EXCELENTÍSSIMA SENHORA PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE S. VICENTE


Venho, por este meio, juntar a minha voz à de quantos já manifestaram a sua apreensão pelo risco iminente de virmos a perder o nosso saudoso cinema Eden Park, um património que é propriedade particular mas que pertence a todos os mindelenses por razões consabidas que seria exaustivo aqui e agora relembrar.

Esta é daquelas pertenças que não se escrituram com letra jurídica, mas que têm a marca de um sentimento de partilha que é arbítrio exclusivo do coração, santuário do insondável mistério que gera todas as verdadeiras paixões.

Mas a nossa paixão pelo cinema Eden Park não nasce de qualquer mistério, é um sentimento simples como a morabeza da nossa gente, mágico como o olhar das nossas crioulas, gostoso como a papaia madura das nossas ilhas.

A nossa afeição pelo Eden Park começou e éramos ainda as criancinhas que se deslumbravam com os desenhos animados do Walt Disney, cresceu e éramos os adolescentes que se maravilhavam com as aventuras românticas e as paixões humanas que na tela se desenrolavam.

Com o andar do tempo, jovens sonhadores ou adultos feitos, a nossa afeição pelo Eden Park tinha já a força do sentimento amadurecido e a certeza dos compromissos que o tempo nunca dissolve.

Na ausência de meios de cultura mais diversos, mais prolixos e mais instantes, o cinema Éden Park e, mais tarde, o cinema Parque Mira Mar, preenchiam o nosso imaginário e eram a porta que se nos abria para conhecermos o mundo exterior e outras épocas da civilização, com os seus sucessos e as suas glórias, e os seus dramas e as suas tragédias.

Para o mindelense, o cinema foi uma escola aberta para o conhecimento da cultura e da história dos povos, e, ao mesmo tempo, um espaço onde o espírito ganhava asas e voava para os confins da fantasia, desvanecendo-se, recriando-se e fazendo esquecer por instantes as dificuldades da vida real.

Julgo saber que a Senhora Presidente foi "menininha" do meu tempo, certamente minha contemporânea no liceu, e, portanto, protagonista das mesmas mundivivências de um tempo em que nos contentávamos com pouco, mas um pouco em que cabia toda a grandeza e irreverência dos nossos sonhos juvenis.

Ora, o cinema Eden Park era um dos epicentros desse espaço em que o espírito se cultivava e libertava. Não somente com o cinema, mas com outros eventos como o teatro, iniciativas musicais, saraus culturais, bailes carnavalescos, concursos de beleza, etc, etc.

Ausente por longos anos da minha terra natal, a saudosa recordação do Eden Park foi um dos ícones da memória que guardei sempre, tanto que, reencontrando-me na minha ilha com as antigas emoções, viria pouco tempo volvido a escrever uma crónica publicada no jornal on-line Liberal com o título "Cinema Paraíso".

E este era precisamente o Eden Park. Estou convencido de que a minha nostalgia é a mesma de todos os cabo-verdianos, sobretudo os da diáspora, que, na ausência, se agarram aos valores intemporais que rasgam a distância e mitigam a saudade.

Todos nós partilhamos o sentimento encarecido da importância do Eden Park como património cultural que importa preservar.Infelizmente, não dispomos na nossa ilha de uma riqueza patrimonial no âmbito da cultura que permita o esbanjamento daquilo que temos.

Sim, porque destinar o edifício do Eden Park a uma servidão afecta ao imobiliário, ao comércio, ou ao turismo, risca a possibilidade de preservarmos uma importante referência da história da nossa cultura.Portanto, não tenhamos medo das palavras, é um esbanjamento, uma perda irreparável, uma alienação intolerável.

A senhora Presidente tem todo o direito de pensar que as palavras são bonitas mas que o dinheiro é a mola real para a solução dos problemas quando, no caso em apreço, o que está em causa é a sustentabilidade económica do Eden Park como empreendimento de indústria cinematográfica. É verdade, não ignoramos o problema e as suas origens. Lamentavelmente, ou não, os tempos estão difíceis para a exploração rentável das salas de cinema.

Todavia, o que pedimos é que o assunto do Eden Park seja levado à discussão na Assembleia Municipal, que se faça um "brainstorming" de que saia um acervo de ideias para uma solução favorável e a contento do interesse do povo mindelense.
Sugestões, muitas se equacionam e eu próprio me atrevi a sugerir algumas num artigo publicado no já citado jornal on-line Liberal.

Em primeiro lugar, penso que a autarquia deve envolver o governo no contributo para uma solução. Depois, procurar parcerias e investimentos privados, internos e/ou externos, tendo em vista um projecto de multifuncionalidades que englobe uma sala polivalente para cinema, teatro, congresso e realizações culturais, e ao mesmo tempo que explore as potencialidades do espaço exterior envolvente para actividades comerciais complementares.

Esse espaço envolvente pode assumir a forma de galerias para integrar lojas de utilidades, confeitarias, artesanato, livrarias, ateliers, núcleos museológicos, postos de informação turística e cultural, etc. Bem sabemos que a viabilidade do projecto exige que se estude bem a vertente comercial e outras formas de financiamento possíveis.

O edifício poderá manter ou não a sua fachada, tudo dependendo do desenho do projecto que for concebido para os fins em vista. Poderá chamar-se Centro Cultural ou receber outra designação qualquer, em função da sua polivalência, mas sem dúvida que o nome Eden Park jamais lhe poderá ser sonegado. É evidente que tudo isto não passa de modestas sugestões de um dos muitos cidadãos desta diáspora cabo-verdiana.

Senhora Presidente, perdoar-me-á o tempo que roubei à sua apertada agenda de afazeres, mas creia que é grande a minha expectativa de que vai debruçar-se seriamente sobre o problema Eden Park. Os mindelenses agradecem-lhe e confiam em quem já deu provas sobejas de criatividade, dinamismo empresarial e sensibilidade social na esfera da sua actividade privada.

Com os melhores cumprimentos e votos dos maiores sucessos no exercício do seu importante cargo político.


Adriano Miranda Lima

V o l t a r