CHICO GAIOLA

MEMÓRIA FUTURA

Chico Gaiola badiu "di pé ratchado", Chico Mascarenhas, D.Francisco de Mascarenhas descendente de donatários das Ilhas ou ilustre descendente da casta dos brâmanes o cérebero de Xiva?.

Esse meu avô que me doou nas veias esse toque da Indía mas que era branco de pele merece um Picasso que lhe sobreponha as formas, os ângulos e as cores convidando a todas as leituras possíveis.

Mas na ausência do génio cabe-me a mim que gosto mais de esculpir do que pintar desenhar-lhe para memória futura, porque não é figura para estatuária de pedra rupestre ou mármore polido. Talvez um Centauro em que uns chamam besta e outros homem de rabo de cavalo.

Para mim que o conheci no terceiro capítulo de sua vida era um homem que se destacava por assumidos comportamentos fora das normas do lugar e do tempo.

E gostava de se rodear de crianças a quem baptizava com nomes inventados como:Tuna, Djibla, Djibilau, Djibiluca… pactuava com elas e não dava meio tostão sem ser em troca de algo como por exemplo uma caixa de fósforo com grilos, um gafanhoto.

Nos dias de calor deitava-se num beco poluído de odores de peixe frito e pasteis de "diabo dentro" dos fogareiros dos vizinhos de sua rua numa cadeira de lona e rodeava-se de caixa de grilos compradas à meninada e fazia de conta que estava no campo..

Foi pioneiro e diletante de tudo o que era novidade no seu tempo. Montou para uso particular uma linha de pirulitos (refrigerante), montou uma oficina completa de ourives, tinha uma pesada máquina de escrever onde dactilografava as cartas, petições e requerimentos de todos os badios de fora analfabetos e cobrava dinheiro para que as pessoas valorizassem o seu trabalho.

A janela de sua casa transformou-se numa montra de informações. Termómetro para temperatura , higrómetro, calendários actualizados e informações várias.

Comprou uma máquina de filmar e passava filmes mudos na sua sala onde alinhava algumas cadeiras e o resto no chão e bancos. Filmou a filha bébé a comer papa e como nunca se tinha visto tal em Cabo Verde tinha sempre clientes pagos.

Como era díficil renovar as "fitas" a garotada inventou aquela lengalenga. Chico Gaiola ê mentiroso, inganan ki era fita nobu kandi mim bâi era fita bédju".

Sua mãe a vóVina descendia de fidalgos portugueses e casaram-na por conveniência de linhagens, ainda muito jovem com um facultativo, como se dizia na época, da marinha portuguesa de Benolin na India portuguesa.

Não foi casamento por amor e o indiano que já era muito mais velho, morreu dois anos depois numa epidimia que estava a tratar deixando para o filho que nunca o conheceu, fotos, objectos e papéis conservados pela jovem que voltou a casar , desta vez com o homem que ela amava e de quem teve mais dois rapazes e três filhas.

Estudou no Seminário de S. Nicolau, casou com a filha do londrino St.Aubyn a quem faz treze filhos e infeliz De sexualidade desbragada fazia filhos a todas as empregadas e depois que a esposa se refugiou em S.Vicente onde havia o Liceu, com os filhos, arranjou uma jovem mulher a quem fez quatro filhos, tendo a última nascido seis meses após sua morte. Além desses conheço mais dois varões e duas mulheres todas reconhecidas e de mães diferentes.

Era o representante na Praia da Sociedade de Autores e adorava acompanhar e aconselhar todas as demandas judiciais e processos disciplinares.

Tinha uma biblioteca jurídica suficiente e enciclopédias de Arte e Medicina. Arranjava inimigos verruminosos devido a esses aconselhamentos.

Quando tudo corria bem obrigado e quando dava para o torto era "aquele faquir indiano" de maus fígados. Foi administrador de concelho , foi encarregado de Governo na ausência do Governador e solucionou um problema mecânico a Gago Coutinho e Sacadura Cabral na travessia do Atlântico Sul que se não fosse a sua curiosidade intelectual e habilidade mecânica teria atrasado a histórica viagem.

Tinha a mania de cortar o cabelo a todos os netos e outros jovens visitantes de sua casa , não com navalha mas com umas máquinas modernas. Creio mesmo que era o seu tique favorito. Dizem que quando era administrador mandava rapar o cabelo a todas as presidiárias.

Multifacetado, honesto e exigente viveu rodeado de filhos fora do casamento , que o adoravam, mas os treze filhos da mulher, sempre desconfiados e afastados noutras Ilhas com aquele Pai ausente mas sofridamente desejado.

Era hospitaleiro e recebia-os bem em sua casa quando algum deles se fixava na Praia, mas esses receavam sempre a aproximação por respeito à mãe vivendo noutra Ilha.

Alguns nunca lhe perdoaram . Mas os netos passavam por cima de tudo isso pois adoravam aquela casa de oficinas, cinema, fábrica de pirulitos.

E aqueles nomes especiais com que na sua forma de amar os identificava. Desses nomes sobreviveu o do Djibla.

Foi um Homem contraditório pois tinha vincadamente a marca socilógica dos Machos e detentores do poder do seu tempo, mas também um homem avançado e na vanguarda dos estreitos horizontes da Terra, na cultura e na ciência.

Como julgar a História de ontem com a consciência adquirida até Hoje?

Quem conta um conto conta o seu ângulo de visão. E para uma figura tão rica e complexa que venha outro e acrescente um conto. Faremos um Picasso literário.


"Magui"    Margarida Salomão Mascarenhas

V O L T A R