"Éden Park", também de S. Vicente, é seguramente o meu…

NOSTALGIA DO "CINEMA PARAÍSO"

Ausente 40 anos dos cinemas da minha infância, quando regressei ao torrão natal lembrei-me logo do meu "Cinema Paraíso". Quem não tem um "Cinema Paraíso"? Pode ser um cine-teatro tradicional assim como um modesto recinto público ou espaço disponibilizado temporariamente.

O meu podia ter sido o antigo "Parque Mira Mar", em S. Vicente, do saudoso Tuta, mas esse rendeu-se ao fulgor místico das novas crenças religiosas e são hoje outras as cenas que lá se desenrolam, reais ou imaginárias, com realizadores e actores virtualmente comprometidos com a promessa do céu.

Mas é seguramente o "Éden Park", também de S. Vicente, o meu "Cinema Paraíso", o que faz jus aos pergaminhos da rugosa antiguidade e onde entrei pela primeira vez aos 8 ou 9 anos pela mão do meu pai para ver o filme "A Justiça do Sul", como prémio pelo sucesso do meu exame da terceira classe da instrução primária.

O título invoca desde logo o filme do mesmo nome realizado por Giuseppe Tornatore em 1988 e galardoado pelo Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes e por um Óscar da Academia de Hollywood por melhor filme estrangeiro.

O filme é um tributo à 7ª arte através do enaltecimento do efeito encantatório do cinema numa época em que não havia televisão e muito menos os actuais recursos das tecnologias de comunicação.

Sendo um dos meus filmes de culto, sirvo-me dele como mote para esta crónica, na tentativa de transferir o seu imaginário para o roteiro da minha infância.

O "Cinema Paraíso", como vivência no campo emocional, tanto pode envolver o nome de uma sala de cinema como evocar a expressão lúdica associada ao cinema enquanto meio de recreação, fantasia ou fuga ao real.

Normalmente, é na sala de cinema da nossa terra ou do nosso bairro que se congrega todo o imaginário que o espírito constrói na adolescência com a exuberância, a ansiedade e a emotividade que a verdura dos anos se permite.

Nessa idade, sem nos apercebermos, a sala de cinema deixa de ser um mero espaço físico para se tornar o local simbólico de amplificação catártica das figuras e heróis de "celulóide" que na nossa pueril ilusão ganham a auréola de mitos.

Os instantes de magia já não se contêm no espaço exíguo do ecrã; projectam-se para além dele, plasmam-se no ambiente circundante, impregnam-se no próprio ar que se respira, transferem-se por emulação para pessoas e situações concretas, de tal modo que o cinema, na sua múltipla envolvência, se torna o repositório de eleição de todos os sonhos que inspiram o nosso quotidiano, muitas vezes subvertendo a noção do real.

É como se laços invisíveis unissem indiferenciadamente a fantasia e a realidade, laços de que somos os arquitectos, na ânsia de rasgarmos os limites dos nossos horizontes.

Ausente 40 anos dos cinemas da minha infância, quando regressei ao torrão natal lembrei-me logo do meu "Cinema Paraíso". Quem não tem um "Cinema Paraíso"? Pode ser um cine-teatro tradicional assim como um modesto recinto público ou espaço disponibilizado temporariamente.

O meu podia ter sido o antigo "Parque Mira Mar", em S. Vicente, do saudoso Tuta, mas esse rendeu-se ao fulgor místico das novas crenças religiosas e são hoje outras as cenas que lá se desenrolam, reais ou imaginárias, com realizadores e actores virtualmente comprometidos com a promessa do céu.

Mas é seguramente o "Éden Park", também de S. Vicente, o meu "Cinema Paraíso", o que faz jus aos pergaminhos da rugosa antiguidade e onde entrei pela primeira vez aos 8 ou 9 anos pela mão do meu pai para ver o filme "A Justiça do Sul", como prémio pelo sucesso do meu exame da terceira classe da instrução primária.

Uma razão inexplicável levou-me, no entanto, durante o meu regresso à terra natal, a não revisitar logo o saudoso cinema, limitando-me a contemplar de longe a sua fachada exterior, num gesto que tinha o significado de uma espera calculada para melhor insuflar a vontade do reencontro.

O que ia enxergando permitia-me todavia concluir, desiludido, ou talvez não, que as longas filas nas bilheteiras das noites de estreia pertenciam já ao passado.

Em Cabo Verde como na Europa, o fenómeno tem o mesmo rosto pesaroso de negócio que já teve melhores dias. Ah, mas sentia que lá estavam ainda aqueles miasmas indissolúveis de tantas matinées e soirées. Ainda tinha a sensação de avistar o andar ondulante dum John Wayne pelas ruas de qualquer cidadezinha do Far West, a esquivar-se ao restolho levado pelo vento do deserto do Arizona.

Parecia-me ainda distinguir ao longe a alta e esguia figura dum Gary Cooper, na sua obsessiva encruzilhada com um comboio que há-de apitar sempre mais uma vez. Era impossível não vislumbrar o beijo de celulóide entre um Tyrone Power e uma Lana Turner, ou o sapateado dum Fred Astaire ao lado duma Ginger Rogers.

O filme "Cinema Paraíso" transporta-nos, pois, para as memórias do cinema do antanho. Sim, do antanho, porque o cinema de hoje deixou o seu antigo culto ancorado no largo fictício onde emergiram os mercadores de vídeo, televisores, DVD, pipocas e coca-cola.

O impulso, como sempre, foi dado pelos EUA, não havendo sala de cinema americano ou europeu em que não floresce o negócio da pipoca e da coca-cola. Em Cabo Verde, o amendoim torrado parece, contudo, resistir ainda à uniformização.

É a chamada globalização com todo o seu cortejo de questionáveis virtudes do progresso e do bem-estar. Por isso é que concordo de algum modo com quem afirmou que o verdadeiro inimigo do cinema tradicional é a pipoca a estalar prosaica e despudoradamente nos dentes enquanto passa na tela a cena mais apelativa de um filme.

O cinema nos tempos idos era o apaziguamento de um dia de trabalho, a porta de entrada para um mundo de fantasia que postergava por instantes a visão da vida real com as suas agruras e dificuldades. As noites de estreia ou as matinées de domingo eram normalmente aguardadas com indisfarçável ansiedade, para muita gente as únicas oportunidades de verdadeira evasão espiritual.

O vestuário incorporava então adereços de compromisso com um autêntico ritual de festa ou encontro social. Mas a festa mais efervescente e buliçosa, quiçá a mais autêntica, acontecia quando a rapaziada novinha via o preço do bilhete descer ao irrisório 1 escudo, assim conseguindo a baixo custo a fruição de uma tarde ou noite deslumbrante.

Era só aguardar que um rapaz conhecido por "Cacói" aparecesse com o cartaz ambulante com a cifra social bem escarrapachada a giz de cor. O "Cacói" assumia então a áurea de anjo mensageiro.

Já lá mais para o fim, depois de ter dado tempo ao tempo, entrei finalmente no Éden Park para ver um filme, disposto a enfrentar de vez, e cara a cara, os saudosos mitos do meu imaginário, com ou sem pistola de pólvora seca, com ou sem pose de galã romântico.

O filme em causa era de tema policial, mas insípido e vulgar, fastidioso mesmo. Mas não havia outro que servisse de pretexto ao meu ansiado desjejum.

Ainda por cima o Éden Park estava praticamente deserto de gente, sem aquelas enchentes da "geral" que ao menos pudessem relembrar-me o ruidoso estilhaçar da casca do amendoim entre os dedos ou os estridentes aplausos às façanhas do herói ou mesmo a pateada às falhas acidentais do projector de serviço. Nada disso houve.

O meu semblante era já a imagem perfeita do vazio e da decepção quando sou surpreendido por uma visão crepuscular que subitamente lança um manto de opacidade sobre as cenas sensaboronas do filme.

De entre a bruma da sala, avisto então a figura altaneira do John Wayne a cavalgar à desfilada em direcção aos espectadores. Mal refeito ainda do meu espanto, o "Duke" apeia sem deixar parar a montada e coloca-se ao lado de Gary Cooper no instante preciso em que soa o apito lancinante do último comboio.

O que se seguiu foi a mais pura ficção do western, sem a ambiguidade dos enredos complexos. Fui ainda perpassado pela vaga sensação de ouvir a ruidosa ovação da antiga "geral" quando os "bandidos" foram derrotados.

Por momentos, não sabia se estava perante um truque de realizador ou se os meus sentidos tinham galgado outra dimensão do real. Mas o que é afinal realidade e fantasia quando sentimos tão frouxa a sua linha divisória?

À imaginação damos as rédeas que quisermos e o resto deixamos à sua volúvel relação com os sentidos. Pelo encantamento e pela nostalgia que desperta, o filme "Cinema Paraíso" foi das mais sinceras homenagens a uma 7ª arte que explora novos recursos da técnica e da criatividade, mas nem sempre com bom gosto e atilado comedimento.


Tomar, 18 Outubro de 2005

Adriano Miranda Lima