Em depoimento de Nuno Álvares de Miranda


PATRIMÓNIO HISTÓRICO-CULTUTAL CABOVERDIANO (1)

Nuno Álvares de Miranda, português natural de Cabo Verde, nasceu na ilha de S. Vicente em 23-10-1924 e reside em Portugal há mais de meio século. Licenciado em Letras pela Universidade Clássica de Lisboa, áreas de Filosofia e História. Galardoado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, por actividades no âmbito da “cultura afro-luso-brasileira”

1.É inerente ao processo histórico o princípio de que a estreiteza da mente, anquilosada além do mais por limitações da cultura, não só atrapalha como restringe e perturba os horizontes perceptuais no entrechoque com pontos de vista contrários. Nestes casos entra em cena – quando entra – o aforismo popular que pondera em como "da discussão nasce a luz".

Isso me leva a remontar ao conceito da Ideologia inicialmente enquadrada no campo da Filosofia. Ao ser criada por Destutt de Tracy, a Ideologia enriqueceu com incontáveis contribuições o que se designou então por “Science des Idées”, enquanto suporte de todas as ciências, em continuação do que pela primeira vez, na história da filosofia, Locke já havia logrado, ao tratar o espírito humano à semelhança de quem se debruça e pondera quanto a um objecto da natureza, um mineral e se fosse o caso uma flor.

Considerado como o verdadeiro inspirador e senão mesmo o autêntico fundador da "Science des Idées", ao atribuir aos animais uma alma, Condillac admitiu-lhes a faculdade de sentir, julgar e recordar. Porém, devido aos pressupostos religiosos de que o seu pensamento se exornava, não se coibiu de solicitar as atenções para a diferença - infinita - que medeia entre a substância psíquica do homem e a substância psíquica de um animal...

2. Com base no que se expressa acima, segue dizer que, há algum tempo atrás, a Câmara Municipal de São Vicente não se coibiu de, em descabelada liça, apostrofar os que se ergueram viva voce a defender ciosamente a preservação dos valores do património histórico-cultural cabo-verdiano. Os munícipes que se indignaram receavam, como ainda receiam, que a edilidade pudesse arregaçar mangas, tal e qual nhô João Pritim nos seus tempos de coveiro municipal no cemitério da Ribeira de Julião, a fim de ela própria pegar com desfaçatez no camartelo municipal para, ignorante e cega, a torto e a direito, demolir à machadada o quanto possa estorvar a construção de um esborratado mas renovado rosto pseudo-modernista, fazendo assim do Mindelo uma cidade peralvilha e rococó.

3. Por mim, não acredito. Mas nunca fiando. Antes que se confirme o edílico e hipotético tresvario, adianta-se-me a ideia de referir aqui o que pedagogicamente é um símbolo.

Quem não sabe – pois não acredito que os cabeça-de-série no município não saibam ou não tenham aprendido com as explicações que o Filipe Cèguinha dava outrora por cinco mil réis a lição – quem não sabe, acentuava eu, fique então ciente de que ao invés de ser um macaco em trampolinagens por galhos no Rabo de Salina, o homem, sobretudo, "é um animal simbólico".

Se usamos aqui a ideia que Ernst Cassirer assim define, é porque o homem é um animal gregário, um animal político, um animal social e o símbolo a ser assim uma sorte de patamar no qual assenta todo o nosso comportamento e toda a nossa civilização. Em maior ou menor grau apreendidos, estes dois dados nos levam ao uso do símbolo no pendor valorativo e senão mesmo significativo que se contém num certo tipo de forma física. Por exemplo, à maneira representativa de um som ( o hino nacional de um país). Ou de uma cor, a que se entrelaçam outras mais, para resultar num conjunto que é a bandeira de Cabo Verde. Seja até na tipicidade de um gosto (o da cachupa ou então de um grogue de cana de açúcar). Designadamente, num gesto de cordialidade (o hospitaleiro e festivo gesto de B. Leza dizer "selô" na sua morna dedicada à barca "Sagres”).

4. Leslie A. White (“The Symbol"-The Origin and Basis of Human Behaviour, Language, Meaning and Maturity", Harper, New York) diz que a perpetuação das civilizações foi gerada pelo uso de símbolos.

Isso quer dizer que se os respeitáveis edis da Câmara Municipal de São Vicente entesteferrarem de vez, encasquetados na absurda ideia - pura e simplesmente aberrante - de capar a Ilha de São Vicente dos seus valores simbólicos, tal decisão mais não será que um maníaco exterminar de quanto lhes cheire a meios culturais ou meios históricos. Por exemplo, a demolição da casa novecentista que foi do ilustre compatrício Dr. Adriano Duarte Silva, o canhoneio a tiros de bombarda, num bota-abaixo, ao Fortim d´El Rey. E já agora, em fúria assanhada e de tal maneira demolidora, porque não antever o respeitável município a capá cabeça de Washington, no Monte da Cara, para ao invés construir, aberta à ventania, lá no alto da elevação, uma esplanada de colá Sanjon, panorâmica, sobranceira ao Porto Grande?

5. Se Mindelo – de que, por nascimento, parcialmente me pertence um quinhãozito, demais, por testemunhos em vária vez subscritos ao longo de muitos anos em Cabo Verde, em Portugal e no Estrangeiro – dizia eu que se a cidade do Mindelo não erguesse alta e sonora a voz simbólica dos seus pensantes, aos quais me associo incondicionalmente, a urbe estaria, desgraçadamente, a subordinar-se às malhas de uma loucura capaz de a incendiar por inteiro, a mercê de caprichos delirantes de uma eventual Vénus mitológica, de entre os deuses a vir do Olimpo, em ânsias terrenas de renascer, mimosa e linda, das cinzas da cidade incinerada....

21 de Junho de 2010

Nuno Álvares de Miranda

Nuno Álvares de Miranda

BIOGRAFIA ACTIVA DO AUTOR

Nuno Álvares de Miranda, português natural de Cabo Verde, nasceu na ilha de S. Vicente em 23-10-1924 e reside em Portugal há mais de meio século.

Licenciado em Letras pela Universidade Clássica de Lisboa, áreas de Filosofia e História. Galardoado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, por actividades no âmbito da “cultura afro-luso-brasileira”. Galardoado pela Associação Brasileira de Antropologia da Amazónia, de Manaus, Brasil. Prémio Camilo Pessanha (poesia) 1961 e 1964.

Foi co-fundador e redactor do movimento literário Certeza (1944-45), foi editor e colaborador do movimento Claridade e foi colaborador da Revista de Artes e Letras.

É autor dos seguintes livros:

POESIA: “Cais de Ver Partir”, Lisboa, Orion, 1960; “Cancioneiro da Ilha”, Braga, Ed. Pax., 1964 ; “40 Poemas Escolhidos”, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1974.

NARRATIVA: “Gente da Ilha”, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1961; “Poema”, in Sul, Florianópolis, 1954; “Recado”, in Cabo Verde, Praia, 1958; “Um poema do Cais de Ver Partir”, in Cabo Verde, 1959; “Crepuscular” in Garcia de Orta, Lisboa, 1961; “O Chá”, in Cabo Verde, 1962; “Cais de Pedra”; in Voz di Povo, 1989.

É autor de inúmeros artigos publicados na imprensa portuguesa e cabo-verdiana e foi responsável pela organização de váriasactividades culturais.

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V O L T A R

Comentário:

Estranho o nuno miranda!não se define como luso-caboverdiano, à semelhança de muitos caboverdianos que optaram pela nacionalidade portuguesa e pela portugalidade pátria, sem todavia renegar a sua matriz cultural caboverdiana (a sua caboverdianidade identitária). prefere considerar-se português nascido em cabo verde como, se por acaso, fosse filho de colono ou de um qual funcionário mondrongo!ao que chegam os ex-detractores de amílcar cabral e adversários da independência de cabo verde! gostaria de saber como o próprio define a nacionalidade da sua obra literária.

Manuel Lopes               manuellopes@gmail.com

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Comentário:

Este excelente artigo de Nuno Miranda vem ao encontro dos que aqui vêm denunciando a ameaça que paira sobre o património cultural cabo-verdiano, face à aparente insensibilidade dos autarcas.

Adriano Miranda Lima


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Comentário:

Gostei. Tem toda a razão. Torna-se urgente, inadiável um combate sérioaos edis do tipo Eugénio veiga de S. Filipe e outros de igual teor, que não respeitam o património construído, causa de orgulho para qualquer burgo que se preze. Gostei. Obrigado ao historiador, ensaísta e escritor, Luso-cabo-verdianao, Nuno Miranda. Bem haja!

Joana Inês Sá                joinesa@gmail.com

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Comentário:

Acho impertinente a observação do comentador Manuel Lopes. Na apresentação do autor do artigo não há equívoco nenhum. A nacionalidade dele é portuguesa, que a foi sempre desde que nasceu, e a naturalidade dele está explícita. Ou este comentador acha que a naturalidade se tem de confundir com a cor da pele? Disparate pegado!

Júlio Martins                jul_12martins@hotmail.com


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Comentário:

Enganei-me no comentário anterior. O que eu quis perguntar ao Manuel Lopes é se a nacionalidade (não a naturalidade) se tem de confundir com a cor da pele.


Júlio Martins   
              jul_martins@hotmail.com

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Comentário:

Bom artigo sobre a maculada raiz cultural que é o patrimonio. Esperemos que alguém leia e entenda o que significa símbolo para um Povo!... Mantenha desde cá do exílio, algures em Bolonha

Henrique De Pina Cardoso             hpcardoso@mail.telepac.pt

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Comentário:

Extraordinàrio artigo de Nuno Miranda, um caboverdiano que sempre acentuou, por onde passou, a sua qualidade também de "mnine d'Soncente"

Valdemar Pereira                         valdemar233@gmail.com

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Comentário:

Hà-de haver sempre um "contra". Neste momento em que mais uma pessoa a defender o nosso patrimonio (Cadê ADEMOS !!!)aparece um a dar show.

Manuel Rodrigues Silva                 manusilva@gmail.com


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Comentário:

Esperemos que as coisas vão ao lugar, como parece que estão a ir, no que se refere à «Casa Adriana», e que o povo de São Vicente continue a deixar-nos contributos cívicos como este de Nuno de Miranda, por uma coexistência mais condigna do que aquela que nos propõe quem quer este povo de Mindelo empalado entre betão, alcatrão, corrupção e publicidade enganosa.

Nuno Ferro Marques

V O L T A R