PATRIMÓNIO HISTÓRICO-CULTUIRAL CABOVERDIANO (2)

1. Conquanto nos recônditos da memória colectiva haja uma cifra – existencial, literária, musical, iconográfica e arquitectónica – que subjaz na forma de uma consciência histórica em conformidade ao sentimento íntimo do percurso cabo-verdiano, a História de Cabo Verde está por escrever com exaustão. De ser assim, poderá todavia dizer-se que a carência de investigação intensiva escrita no papel, e assente em provas directas e palpáveis, não logra invalidar ou apagar os indícios indirectos que outros documentos possam oferecer "latu sensu". Ao tempo em que por igual, se possa da mesma forma dizer que sem estes últimos testemunhos, a História – em si – se faria inexistente, quando é certo tais documentos comportam a História passível de ser interpretada à retícula perceptual de Jaime Cortesão,"à luz da cultura geral que os ditou e dos interesses confessados ou ocultos que podiam mover a pena do autor ao obrigá-lo a deformar ou a calar a verdade".

Colhe então assim dizer que só uma historiografia distraída ou menos preparada – para não a catalogar de viciada e senão também habilidosa e escamoteadoramente deformadora das constatações que se enquadram em parâmetros credíveis – poderia alguma vez alienar ou tentar apagar os significados últimos e assentes na verdade universalista em quanto concerne ao património histórico-cultural de Cabo Verde.

2. Vem ao caso dizer, em paralelo, que anda por aí gente desprovida de preparação não direi académica, porém, do foro da cultura, se bandeando na incapacidade de enxergar a noção do ser vivo, na dupla função que lhe compete de assegurador de continuidade e da estabilidade, enquanto um modo de fazer humanidade assente num projecto obviamente transmissível de geração em geração.

E se escrevo assim, é no âmbito de estudos universitários que levei por diante em Filosofia, sendo Mestres da Faculdade de Letras que me disseram da paideia qual um modo ou um sistema a qualificar o pensamento em que assentam valores como os ético-religiosos, os da educação e os da arte de um povo, demais, a implicarem de raiz funda uma teleonomia (enquanto continuidade) e uma invariança (enquanto estabilidade) circunstâncias determinantes e capazes de transmitir os códigos de uma mensagem estável porque em acúmulo. E então assim, invariante. Essa é a lógica que sustém a estrutura das nacionalidades. Essa, demais, a das estruturas culturais, e de um modo geral, a dos seres viventes, para seguirmos aqui François Jacob.

Posso então inferir que a continuidade nacional de uma entidade evolutiva como é o povo cabo-verdiano, não pode correr senão ao lado da tradição enquanto projecto ou um ens em continuidade, um estatuto que não condescende nem acerta com quebras regressivas no espaço e no tempo, deformadoras que estas são da realidade, porque de mãos dadas com o interesse pessoal, o do grupo de cada um, com a birra de um instante. E a outra perspectiva, digamos, de acordo com a mais chapada ignorância.

3. À margem de qualquer visão historicista do mundo das ideias, porém, à luz de que só a verdade moral pode pacificar por inteiro os espíritos e as almas, uma vez que só ela os pode re-fazer, cabe-me dizer que em inúmeras cidades veneráveis da Europa que tive a oportunidade de visitar por devoção, as ruas e as praças, as casas e as igrejas, os fortes e as capelas, assim como esquinas muitas e ladeiras, todas têm história e, debalde, a burrice e quanta vez a negociata canalhista tentou enodoar tais documentos com recurso a uma suposta modernidade de fancaria.

4. Por isso se consigna que em São Vicente ou em qualquer parte de Cabo Verde, progresso não poderá ser o bota abaixo para fazer bonito.

Progresso cabo-verdiano será, sim, dotar todos os povoados de água potável, instalações sanitárias, cozinhas e demais confortos, ao invés de casinholas quanta vez imunda, a esboroarem-se sobre famílias vezes sem conta famintas.

Progresso cabo-verdiano será erradicar o opróbrio da pobreza encapotada, a miséria militante de braço dado a surtos de dengue.

Não é progresso deitar abaixo o pouco que temos de histórica e arquitectonicamente relevante e, em seu lugar, prantar a lei do cimento armado.

Não é progresso um pseudo-plano urbano destinado a fazer uma limpeza generalizada a tudo o que seja antigo, a fim de levantar, ao invés, caixotezinhos indescritíveis com um quintalzinho de se grelhar uma cabeça de porco, uma botchada, uma tchacina, abafados com um dedalzinho de grogue comprado no Rabo de Salina na tasca de nhô Matijim ou quem por ele...

5. Disse Eliel Saarinen, o urbanista finlandês, que sendo a cidade um ser a três dimensões, ela não é um amontoado de casas acachapadas de riba de uma planta horizontal.

Estando um pouco da alma das cidades assente na linha quebrada dos telhados por forma a ser esquissada, no caso da nossa Ilha, a traça sinuosa do corpo que se construiu em volta do Porto Grande, a cidade do Mindelo é o homem que nela vive com os seus recordos e os cheiros do seu passado, é a força cósmica e indeformável das velhas ruas e largos ainda não conspurcados como a Praça das Estrelas ao que me dizem passou a ser.

E eu que andei e subi de um canto a outro. E eu que desci quantas ladeiras e montes sossegos, por ali andando a conviver sem alarde nem a tirar foguetes, posso dizer alto e bom som que a cidade e neste caso Mindelo, é de quem, presente ou embora longe, nela ou com ela vive. De pés fincados no chão antigo…

6. Afora visitas intermitentes, os mais de sessenta anos que trago de ausência dão-me à perspectiva das observações à distância, dão-me a noção de atentados passíveis de destruir pedaços inteiros do nosso próprio coração.

7. Daí o clamor colectivo – consoante o meu – dos cabo-verdianos nas ilhas e fora delas. É gente que de toda a parte a sair-se com o dedo acusador em guarda da cidade do Mindelo. É do seu porte altaneiro. Isso é conquista irreversível. Não é favor que se nos faça.

22 de Junho de 2010

Rua Augusto Pina, Lisboa

Nuno Álvares de Miranda

Nuno Álvares de Miranda

V O L T A R

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Comentário:

Este é o segundo de dois textos, sequentes, que o escritor Nuno de Miranda escreveu sobre a problemática do património arquitectónico-cultural cabo-verdiano. Contributos desta natureza são bem vindos quando e tornam por demais evidentes e preocupantes os sinais da pouca ou nenhuma sensibilidade dos governantes para com o nosso património.

Ainda recentemente li um artigo de Joaquim Saial sobre a estátua de Diogo Afonso e fiquei chocado com o actual estado em que se encontra o monumento (com grafites e sinais de vandalismo).

Oxalá esta como outras mensagens não caiam em saco roto (ou "aga num baloi”) e sirvam para uma séria reflexão sobre o que somos ou queremos ser e para que não se percam no vazio da irresponsabilidade governativa (cada um que enfie o chapéu que merece) elos importantes da nossa memória colectiva, testemunhos imperdíveis para que a história se faça sem complexos e sem exclusões.

Adriano Miranda Lima

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Comentário:

Temos a segunda parte de uma pertinente exposição sobre a defesa do nosso patrmonio. Espero que não seja o ùltimo artigo desse nosso conterrâneo que tanto admiro. Espero ainda ver outros compatricios (e não so!) com suas participações. Bem haja, Nuno !!!


Valdemar Pereira        valdemar233@gmail.com

V O L T A R