Carta Aberta aos Políticos Caboverdeanos – Um texto de José Fortes Lopes

DR. ADRIANO DUARTE SILVA, MEMÓRIA INCONVENIENTE EM CABO VERDE

O governo com a sua acção colocou em dificuldades o PAICV no Mindelo, não percebendo que nesta matéria não havia opção possível senão o fim da intransigência e a abertura do diálogo. A rejeição de todas as propostas alternativas oferecidas, é a prova que o governo estava decidido em desbaratar este património. Quando se pretende conservar e restaurar o que resta do património da Cidade Velha, patrocinando a sua candidatura a Património de CV e Mundial, e se propagandeiam iniciativas no mesmo sentido para todo o património do país, fica-se incrédulo e perplexo com tamanha incoerência

Este artigo surge no seguimento do triste evento que ocorreu no Sábado 18/09/10, um acto repressivo com cariz profundamente colonial, que correspondeu a demolição da casa onde residiu o Dr. Adriano Duarte Silva (abreviado ADS), o desfecho inesperado (?) de uma intensa luta levada a cabo por um grupo de cidadãos residentes e na diáspora. Desculpem-me a analogia, mas o governo de Cabo Verde (abreviado CV) comportou-se tal e qual o governo de Mugabe na questão da expropriação das terras pertencentes aos agricultores brancos, uma demonstração carregada de simbolismo ideológico e demagógico, que consistiu em tomar de força um bem e distribuí-lo como esmola à população desfavorecida.

Como é sabido a luta desenvolvida pelo Movimento Salvaguarda da Casa do ADS culminou com a votação na AMSV de uma moção em favor da preservação da casa, tendo sido sugerido encontrar um terreno alternativo para construção da nova Delegacia de Saúde. Nesta votação todos os deputados mindelenses aderiram à causa, incluindo o Sr. Presidente da República e personalidades afectas ao partido no governo. É de realçar a entrega total à causa, da UCID, a votação favorável do MPD e a abstenção corajosa do PAICV, um sinal claro de unidade relativamente a um desafio e um atentado a Mindelo. Não se pode descurar o trabalho nos bastidores efectuado por Onésimo Silveira para tentar estabelecer um diálogo entre as partes e o discurso sobre a vida e a obra de ADS que proferiu. Não se percebe a posição da Presidente da CMSV, Isaura Gomes, pessoa que teve no passado posições a favor do património da cidade, embora muitos estragos tenham sido feitos durante o seu mandato.

O governo com a sua acção colocou em dificuldades o PAICV no Mindelo, não percebendo que nesta matéria não havia opção possível senão o fim da intransigência e a abertura do diálogo. A rejeição de todas as propostas alternativas oferecidas, é a prova que o governo estava decidido em desbaratar este património. Quando se pretende conservar e restaurar o que resta do património da Cidade Velha, patrocinando a sua candidatura a Património de CV e Mundial, e se propagandeiam iniciativas no mesmo sentido para todo o património do país, fica-se incrédulo e perplexo com tamanha incoerência.

Não vou repetir aqui a extensa lista de pontos em favor do reconhecimento da casa como património do Mindelo, com identificou Maurino Delgado na conferência de imprensa de 21/09/10. O governo não só desrespeitou a posição pública do Presidente da República, do Ministro da Cultura precedente, os pareceres de entidades competentes como o IIPC, como também a opinião de muitos peritos na matéria e de uma vasta franja da opinião pública. O governo nunca quis discutir com os representantes do movimento. Não hesitou, todavia, em publicitar a intenção de dialogar com os ‘tughs’ esses perturbadores da ordem e paz urbanas.

Foi feito tudo para salvar a casa, depois da votação da AMSV? Não. O movimento não contou com o cronograma apertado do governo para ganhar as eleições no Mindelo, pelo que não se entrou atempadamente em negociações directas com o governo, para: apresentar, formalmente, propostas de terrenos alternativos; negociar a cedência da casa à sociedade civil; apresentar em concreto as diferentes propostas de projectos para casa, nomeadamente, Casa da Cultura, Museu da cidade, Pólo Universitário, etc.

A dialéctica marxista é imparável. Consegue inventar argumentos populistas, oportunista e simplistas, consistindo em contrapor o património à saúde, o património à barriga dos cidadãos, como se tratassem de conceitos pertencendo ao mesmo domínio sócio-económico. Ao povo diz-se, tomem lá uma Delegacia e calem-se, aos protagonistas do movimento utilizam-se argumentos baratos apelidando-os de ‘catchor de dos pe’ do desenvolvimento e alegando que só quem está ao favor do projecto da Delegacia nesta área é que está a favor o desenvolvimento da ilha, quando havia alternativas. A intenção é clara, baralhar as pessoas, sobretudo as classes populares.

É um tique dos regimes autoritários demolir símbolos inconvenientes usando como escudo, os interesses do povo, como se tivessem o monopólio desta vontade. Staline mandou demolir a maior parte das igrejas para eliminar a religião, que era, do seu ponto de vista, o ópio do povo e era, supostamente, responsável pelo atraso da Rússia czarista. Mais recentemente, nos anos 80 do século passado, Ceaucescu, o génio dos Cárpatos, mandou demolir quase metade de Bucareste para pôr a cidade à sua vontade, apesar dos protesto dos intelectuais romenos, das tomadas de posição do 1º Ministro francês Michel Rocard na ONU e da condenação pela Unesco. Fez desaparecer, para sempre, património romeno e mundial, peças de arquitectura medieval únicas, para aí erigir: um gigantesco mausoléu-palácio, desenhado para ele (viveu aí pouco tempo), uma região administrativa e residências para o proletário realizar-se ao estilo do realismo socialista. Na mesma lógica, os talibans, em nome do Islão, arrasaram as estátuas budas de mais de mil anos.

Antes de fechar esta longa introdução gostaria de perguntar ao governo se já mandou fazer o estudo do impacto necessário respeitante à terraplanagem da colina onde se situava a casa, para se saber se a obra não vai agravar a situação das cheias em caso de chuvas torrenciais, aumentando o escoamento de águas e podendo provocar inundações na baixa da cidade assim como deslizamento de terrenos. É que o frenesim desenvolvimentista está a fazer coisas com muita ligeireza, sem avaliar os impactos, físicos, ecológicos, sóciais, deixando o fardo para futuras gerações. A história da civilização Rapa-Nui na ilha de Páscoa que desapareceu por motivos alegadamente de sustentabilidade social e ecológica (congestão do espaço vital, extinção dos recursos, rivalidades tribais) deve ser sempre uma inspiração para se ponderar vias para o desenvolvimento CV (recomendo aos políticos, economistas e sociólogos etc e aos elitores, a leitura das referências 1 e 2 e de outros textos alusivos ao tema).

Voltemos ao assunto desta carta. ADR é um ilustre advogado mindelense, descendente da nobre linhagem dos Duarte Silva de Santo Antão. Pertenceu à elite da sociedade mindelense bastante estratificada da primeira metade do século XX, fortemente influenciada pelos valores britânicos. É, portanto, um ‘gentleman’ mindelense, com tudo o que isto comporta. Tornou-se num dos líderes políticos mais importantes de CV do seu tempo, tendo sido deputado no parlamento português, no regime do Estado Novo de Salazar, até inícios dos anos 60 do século passado. Nesta função foi um defensor intransigente dos interesses de CV (era preciso que alguém representasse os interesses de CV), tendo protagonizado causas importantes, como a instalação do Liceu Gil Eanes e a construção do Cais Acostável em S. Vicente (SV). Quantos caboverdeanos passaram por este Liceu? Gerações inteiras, incluindo Amílcar Cabral o Presidente da República, e quase toda a ‘inteligentsia’ caboverdeana actual residente e na diáspora. Quanto ao Porto Grande, o seu papel na economia do arquipélago é até hoje inquestionável. Estes são os dois grandes eixos estruturantes da sociedade e da economia caboverdeana, marcas indeléveis deixadas por ADS até aos nossos dias. CV e Mindelo são, infelizmente, pouco reconhecidos e mesmos ingratos em relação a ADS. Os mindelenses, em particular, têm sido ingratos em relação a tantas outras personalidades que desempenharam papéis importantes na economia, cultura, desporto, artes, ofícios etc. Não se hesitou em tirar o nome dessas pessoas das ruas mais importantes da cidade e substituí-las, por N’Krumas, Lumumbas, Dubois, Ches, etc. Nenhuma delas tem o nome Adriano Duarte Silva, José Duarte Fonseca e outros.

Mas a verdadeira história da ilha tem que ser redescoberta e ensinada aos jovens.

No que concerne as relações com a potência colonial, ADS era um defensor do estreitamento dos laços de CV à metrópole, Portugal, defendendo junto ao parlamento o Estatuto de Adjacência, que foi rejeitado pelo governo de Salazar. Será portanto, pouco provável, que ADS tenha tido motivações nacionalistas similares aos do Amílcar Cabral e tudo aponta que fosse para uma integração total entre os dois países. ADS viveu o seu tempo e temos que aceitar o homem como foi. Não esteve o governo de CV a fazer de maneira enviesada aquilo que ADS defendeu há meio século, como pedir a adesão a CE e a integração de CV nas estruturas militares da Nato, uma autêntica pirueta ideológica? Sejamos então coerentes e sérios quando tratamos a postura de ADS relativamente ao estatuto de CV relativamente à antiga metrópole.

Acontece o 25 de Abril de 1974 com a sua onda revolucionária e contestatária, ADS é completamente apagado da história oficial de CV, ao ponto de pessoas nascidas na sua própria ilha natal depois da independência o desconhecerem. O primeiro símbolo de ADS, o seu busto é derrubado em 1974, na sequência de uma autêntica orgia colectiva, com objectivo de fazer revolução e limpar todos os vestígios coloniais da cidade. Não se poupou sequer a pobre mas nobre biblioteca municipal do Mindelo, cujo espólio foi disperso. Felizmente nos anos 90, a contra-gosto o busto foi reposto. Mas como se percebeu, há ainda rancores persistentes de alguns sectores dogmáticos da sociedade sempre dispostos a derrubar ADS, como atesta o acto de demolição da casa.

ADS é uma pessoa que incomoda, é o anti-heroi, ‘o Homem Velho’, na dialéctica do ‘Homem Novo’ criado pela ideologia reinante. ADS é por isso, historicamente e politicamente ‘persona non grata’, memória a ser evacuada a todo o custo da história do Mindelo e de CV. A casa, ou melhor a mansão, onde viveu ADS, não obstante o seu valor patrimonial, torna-se um espantalho ou fetiche político, ‘um gongon’, algo que incomoda os sectores radicais, pois carregada ainda com a memória de ADS e com ameaças virtuais. De resto duvido que alguma referência ao seu nome tenha aparecido até hoje em algum manual de História. Percebe-se assim o silêncio dos intelectuais, mas também o silêncio dos inocentes e dos culpados. A sanha é portanto resultante de rancores políticos, velhos de mais de 40 anos, e que atravessam várias franjas dos sectores políticos. Mas com ADS, não há volta a dar, expulsam-lhe pela porta e entra pelas janelas.

Como é óbvio nenhum cidadão consciente, nem a sociedade civil mindelense aceitam esta atitude supersticiosa em relação à memória de ADS. Assim, a casa tornou-se o palco de um autêntico filme, um combate cívico, que culminou com um acto final em que o governo, todo poderoso, desferra o último golpe à memória de ADS, numa tentativa de imolar politicamente ADS na alto daquela colina, onde se situava a casa, para limpar para sempre um vestígio simbólico, supostamente colonial. Tivemos assim dois crimes no mesmo local. Um relativamente à dignidade e ao respeito à memória de ADS e outro à memória colectiva mindelense, uma tentativa de submissão da cidade ao poder central. Matou-se dois coelhos de uma só cajadada. Mas foi no mandato deste governo e da actual câmara que se cometeram os maiores atentados património do Mindelo, embora os maus exemplos começaram com a 1ª república e prosseguiram com os mandatos da câmara precedente, com os seguintes edifícios e áreas: Tribunal, Café Royal, Miradouro, Fortim, Éden Park, Ponte de Água no Cais da Alfândega, Terrenos de Ténis etc.

Não se pode também esquecer um detalhe importante para perceber a obstinação do governo com esta casa. É que há mais um problema. Ela funcionou como clínica do Dr. Duarte Fonseca, outra grande e importante, figura mindelense esquecida, tão inconveniente como ADS, defensor da adjacência, e homem que desferrou ataques violentíssimos ao PAIGC em 1974/75, ou seja, outro ‘gongom’ ideológico do governo.

Senhores políticos envolvidos nesta demolição. O que é que fizeram em S.Vicente desde a independência, que iguala em projecção e profundidade as muitas obras do ADS? Digam que obra estruturante foi implantada no Mindelo desde a independência que marcou de maneira tão determinante os destinos de CV. Será o elefante branco dos estaleiros da Matiota que roubou a praia mais querida dos mindelenses? Será o aeroporto muito esperado, sem iluminação adequada nem possibilidades de abastecer os aviões de grande porte? Continua a haver muita pobreza em Mindelo, desemprego elevado, violência, insegurança, tráfico e consumo de drogas, numa ilha abandonado à sua sorte, com sinais visíveis de decadência. Não é o país ganhador que se percepciona a partir de S. Vicente. Quando S. Vicente vai mal e em queda livre, não se pode ter um país vencedor. CV não pode ser vencedor, vencendo S. Vicente, colocando-o de rastos. Será o mesmo CV tão badalado, o país onde parece que os intelectuais se apagaram completamente da cena, onde domina uma nova burguesia novo-riquista e semi-colonial. Será o mesmo CV, este da delinquência, da insegurança, da decadência moral, do desnorte social, de uma sociedade que perdeu todos os valores e referências. Desafio-lhes a comparar os valores actuais com os ‘maus’ valores coloniais do tempo de ADS.

Antes de terminar queria interpelar o senhor Primeiro-Ministro e os políticos caboverdeanos. Nesta altura em que se aproximam as eleições é preciso começar falar uma linguagem de verdade ao povo e não vender sonhos. Responder claramente quais são os projectos que têm para CV, como projectam o país para o século XXI, num mundo em transição, numa grande encruzilhada, onde de um dia para outro, países importantes se tornam quase inviáveis, ver o caso da Grécia. Responder como CV vai-se inserir na globalização num mundo ferozmente competitivo e inseguro. Quais são os nichos em que CV vai-se especializar. De onde virão os investimentos e fundos num mundo onde os dinheiros de repente secaram. Continuaremos a receber fundos dos países amigos? Quais serão os nossos parceiros internacionais para a segurança e financiamento. Qual será o papel dos EUA da EU e da África. Como nos inserimos no xadrez mundial que se perfila complicado. Não tenhamos dúvidas o país cresceu mas temos desafios de viabilidade de um micro-estado num mundo globalizado.

Quanto à casa, infelizmente é um património perdido para sempre. Quem sabe se este movimento de cidadania servirá de alavanca para despertar cidade deste longo sono e reanimar a sua população.

Termino sugerindo que no dia na inauguração da Delegacia de Saúde, a cidade do Mindelo promova manifestações em favor da cidadania e da conservação do património. Que se faça neste dia uma estrondosa homenagem ao ADS e se coloque um busto naquele local com a seguinte inscrição: Neste local onde viveu Dr Adriano Duarte Silva, foi demolido, por razões ideológicas e eleitoralistas, um património arquitectónico da cidade, por ordem do Primeiro Ministro José Maria Neves e dos seus ministros Basílio Ramos e Manuel Inocêncio.

José Fortes Lopes - 1- http://www.vhemt.org/ecology.htm

-2 http://www.historiadomundo.com.br/rapa-nui/os-gigantes-da-ilha-de-pascoa.htm

José Fortes Lopes
 

V O L T A R


Comentário:

Já é tarde amigo. A casa já foi abaixo e ainda bem para todos nós da vizinhança. Pois a situação já estava ficando mesmo podre.

Joana Rosa               joanarosa@hotmail.com


Comentário:

O meu coração sangra ao ver a minha Terra (não só S. Vicente!, mas também Cabo Verde no seu todo!) num processo perverso de um mergulhar num apagão cultural total, por obra de homens do PAIGC (PAICV é uma FARSA!) que tiveram pelo menos a honestidade de nunca terem escondido a sua animosidade, ódio e desprezo por tudo que é memória colectiva dos cabo-verdianos. É preciso dizer que não teriam tido sucesso em pôr-nos a canga se não pudessem contar com intelectuais barriguistas e mugabianos...

antimugabes                ant@hotmail.com


Comentário:

Caro colunista José Fortes , admiro a sua coragem , em denunciar este governo , de querer (transfigurar ) a ilha de Sao Vicente,demulindo as suas construçoes de caracter monumental , em particular este prédio (CASA ADRIANA), que pertenceu -pertencia , ao grande ilustre , Dr.Adriano Duarte Silva . Nota-se claramente a intençao do PAICV , por intermédio do actual 1° ministro , querer fazer desparecer, tudo que é de valor cultuaral , na ilha de Sao Vicente , sob pretesto que se trata de vestigios do colonianismo . A historia é feita de acontecimentos , seja qual for a causa , e onde quer que acontece , por bem ou por mal, por mudança de regime politico , economico ou social , etc. Nao se deve limpar a historia , ela servirà para educar geraçoes em geraçoes , permetindo que o cidadao possa aprender , tomando consciência da existência do seu pais , através de séculos e séculos . Para isso os seus monumentos, servem de testemunha das épocas e dos acontecimentos . A CASA ADRIANA , era um monumento historico,que veio a desaparecer, pelas maos criminosas do 1° ministro , José Maria Neves, ignorando tudo o que é valor cultural , por nao ter a consciência, quais sao os motivos da existência do (SEU PAIS ) CABO VERDE .

kaboverdianidade              kaboverdianidade@yahoo.fr


Comentário:

Meus senhores, existem criaturas que por vezes dizem uma coisa, outras vezes outra sobre uma mesma realidade. Ou seja, essas criaturas agem de acordo com as circunstâncias. Meus senhores, pelo amor de Deus, nós temos que ter princípios na nossa maneira de ser e de agir e, sobretudo, devemos ser muito flexiveis. Por conseguinte, não devemos fazer tudo aquilo que nos der na gana. Tenho dito.

Admirador de Cabral                 fil.56@hotmail.com


Comentário:

O Onésimo está calado! Porquê? Será que o chamamento da barriga e do bem-estar pessoal prima todo o resto? Ele queas vezes é chamado de "prostituto político" por ter escrito contra os crimes do PAIGC e que algum tempo depois escreveu o contrário... E tudo isso sob o olhar indiferente de uma sociedade desnorteada sem intelectuais honestos e que marimbam em Cabo Verde...

guerrilheiro               cabo.verdiano gc@vg.com


Comentário:

Bom artigo de José Lopes, que põe no fio da navalha a consciência cívica e moral de quem decidiu suprimir o património arquitectónico que era a Casa Adriana. O opróbrio deste processo salpica todos os que nele participaram, seja Governo ou Câmara Municipal. Por isso, concordando com tudo o que foi aqui dito, permito-me apenas um acrescento.

Diz o autor: “Neste local onde viveu Dr. Adriano Duarte Silva, foi demolido, por razões ideológicas e eleitoralistas, um património arquitectónico da cidade, por ordem do Primeiro-ministro José Maria Neves e dos seus ministros Basílio Ramos e Manuel Inocêncio”. Pois tem de se completar o epitáfio assim: “…com a vergonhosa colaboração da Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente, Drª Isaura Gomes”. Esta verdade não pode jamais ser apagada da memória e do sentimento dos mindelenses.

É que a destruição daquele património jamais poderia ocorrer sem a cumplicidade, assumida ou mascarada, da Câmara Municipal. Em nenhuma cidade do mundo democrático pode o Governo central ter a veleidade de atentar contra os ícones locais sob a guarda do poder local se este não for um perfeito e descarado colaboracionista. Em última instância, perante um inevitável confronto de razões, o recurso é apelar à manifestação popular ou à resistência cívica. Isto quando a edilidade está, efectivamente, a interpretar correctamente os interesses e os anseios profundos da cidade que governa, em vez de enredada no jogo escorregadio de inconfessáveis comprometimentos eleitoralistas.

Quem troca por um prato de lentilhas símbolos da sua cidade não é digno de qualquer credibilidade política ou sequer consideração cívica, porque lhe falta o substrato indispensável ao estofo de quem tem a responsabilidade de governar. E quem governa um país preso a velhos preconceitos ideológicos a ponto de eliminar símbolos que lhe causam desconforto não merece a confiança e o respeito dos cidadãos.

Mas é bom que o povo abra os olhos e aprenda a separar o trigo do joio, não se deixando iludir pela mixórdia de argumentos com que tentam confundir as suas justas aspirações. Tal como diz José Lopes, a construção de uma delegacia de saúde não pode ter como moeda de troca a supressão de um património arquitectónico, pois, à semelhança da água e do azeite, são coisas que não se misturam.

Aqui reside o nó górdio com que tentaram enlaçar a percepção do problema da delegacia de saúde aos cidadãos do Mindelo. E consumada a malfeitoria, pergunto-me se isto é um caso de incultura ou de má consciência de políticos a quem os cidadãos deram o seu voto. Talvez uma coisa e outra. E, enquanto isto, os intelectuais da cidade permaneceram, e permanecem, num vergonhoso mutismo, incapazes de pensar que a sua Cidade está acima de quaisquer fidelidades político-partidárias ou de outro jaez.

No séc. IV a.C., Aristóteles, reflectindo sobre a natureza dos homens e preocupado com o seu aperfeiçoamento, disse no seu Tratado sobre a ética, Ética a Nicómaco, que a actividade jurídica e a política estão unidas à moral, uma vez que o fim último da política é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos, e o fim último do Estado é proporcionar o conjunto dos meios necessários a essa formação.

Adriano Miranda Lima

V O L T A R


Comentário:

Infelizmente na nôs terra ê sô burréza.. Mindelo esteve sempre na mira dos canhões deste partido que só vai parar quando tiver tudo morto e enterrado. Ah como o povo tem memória fraca.. E agora o PM promete uma mini Brasília na Praia. Gostava de saber o que vão mandar abaixo para constriur essa tal da mini Brasília. Vão arrasar o platô? Ou vão arrasar mais uns quantos edifícios com história?

platoniano                 platoni@hotmail.com


Comentário:

Best revenge, povo de S.vicente ! eleicao no proximo ano

linda            tavaresl@hotmail.mail


Comentário:

Pelos vistos Cabo Verde está à mercê de um estado que atropela tudo e todos para fazer o que quer. Parece que estamos num estado em que "enquanto os cães passam a caravana passa". Até quando? Isto não é democracia, não existe C. Municipal não tem autonomia ainda por cima é desrespeitada. O país está anestesiado, e se calhar até morto. Adé Zau já bô psú já’s pôb pê na cathchósse diazá.

Anacleto Vieira             Cleto.vieira@yahoo.com


Comentário:

Já está na hora de avançarem para outra história... esta... já era! Já não há remédio, para quê chorar sobre leite derramado? Preocupem-se com outras coisas que se passam em Mindelo, como a falta de emprego, a prostituição, a falta de água, os cortes de energia, há muito por onde pegar e falar... Casa do Dr. Adriano já foi abaixo, agora é pensar no futuro, gente boa! Que se construa algo que sirva todos nós... Abraço

Sofia                       sofialoren@hotmail.com


Comentário:

O nicho em que Cabo Verde se especializou é no da FRAUDE eleitoral. Só por via da fraude é que se permite assegurar ao país, antecipadamente, de que o MPD vai perder as próximas eleições a favor do PAICV. Em democracia alguma é possível anunciar convictamente, vitórias antecipadas, a tantos meses das eleições. Mas, entre nós, é o que os dirigentes do PAICV fazem de cada vez que falam para a comunicação social. Assim, caro amigo J.F. Lopes, para além de lhe congratular pelo belo texto de opinião, substancial e sério, peço-lhe que atente ao seguinte: - entre o(s) anunciado(s) Cluster(s), do mar, por exemplo, (este, um absurdo autênctico) Cabo Verde, sob a governação do PAICV, concorre modelarmente, face aos países da nossa sub regiáo africana ou aos PALOP, pois só em relação a esses podemo-nos comparar, na fraude eleitoral. Nada mais! O resto é cantiga. Por outro, subscrevo a ideia e é de se esperar que, "no dia na inauguração da Delegacia de Saúde, a cidade do Mindelo promova manifestações em favor da cidadania e da conservação do património. Que se faça neste dia uma estrondosa homenagem ao ADS e se coloque um busto naquele local com a seguinte inscrição: Neste local onde viveu Dr Adriano Duarte Silva, foi demolido, por razões ideológicas e eleitoralistas, um património arquitectónico da cidade, por ordem do Primeiro Ministro José Maria Neves e dos seus ministros Basílio Ramos e Manuel Inocêncio". Finalmente, um apelo denunciante ao MPD: Vai ficando tarde demais para demonstrar ao Governo e partido que o sustenta, através de manifestações fortes de rua, de que nós não suportamos mais os desmandos que têm caracterizado várias das suas acções. É ou não tempo de mudança? Sejamos, pois, coerentes.

Carlos Kruz                 Ckruz@hotmail.com


Comentário:

Eu não sou admirador de Cabral porque não o conheci a governar... Se Nini Vieira tivesse morrido em combate ele seria hoge um herói!!!

Antão Santos                ansa@hotmail.com


Comentário:

Certo que a democracia nos permite dizer tudo o que ressentimos a condição de assumirmos toda a responsabilidade. O tema está consequente mas com um pouco do repetitivo ou melhor como dizem os brasileiros um pouco do chover no molhado.

Irineu Matias               irineu.matias@cvtelecom.cv


Comentário:

Cabe ao MPD ganhar essas eleições, enxotar o PAICV para longe, aranjar um arquitecto rústico para tratar dessa casa. Ou seja, voltar a ter a casa do Dr. Adriano Duarte Silva. Vê-se que esse Primeiro Ministro não passa de um grande iletrado que não percebe nada da cultura geral quanto mais do respeito pelo povo. Se fosse com o Veiga, seria "cada galo no seu poleiro". Ando animada porque já tenho cem por cento de certeza matemática que o Senhor Veiga irá ganhar essas eleições ainda que surjam fraudulentos pelo caminhao. Ainda não me recenciei, mas vou a correr para a Embaixada esta semana para poder exercer o meu dever de voto, pois Cabo verde precisa urgentemente imirgir desse desse túnel em que encontramos.

A. ane.le.s@hotmail.com


Comentário:

Ó SOFIA! O seu comentário é de uma baixeza e de um vazio moral que até dá dó saber que é uma patrícia. Nunca soube que não se constrói nada sobre nada. cabo Verde tem que ser construído sobre as bases que deixaram os nossos antepassados e não inventonas dos inimigos deste povo! Quanto à prostituição, a droga, os apagões são meninos dos olhos dos novos colonialistas em Cabo Verde: os homens do PAIGC, isto é os homens di Mato que nunca explicaram sequer a morte de Amílcar Cabral. É NESTAS MENTIRAS QUE CABO VERDE VAI INDO À DERIVA!

BADIU DE SONCENT             badiusv@hotmail.com


Comentário:

A Sofia é Loren ou LOURA? Parece que é Loura. Burra não, de certeza, mas uma incondicional dos que desmandam neste país. Por isso, temos que ter paciência.

Carlos Kruz               Ckruz@hotmail.com

V O L T A R