas sediadas em Mindelo têm conseguido resistir a todas as crises sociais, económicas e tecnológicas.

Se o Eden Park for vendido, essa grande senhora Dona Maria Luiza Marques da Silva, uma verdadeira passionária do cinema, como tantos patrícios dispersos pelo Mundo perderão uma parte da memória colectiva do Mindelo.

Quem será o responsável por esse crime? Pedimos à Camara Municipal de São Vicente, ao Ministério da Cultura, para associar os emigrantes na luta pela preservação do Eden Park e estamos dispostos a colaborar a todos os níveis para não deixar desaparecer o Eden Park.

Como pode estar tão silenciosa a sociedade civil de Mindelo que soube sempre gritar contra todas as injustiças?

Unamo-nos para salvar o Eden Park porque ele faz parte da nossa história colectiva…


Luiz Silva